As zonas de amortecimento e os arredores de Terras Indígenas, quilombos e Unidades de Conservação enfrentam uma pressão crescente da atividade produtiva na Amazônia. Em 2025, as propriedades agropecuárias já se estendiam por 30,5% dos territórios vizinhos a esses espaços ecologicamente resguardados, reflexo de uma expansão expressiva de 561% registrada ao longo de 41 anos.
Malha viária dita o ritmo da ocupação territorial
O levantamento da Coleção 11 do MapBiomas, que analisou a evolução da cobertura e do uso da terra entre 1985 e 2025, identificou uma relação direta entre a abertura de vias de transporte e a conversão do solo nativo. A infraestrutura viária — calculada em 618 mil quilômetros, reunindo trajetos oficiais cadastrados pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e rotas do OpenStreetMap — atua como vetor determinante da ocupação.
Nos primeiros 5 quilômetros adjacentes a essas vias, área que abrange 157 milhões de hectares, o setor agropecuário responde por 40,2% da ocupação. Esse contingente soma cerca de 63 milhões de hectares, o que equivale a mais de 96% de todo o espaço utilizado pelo segmento em território amazônico. Quando a distância das estradas aumenta, o índice de presença da atividade declina para 26,7%.
De acordo com o pesquisador do Imazon Bruno Ferreira, que integra a equipe do MapBiomas Amazônia, a dinâmica representa um risco grave à integridade ecológica:
“As estradas facilitam o acesso a áreas de vegetação nativa, favorecendo processos de ocupação e conversão da terra. No entorno e no interior das áreas protegidas, essa pressão pode se refletir na expansão da agropecuária, da mineração e de outras atividades que modificam a cobertura e o uso da terra”, alerta.
Panorama da agropecuária e da mineração no bioma
Do total de 65,2 milhões de hectares absorvidos pelo agronegócio em toda a Amazônia, 13,6 milhões de hectares estão situados justamente na borda de ecossistemas protegidos por lei, onde a vegetação nativa ainda preserva índices de até 98%.
Em escala geral, a agropecuária abrange 15,5% do bioma (65,3 milhões de hectares). O segmento é liderado pela pecuária, cujas pastagens cobrem 50,8 milhões de hectares (12% da região), enquanto a agricultura responde por 8,6 milhões de hectares (2%). Em paralelo, a mineração registrou uma alta vertiginosa no período histórico analisado: saltou de 32 mil hectares em 1985 para 440 mil hectares em 2025, uma extensão 14 vezes maior.
Histórico do desmatamento e perdas acumuladas
Apesar do avanço nas bordas protegidas, o monitoramento apontou que a Amazônia registrou o menor índice anual de desmatamento da série histórica em 2025, com 693 mil hectares suprimidos. Desse montante, 639 mil hectares atingiram vegetação primária — áreas virgens e sem histórico de intervenção anterior —, enquanto 54 mil hectares incidiram sobre formações secundárias em regeneração.
No acumulado de quatro décadas (1985 a 2025), a Amazônia perdeu 54,7 milhões de hectares de cobertura original. Somadas às intervenções ocorridas antes de 1985, as áreas antropizadas já alcançam 74,6 milhões de hectares no bioma. As formações florestais foram as mais impactadas pelas motosserras, sofrendo uma redução de 49,7 milhões de hectares, o que representa um recuo líquido de 14,8% de sua extensão.
Agência Brasil




