O protagonismo infantojuvenil toma conta das telas na capital fluminense com a 11ª edição do Festival Internacional Pequeno Cineasta (FIPC). O evento, com exibições gratuitas, ocorre até 24 de outubro e ocupa três endereços culturais cariocas: o Jardim Botânico, o Instituto Cervantes e o Teatro Municipal Carlos Gomes. Ao todo, a programação reúne 68 obras cinematográficas concebidas e dirigidas por realizadores com idades entre 8 e 17 anos, selecionadas a partir de 467 trabalhos inscritos de dez estados brasileiros e 41 países.
Jovens talentos à frente das câmeras
Entre os diretores em destaque na mostra competitiva está Miguel Figueiredo Viglio, de 14 anos. A paixão pelo setor começou ainda aos 5 anos em brincadeiras de heróis, evoluindo aos 7 para cursos técnicos de animação quadro a quadro. “Aí comecei a fazer os filmes em stop motion com brinquedos que eu tinha e fui me aprimorando”, contou. Focado no futuro profissional, o diretor reconhece os desafios da área: “É difícil, mas sei que vou trabalhar com uma coisa que eu gosto e com pessoas que também gostam da mesma coisa”.
Com apoio da mãe, Chica Amoreira, o estudante coleciona premiações com o curta Circo dos Horrores, trabalho que disputa o festival deste ano. O filme já conquistou o Troféu Geração no Festival do Rio e o prêmio de Melhor Filme no FECEA (RS), em 2025, além de Melhor Filme pelo Júri Popular no festival É Tudo Criança (MG), em 2026. A animação também alcançou reconhecimento internacional, alcançando a etapa final do CineClub Dei Picoli (Itália), do Madeira Curtas Short Film (Portugal) e do REC film festival (Alemanha).
Circo dos Horrores – Divulgação Festival Internacional Pequeno Cineasta (FIPC)
Outra presença confirmada é a de Daniel Nini, de 16 anos. Ele iniciou sua trajetória artística nos palcos e migrou para o audiovisual impulsionado pela cinefilia. “Com 10 anos eu me toquei que poderia estar nos filmes e realizar filmes. Aí comecei a ver muita coisa para pegar bagagem cultural e tentar botar em prática os meus próprios roteiros”, disse. Seus primeiros experimentos foram gravados com celular, e os cachês recebidos como ator permitiram adquirir novos equipamentos. “Nessa época eu não tinha câmera, quando eu peguei feito por telefone, pensei que nada ia ser aproveitado, porque o som também não estava com uma qualidade muito boa , mas com a mágica da edição, ainda mais vendo na tela grande, ficou ótimo. Fiquei muito feliz com o resultado”, contou Daniel.
Olhar crítico e avaliação entre pares
A estrutura do FIPC estabelece que o Júri Oficial também seja composto exclusivamente por crianças e adolescentes de 8 a 17 anos. Integrante da comissão avaliadora, Carina Ki relatou sua vivência: “Quando eu soube que eram de 13 a 17 pensei que era uma coisa meio experimental porque são crianças fazendo, mas fiquei muito impactada com a criatividade e todas as técnicas que elas usaram. As crianças se esforçaram muito para fazer. Fiquei muito impressionada com o talento delas”. Com pretensões de ingressar na área, ela completou: “Eu tenho o projeto de estudar cinema no futuro, então, foi uma oportunidade muito importante, para mim, ter contato com produções de outros adolescentes”.
A cineasta, educadora e idealizadora do projeto, Daniela Gracindo, defende que a inversão de papéis é o cerne do evento: “Eles ficam se sentindo mais participativos com protagonismo, porque a opinião deles importa. Já muda completamente a postura daquela criança que senta na cadeira sabendo que vai eleger o filme que vai ser premiado. A postura dela na cadeira de cinema é outra”.
História e impacto pedagógico
O festival teve semente plantada durante um projeto de documentário sobre Paulo Gracindo, produzido por Daniela em conjunto com seu pai, Gracindo Jr. A iniciativa gerou, em 2009, a Oficina Pequeno Cineasta, expandindo-se para a primeira edição do evento em 2010. O projeto formativo já passou por estados como São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de Guiana Francesa e Argentina.
“Cada edição que eu faço é uma potência tão grande de troca de cultura, de conexão, de conseguir se aproximar da criança, porque a gente tem esse espaço qualificado onde elas podem e devem se expressar por meio da sétima arte”, apontou Daniela. A educadora complementa: “Por ver todo esse resultado e conseguir abrigar crianças que nunca entraram em uma sala de cinema e ficam estonteadas só com a sala, imagina quando elas veem que uma outra garota ou garoto, como elas, fizeram aquele filme que está na tela. O impacto é muito grande para todos”.
Programação diversificada e intercâmbio
As produções dividem-se nas categorias Nacional e Internacional Criança (8 a 12 anos) e Jovem (13 a 17 anos), além das mostras temáticas Oficina Pequeno Cineasta, Filmes Hispânicos e Sustente Sua História. A grade aborda temas que incluem crise climática, tecnologia e relações humanas, com títulos como A Night Without You (Malásia), Orpheus & Eurydice (EUA), Passagens (Niterói-RJ), The City (Ucrânia), Paani (EUA), Axinos (Grécia), Concreto (Contagem-MG), Yanomamis: Guardiões da Floresta (Brasil), O Espelho (Porto Alegre-RS), Segundo Plano (Porto Alegre-RS) e Por Culpa de la IA (Espanha).
O evento promove ainda a exibição de curtas produzidos por cerca de 80 estudantes de Saint-Georges (Guiana Francesa) e o debate “Mesa Redondinha”, no Instituto Cervantes. A pesquisadora argentina Irene Blei comanda o workshop formativo “Cinema na Sala de Aula”, voltado a profissionais de educação.
Por meio do braço educativo Pequeno Cineasta na Escola, colégios do país inteiro acompanham as mostras e participam do Prêmio do Júri Popular. Daniela reforça a relevância da ação: “É primordial para a infância e a juventude nesse sentido, não de ser um youtuber, um tiktoker, pode ser também, mas a ideia do projeto Pequeno Cineasta é que eles se aprofundem na linguagem e se tornem críticos e saibam o que estão recebendo, fazendo e sejam alfabetizados nessa linguagem”.
A cerimônia de encerramento prestará tributo ao ator Gracindo Jr., falecido aos 83 anos em setembro. O evento conta com respaldo do Ministério da Cultura, Sistema Nacional de Cultura e da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
Agência Brasil




