O autor luso-cabo-verdiano Joaquim Arena dedica-se a expor uma Europa negra frequentemente omitida dos registros oficiais, resgatando a presença de africanos e seus descendentes por meio de sua obra literária e de pesquisas em arquivos e viagens.
Trajetória e imigração
Nascido na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, no ano de 1964, o criador literário é filho de mãe cabo-verdiana e pai português. Com vivência prolongada na capital lusitana, onde concluiu sua formação acadêmica em direito e deu início à sua trajetória na imprensa, Arena construiu uma bagagem marcada pela circulação entre diferentes territórios.
Com um catálogo de seis romances traduzidos para diversos idiomas, o escritor alcançou destaque nacional e internacional ao vencer o Prémio Oceanos de Literatura em 2023, na categoria Prosa, com a obra Siríaco e Mister Charles. Atualmente, ele reside na cidade de Praia, em Cabo Verde.
Conexões culturais entre Brasil e África
Durante sua passagem pelo Rio de Janeiro para um evento literário gratuito no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ), focado no tema do romance histórico e nas marcas do passado colonial, o autor destacou as afinidades entre as realidades brasileira e cabo-verdiana no que tange aos deslocamentos humanos.
“Debaixo da nossa pele fala dessa condição humana de deslocamento das pessoas de um país a outro, levadas por questões econômicas, sociais e políticas. O livro faz essa síntese, pois a circulação continua ainda hoje, é positiva, abre oportunidades de novas janelas de vida para muitas pessoas”, pontua Arena.
Abaixo, registro do escritor luso-cabo-verdiano em evento cultural na capital fluminense (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil).
A literatura como preenchimento de lacunas históricas
Para o romancista, o apelo do passado muitas vezes supera o do presente, motivando-o a buscar nos registros oficiais aquilo que ficou oculto ou esquecido pelas narrativas tradicionais.
“Sou levado a encontrar, no meio dos fatos históricos, os vazios. São esses vazios que eu pretendo preencher através da minha ficção. Aproveito episódios verídicos que são muito inspiradores para que nós imaginemos uma personagem. Fico com vontade de saber mais, senão eu invento a personagem”, declara o autor.
O contato precoce com clássicos brasileiros na infância e juventude também moldou sua formação artística, servindo como uma ponte cultural relevante para leitores de ex-colônias portuguesas.
“Nós, das antigas colônias portuguesas, recebemos a literatura brasileira como uma janela para um mundo muito semelhante ao nosso”, afirma.
“Jorge Amado, com sua Bahia, está na formação de muitos autores lusófonos na África. Depois, vamos crescendo e encontrando Guimarães Rosa, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos. O romance da década de 30 fala dos retirantes, da seca. É uma realidade muito próxima da nossa”, completa.
Agência Brasil




