Uma piscada pode parecer um gesto simples, quase imperceptível. Mas, para quem perdeu os movimentos do corpo e a capacidade de falar, ela pode representar a possibilidade de expressar uma necessidade, pedir ajuda e voltar a participar das conversas com a família. Foi a partir dessa realidade que alunos do 5º ano da Escola Municipal Rural Juvenal Fróes, localizada no Assentamento Dorcelina Folador, em Ponta Porã, desenvolveram o projeto “Piscar e Falar”, uma iniciativa que une educação, empatia e inteligência artificial para tornar a comunicação possível.
O impacto da iniciativa na comunidade escolar
A iniciativa chegou ao conhecimento da juíza Thielly Dias de Alencar Pitthan, que atua na 1ª Vara Criminal da comarca de Ponta Porã, e de parte da equipe da Coordenadoria da Mulher do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), durante o lançamento do livro Clarisse Me Disse, realizado na escola rural em 22 de outubro. Ao conhecer o trabalho desenvolvido pelas crianças, a magistrada se emocionou com o alcance social da proposta, construída dentro de uma sala de aula da rede pública municipal.
“É muito comovente ver um projeto tão bonito e de impacto real e direto na vida de uma pessoa ser construído pelas mãos de crianças, alunos de uma escola pública localizada na zona rural. Renova nossa esperança no futuro e a nossa fé no poder transformador da educação!”, destacou a juíza.
A realidade de Rosinei e o surgimento do projeto
O projeto nasceu da realidade de Rosinei Monteiro dos Santos, um morador do assentamento que, em decorrência de uma Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), perdeu progressivamente os movimentos do corpo e ficou com o movimento dos olhos como principal meio de interação. Acamado, ele não conseguia avisar a família e os cuidadores quando sentia dor, sede ou desconforto.
Diante dessa situação, a equipe da escola decidiu transformar a necessidade em uma oportunidade de aprendizagem. Em vez de tratar o caso apenas como uma ação assistencial, a coordenação pedagógica levou o problema à turma do 5º ano e lançou uma pergunta que mudaria o rumo do trabalho: “O que nós poderíamos fazer para ajudar?”.
O desenvolvimento tecnológico e o papel da inteligência artificial
No primeiro momento, os estudantes sugeriram arrecadar alimentos, procurar hospitais e conseguir um equipamento que pudesse auxiliar o morador. Mas a pesquisa realizada na Sala de Tecnologia da escola, levou a turma a compreender que a necessidade mais urgente era outra: antes de qualquer coisa, era preciso criar um meio para que ele pudesse se comunicar.
Ao pesquisar ferramentas de comunicação alternativa já existentes, os alunos perceberam que os programas mais completos tinham custos elevados para a família, enquanto as opções gratuitas ofereciam recursos limitados, como frases prontas. Foi então que a escola propôs o uso da inteligência artificial. A escolha da ferramenta, porém, ficou a cargo dos próprios estudantes, que experimentaram diferentes opções a partir do mesmo problema.
O resultado foi um programa desenvolvido especificamente para aquela necessidade, capaz de transformar o movimento dos olhos em palavras e frases faladas em voz alta. O coordenador pedagógico da escola, Antonio Cesar Jimenes de Arruda, explica que o principal aprendizado ultrapassa a criação de uma ferramenta tecnológica.
“A importância desse projeto, para mim, começa por uma coisa simples: o Rosinei nunca deixou de ter o que dizer. Ele entende tudo, pensa tudo, tem opinião sobre a própria vida. O que faltava não era conteúdo, era caminho de saída. A escola não deu voz a ele — ele sempre teve. A escola ajudou a construir o caminho por onde ela passa”, afirma.
Funcionamento e acesso à ferramenta gratuita
A inteligência artificial foi utilizada para escrever o código e propor soluções técnicas a partir das orientações elaboradas pela coordenação. Coube aos estudantes observar o funcionamento, identificar problemas e ajudar a verificar se as mudanças atendiam à necessidade apresentada. O programa foi pensado para funcionar em um celular ou tablet com câmera frontal e alto-falante e está disponível gratuitamente em https://piscar-e-falar.netlify.app e pode ser utilizado por outras pessoas que estejam em condições semelhantes.
Para um funcionamento adequado, é necessário posicionar a câmera de frente para o rosto, garantir boa iluminação frontal e manter o aparelho firme em um suporte.
“Antes do programa, ele não conseguia avisar que estava com dor, com sede, ou simplesmente desconfortável. Hoje ele avisa. Pode parecer pouco para quem fala sem pensar no assunto. Para quem está naquele leito, é a diferença entre ser cuidado e ser consultado”, destaca Antonio Cesar.
Para o diretor da escola, Jair Alves Vitório, disse ser muito gratificante ver os alunos desenvolverem um projeto que ajude uma pessoa se comunicar com seus familiares e melhorar sua qualidade de vida.
Conclusão e apoio social
O “Piscar e Falar” demonstra como a aprendizagem pode ganhar significado quando parte de uma situação real. Ao pesquisar, comparar alternativas, testar possibilidades e rever as próprias hipóteses, os estudantes mobilizaram conhecimentos de diferentes áreas e desenvolveram competências relacionadas à cultura digital, à empatia, à cooperação e à cidadania.
Para a juíza Thielly Pitthan, conhecer o projeto durante a visita à escola foi uma oportunidade de testemunhar como a educação pode produzir mudanças concretas na vida das pessoas. A experiência mostra que a tecnologia, quando orientada pela escuta e pela observação, pode ajudar a superar barreiras e ampliar a autonomia.
O beneficiário do aplicativo vive em situação de vulnerabilidade social e qualquer ajuda é bem-vinda. Quem quiser ajudá-lo pode entrar em contato com a esposa de Rosinei, a senhora Fabiana pelo número (67) 99810-8690.
TJMS




