A união entre o trabalho do campo e a solidariedade nas periferias celebra o Dia Mundial da Alimentação com resultados concretos na garantia de refeições dignas. Em julho deste ano, dados da Organização das Nações Unidas confirmaram que o Brasil conservou a taxa de subnutrição populacional inferior a 2,5% no último triênio, marco impulsionado pela articulação entre a sociedade civil e programas governamentais.
Políticas públicas constroem ponte para a comida de verdade
O abastecimento desses pontos comunitários ocorre por meio do Programa de Aquisição de Alimentos, coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. O mecanismo adquire os itens colhidos por pequenos agricultores e os direciona às cozinhas solidárias, que são acompanhadas por iniciativas do Ministério do Desenvolvimento Social voltadas ao combate à vulnerabilidade social.
De acordo com Lilian Rahal, secretária de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social, essa engrenagem estratégica assegura assistência onde o poder público tradicionalmente enfrenta barreiras de acesso:
“Essa parceria faz com que nós consigamos entregar comida de verdade, alimentos produzidos pela agricultura familiar, alimentos saudáveis, em regiões onde nem sempre o Estado consegue estar presente por meio da sua institucionalidade”, diz.
Da agrofloresta urbana ao prato dos mais vulneráveis
Um dos pilares dessa cadeia produtiva está no cultivo agroecológico. Em São Sebastião, no Distrito Federal, a agricultora Hosana Alves do Nascimento transformou um lote urbano em um sistema agroflorestal diversificado, consorciando espécies frutíferas, oleaginosas, raízes e hortaliças variadas sem recorrer a defensivos químicos.
“Como é uma área pequena, então a gente otimizou para dar muita coisa. A nossa produção é considerada agroecológica, porque não usa veneno”, diz.
A chegada dessa produção diversificada também expõe a carência nutricional enfrentada nas periferias, situação que Hosana testemunhou de perto durante os abastecimentos.
“Em uma das entregas, um menininho perguntou à mãe: ‘Nós vamos comer melancia?’ Aquilo me doeu por dentro, de a criança não ter acesso a uma simples melancia”, conta a produtora.
Acolhimento e suporte comunitário no Distrito Federal
Na ponta final dessa rede está a Cozinha Solidária Cantinho da Vovó, situada em Brasília e gerida pela liderança comunitária dona Maria do Cerrado. A iniciativa fornece alimentação para mais de 800 cidadãos e distribui mensalmente 200 cestas de mantimentos para famílias previamente cadastradas.
A rotina do local conta com a atuação de 37 voluntários ao lado de dona Maria, que organizam triagens, higienização, preparo e a distribuição das refeições três vezes por semana. Para além do prato feito, a convivência comunitária atua na resolução de conflitos e suporte contra a violência doméstica.
“É o momento em que a gente se aproxima para conversar aqui dentro desse espaço que alimenta, onde a gente cultua o alimento como sagrado, como cura. Por isso, é feito com muito zelo”, diz.
Mobilização originada na crise sanitária
Ao resgatar a trajetória dessa estratégia contra a miséria, a ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, destaca que a articulação popular nasceu no período crítico em que o país integrava o Mapa da Fome, impulsionada pela própria população “que se organizou durante a pandemia e criou esses espaços da cozinha solidária”.
Agência Brasil




