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Home Agência Brasil

Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros

Cristiane Arruda Por Cristiane Arruda
57 minutos Atrás
Por Agência Brasil
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Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros

© FLIP 2022/Divulgação

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A inserção de mulheres negras no mercado editorial brasileiro, que historicamente privilegia homens brancos, faz com que suas histórias ganhem vida, dignidade e humanidade. A avaliação é da autora Cidinha da Silva, que lança Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros, nesta sexta-feira (5), durante mesa de conversa n’A Feira do Livro. 

“Histórias novas e desconhecidas têm sido contadas; personagens antes tratados como utensílios de casa, objetos de cama, mesa e banho – trabalhadoras domésticas e outras funções laborais subalternizadas e mal remuneradas”, disse Cidinha da Silva, em entrevista à Agência Brasil.

O lançamento da autora ocorre a partir das 13h, no Tablado Literário Mário de Andrade. Na obra, ela investiga as tensões, armadilhas e insurgências que atravessam a experiência de escritoras negras no mercado editorial. Após a programação, Cidinha receberá o público em sessão de autógrafos.

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A escritora ressalta que é preciso enfrentar os critérios racistas, machistas, misóginos e lesbofóbicos que têm privilegiado os homens brancos nesse espaço.

“Sujeitos que não nasceram em berço de livros, que não herdaram bibliotecas de pais, avós, trisavós, têm conseguido falar, criar, fabular histórias, para as quais há muito interesse.”

A trajetória de Carolina Maria de Jesus, lembrou a autora, abriu caminhos para mais escritoras negras, além de revelar elementos como: “a coragem de alimentar um projeto literário, mesmo em condições absolutamente adversas; o apetite do mercado editorial para extrair todo o sumo do que possa vender; os ardis do racismo para construir uma personagem, exauri-la e depois descartá-la”.

Além da programação integralmente gratuita do festival literário, cada visitante pode escolher dois títulos de uma seleção diversa, disponibilizados gratuitamente, na tenda da prefeitura de São Paulo. No estande, o público terá informações sobre a rede de bibliotecas municipais, ferramenta de democratização do acesso à leitura.

Dois dos títulos disponíveis são Escritoras de Cadernos Negros, com textos de Esmeralda Ribeiro e Conceição Evaristo; e Olhos de Azeviche, que reúne dez autoras negras, como a própria Cidinha da Silva e Geni Guimarães.

Confira os principais trechos da entrevista com Cidinha da Silva:

Agência Brasil – Qual é o lugar das mulheres negras no mercado editorial atualmente?

Cidinha da Silva – No mundo das editoras, o lugar ocupado pelas autoras negras é diverso e está muito relacionado ao poder de fogo da autora em tela, mensurado, por exemplo, pelo interesse manifesto de outras editoras em publicá-la, o que leva a editora da vez a oferecer boas condições para ter mais títulos dela no catálogo, ou mesmo para fidelizá-la. A definição desse lugar deve-se também às cotas raciais, toda editora quer uma autora negra para chamar de sua.

No que concerne aos eventos literários, é o lugar de alguns grandes nomes que ocupam espaços por elas mesmas, pelo reconhecimento do trabalho construído, ou seja, já ultrapassaram as cotas de participação destinadas às escritoras negras, são elas Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Elisa Lucinda, Marilene Felinto, Ana Paula Maia e Grace Passô. Tem um outro pelotão em ascensão que em breve integrará o primeiro, composto por mulheres como Bianca Santana, Luciany Aparecida, Eliane Marques, Bárbara Karine, Carla Akotirene e Rosane Borges.

Depois vem um terceiro pelotão que ocupa um lugar de alternância na cota destinada a autoras negras nos eventos literários de diferentes portes, por motivos como contemplar uma autora negra por ano ou edição do evento ou disparidade de cachês. O ideal seria contratar as autoras X, Y e Z, mas, como o cachê destas é considerado muito alto e a agenda muito ocupada por eventos que realmente valem a pena, os organizadores fazem cruzamentos de visibilidade pública, número de seguidores em redes sociais, histórico de participação em outros eventos, humores, local de residência no país – valor do bilhete aéreo -, traquejo para tirar a galera do chão e capacidade geral de entretenimento. Depois de descreverem e solucionarem a equação, as substitutas são escolhidas e convidadas.

[Outro elemento para a escolha é a] avaliação de linguagem da autora em tela – doce, contemplativa, ácida, raivosa, amarga, assertiva, ressentida, vitimista, altiva, vingativa, ou aquilo que os organizadores consideram ponderação – para definir o que é mais adequado ao momento, baseado nos interesses dos patrocinadores, do público, do peso na bolsa de valores da imprensa cultural, da crítica literária etc. [Além da] capacidade de articulação e trânsito junto aos donos e donas da banca, ou seja, aos players que definem quem entra e quem sai de cena, quem é lembrado e quem é esquecido, quem ficará sob holofotes e quem será relegado às sombras ou às feras.

