O ambiente escolar no Brasil busca se adaptar à presença da tecnologia no cotidiano dos discentes. Novas estatísticas divulgadas pelo Pisa indicam que 48% dos alunos do país recorrem a ferramentas de Inteligência Artificial pelo menos uma vez por semana para obter suporte nos estudos, índice que supera levemente a média de 46% registrada entre as nações da OCDE.
Desigualdade na infraestrutura digital
Em contrapartida, o levantamento aponta que a infraestrutura voltada para a transformação digital não acompanhou essa evolução. O Brasil marcou -0,86 no quesito de preparo das instituições para a aprendizagem tecnológica, ao passo que a média internacional ficou em -0,03, avaliando quesitos como conectividade, disponibilidade de aparelhos e capacitação docente.
Para João Carlos Bernardo Machado, professor e coordenador do curso de pedagogia no NEaD da UNIG, esse cenário reflete gargalos históricos da educação nacional. Para ele, “apesar de regulamentações e diretrizes do Estado, o entrave financeiro desenvolve uma condição de desequilíbrio nas relações sociais. O resultado direto é um desnível de ensino e de produção de conhecimento diante das imposições contemporâneas”.
O papel da escola frente às respostas prontas
Outro ponto crítico levantado pelo Education GPS aponta que apenas 51,2% dos discentes brasileiros aprendem a analisar criticamente dados gerados por sistemas artificiais em sala de aula. Contudo, o próprio Pisa demonstra que o uso tecnológico não prejudica o aprendizado quando há orientação pedagógica adequada, elevando o desempenho em Ciências.
O desafio central, portanto, deixa de ser a proibição e passa a ser a mediação pedagógica. O professor argumenta que a construção do conhecimento exige o confronto de ideias e o exercício da contradição, etapas que costumam ser suprimidas quando a tecnologia entrega soluções imediatas. “A IA não ensina, apenas responde”, afirma.
Distrações e o impacto na aprendizagem
O estudo também relata que estudantes afetados por distrações digitais apresentam notas em ciências até 19 pontos inferiores. O cenário coincide com a implementação de legislações federais que restringem o uso de celulares nas dependências escolares durante as aulas e intervalos.
Apesar disso, Machado aponta que é preciso analisar criticamente as condições estruturais das escolas antes de culpar exclusivamente os dispositivos, repensando métodos pedagógicos e a diversidade na formação dos professores.
Novas formas de avaliação
Como alternativa, o especialista defende que as instituições reformulem seus métodos avaliativos para exigir raciocínio lógico e compreensão de processos complexos, em vez de cobrar apenas respostas prontas que podem ser obtidas digitalmente.
“A utilização da IA, sem permitir que as prerrogativas estabelecidas pelo senso crítico e a reflexão humana atuem, pode proporcionar uma vulnerabilização na relação entre o sujeito e o objeto”, diz.
Por fim, Machado reforça que as instituições precisam criar métodos onde a subjetividade atue como métrica principal. “Penso que as instituições, inclusive as de Ensino Superior, devam produzir instrumentos de avaliação que se enquadrem em processos objetivos, onde a própria subjetividade seja a métrica avaliadora”, conclui.
Fonte: Portal Extra




