A política externa brasileira ganhou destaque nas eleições deste ano, com capítulos dedicados ao tema nos planos de governo dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Enquanto o atual governo reserva cerca de seis páginas para detalhar suas diretrizes, a chapa opositora dedica aproximadamente três páginas ao assunto.
Divergências nas relações internacionais O programa de Lula prioriza o fortalecimento de laços com o Sul Global e a manutenção de uma postura universalista, defendendo parcerias com todas as regiões do mundo para diversificar o comércio brasileiro. O texto aponta que o planeta enfrenta conflitos inéditos desde a Segunda Guerra Mundial e critica ameaças ao direito internacional.
“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica. Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas”, pontua o documento petista.
Por outro lado, a estratégia de Flávio Bolsonaro aposta em uma aproximação direta com os Estados Unidos, Israel e Argentina. O candidato do PL sustenta que a soberania se materializa por meio de ações práticas e critica a condução diplomática recente do país.
“Nos últimos anos, a política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia”, aponta o material de campanha, que também contesta a postura adotada em relação ao Irã, à Venezuela e a Israel.
Parcerias globais e comércio O plano do candidato do PT reforça a cooperação com o G20 e o Brics, além de prever o estreitamento dos laços com o continente africano.
“Aprofundaremos a aproximação geopolítica com o Brics e com o Sul Global, bem como com o G20, espaços fundamentais para a afirmação dos interesses da maioria da humanidade”, ressalta a diretriz.
Em contrapartida, o projeto de Flávio Bolsonaro enfatiza a abertura de novos mercados e a atração de investimentos externos, mantendo diálogo com diferentes potências econômicas.
“Negociaremos com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos, porque o que orienta a nossa diplomacia é o interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, não a simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo”, afirma o texto do PL.
Indústria de defesa e autonomia No setor militar, a proposta de Lula vincula a proteção nacional às diretrizes da política externa, destacando investimentos realizados por meio do Novo PAC. O documento cita a execução de R$ 20,4 bilhões em projetos estratégicos desde 2023, incluindo a entrega de caças Gripen F-39, cargueiros KC-390, a fabricação de fragatas e a produção de viaturas blindadas.
Já o plano de Flávio Bolsonaro propõe o incentivo a tecnologias militares voltadas à inovação, com ênfase no uso de drones e inteligência artificial para equipar as Forças Armadas de acordo com o peso geopolítico do país.
Minerais críticos e terras raras O tema dos minerais estratégicos também gera abordagens distintas. O programa petista prevê o mapeamento e a agregação de valor aos recursos para evitar a simples exportação de matérias-primas.
“Promoveremos uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos”, indica o documento.
Por sua vez, o candidato do PL defende parcerias internacionais sem restrições ideológicas para atrair capital estrangeiro e tecnologia. Durante um evento nos Estados Unidos, Flávio argumentou que o Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras e pode auxiliar os norte-americanos a reduzirem a dependência comercial da China nesse setor.
“O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do Hemisfério será lutado porque o Brasil é a solução da América [os EUA] para quebrar a dependência da China de minerais críticos, especialmente dos elementos de terras raras”, declarou o candidato.
Integração e acordos multilaterais Enquanto a plataforma de Lula prioriza a integração sul-americana e o fortalecimento do Mercosul como zona de paz, a proposta de Flávio Bolsonaro inclui a meta formal de ingressar na OCDE para alinhar as normas brasileiras aos padrões internacionais de governança. As propostas refletem visões opostas sobre o posicionamento estratégico do Brasil no cenário global para os próximos anos.
Agência Brasil