Agência Brasil – Por muito tempo, as principais referências no mercado editorial eram homens brancos. Você avalia que há alguma mudança nesse modelo?

Cidinha da Silva – Sim, há mudanças, mas ainda estamos longe de alcançar um percentual de escritoras que se aproxime do número avassalador de leitoras que compõem o todo da audiência leitora. O que fazer para mudar? Enfrentar de peito aberto e com medidas propositivas os critérios racistas, machistas, misóginos, lesbofóbicos que têm privilegiado os homens brancos.

Agência Brasil – Quais obstáculos as mulheres negras enfrentaram e ainda enfrentam para inserção nesse espaço?

Cidinha da Silva – Os obstáculos enfrentados são aqueles atinentes às sociedades racializadas – hierarquicamente organizadas por critérios raciais – e racistas como a sociedade brasileira. Neste espaço, como em todos os outros, a inserção se deu e se dá pela luta política, afinal, ninguém aqui adormece ouvindo a canção da meritocracia estética, não é?

[As estratégias que viabilizaram essa inserção incluem] não alimentar ilusões, ter atenção incessante aos jogos de interesses e de poder, compreender que nada está ganho, tudo está em disputa.

Agência Brasil – Que resultados e reflexos podemos observar a partir da maior participação das mulheres negras no mercado editorial?

Cidinha da Silva – Histórias novas e desconhecidas têm sido contadas; personagens antes tratados como utensílios de casa, objetos de cama, mesa e banho – trabalhadoras domésticas e outras funções laborais subalternizadas e mal remuneradas -, têm ganhado vida, dignidade e humanidade. A expressão “bibliodiversidade” tem tido os sentidos ampliados. Sujeitos que não nasceram em berço de livros, que não herdaram bibliotecas de pais, avós, trisavós, têm conseguido falar, criar, fabular histórias, para as quais há muito interesse.

A gente refloresta os imaginários, como nos ensinou a irmã guarani, Geni Núñez, e, reflorestá-los é potencializar a vida em alternativas mais saudáveis e plenas.

Agência Brasil – Gostaria que você citasse algumas das mulheres negras fundamentais para abrir os caminhos no mercado editorial brasileiro.

Cidinha da Silva – São muitas, em diferentes épocas, citarei algumas, embora seja consciente do risco de cometer grandes injustiças. Dentre as escritoras precursoras temos Maria Firmina dos Reis e Auta de Souza, nomes que tiveram existência isolada no século 19 e cujo significado foi recuperado mais de século depois de elas terem partido.

O fenômeno Carolina Maria de Jesus também escancarou portas e mostrou pelo menos três coisas fundamentais: a coragem de alimentar um projeto literário, mesmo em condições absolutamente adversas; o apetite do mercado editorial para extrair todo o sumo do que possa vender; os ardis do racismo para construir uma personagem, exauri-la e depois descartá-la. A gente aprendeu e aprende muito com a trajetória de Carolina.

Antonieta de Barros e Ruth Guimarães foram autoras negras que construíram a obra e um lugar na literatura brasileira nas primeiras décadas do século 20, totalmente à revelia dos holofotes. Geni Guimarães tem aproximações de Ruth Guimarães, as duas são do interior de São Paulo, atuaram como professoras e ousaram bater na porta das editoras estabelecidas para apresentar seu trabalho, conseguiram, se firmaram, foram premiadas e isso nos abriu portas. 

Conceição Evaristo é um dos fenômenos contemporâneos de acolhimento do público, vendagem de livros e reconhecimento da crítica, tendo sido a primeira representante consagrada daquilo que desde os anos 1980 tem sido compreendido como literatura negra.

Agência Brasil – Quais outras contemporâneas você citaria?

Cidinha da Silva – A meu ver, existem quatro escritoras contemporâneas pouco incensadas que ao longo de décadas têm feito um trabalho despreocupado dos ditames do mercado e muito focado em projetos literários consistentes, implementados como possível nas editoras tradicionais: Marilene Felinto, Elisa Lucinda, Heloísa Pires Lima e Ana Paula Maia.

Djamila Ribeiro tem também atuação gigantesca em nosso favor no mercado editorial brasileiro e não abriu apenas portas, abriu comportas. A existência de rios de diferentes matizes tem sido possível a partir de suas articulações e projetos, [como] a coleção Feminismos Plurais e o espaço de protagonismo negro ocupado por ela, [que] merece estudos aprofundados. A capacidade de negociação de Djamila no mercado também é algo admirável, inspirador e definidor de novos patamares para autorias negras.

Bárbara Karine, que me parece seguir com estilo próprio as veredas abertas por Djamila, também ensina muito, principalmente às novas gerações. Por fim, nossa imortal da ABL [Academia Brasileira de Letras], Ana Maria Gonçalves, que é acadêmica, reconhecida, premiada e imortalizada também pelo samba – samba-enredo da Portela em 2024 -, abrindo possibilidades para que outras autoras também sejam imortalizadas em vida pelo cancioneiro popular.

Créditos Agência Brasil


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