Entre seu pai espiritual e seu chefe político, o vice-presidente norte-americano, JD Vance, também fez sua escolha. Não bastou dar uma explicação diferente daquela oferecida pelo próprio Donald Trump sobre a imagem blasfema que o presidente publicou (e depois apagou) – Trump disse ter achado que aquele manto e túnica eram roupas de um médico da Cruz Vermelha, enquanto Vance disse que era uma “piada” que Trump apagou porque as pessoas não entenderam o senso de humor do presidente. O vice-presidente, católico desde 2019, resolveu também dar lição de moral no papa Leão XIV na semana passada, ecoando um tipo de laicismo da pior espécie.
Primeiro, em entrevista à Fox News, Vance disse que “seria melhor para o Vaticano se limitar a assuntos morais e deixar o presidente dos Estados Unidos ditar as políticas públicas americanas”. Na sequência, em evento do Turning Point no estado da Geórgia, Vance disse que “é muito, muito importante para o papa ser cuidadoso quando fala de assuntos teológicos. Uma das questões aqui é que, se você vai dar opinião em assuntos teológicos, tem de ser cuidadoso, precisa ter certeza de estar ancorado na verdade. Isso é o que eu tento fazer, e é algo que eu certamente espero do clero, seja católico ou protestante”.
Comecemos pela segunda fala. Não deixa de ser uma enorme ironia que Vance tenha disso isso no momento em que o papa estava na Argélia, visitando as ruínas do que um dia foi a cidade de Hipona, da qual Santo Agostinho foi bispo. Agostinho, como nós sabemos (e espero que Vance também saiba), foi o primeiro grande filósofo e teólogo cristão a articular uma doutrina da guerra justa; e Leão XIV, sendo um egresso da ordem agostiniana, é um profundo conhecedor da obra do santo. Algo que não tem faltado, nas declarações do papa sobre os atuais conflitos, é “cuidado” e embasamento na verdade. Quanto a Vance, bem, não é a primeira vez que ele se enrosca com o pensamento de Santo Agostinho, já que no passado ele tentou instrumentalizar o conceito de ordo amoris para justificar a política migratória de Trump.
“Não creio que este conflito cumpra os critérios da guerra justa. Eu estou do lado do Santo Padre e seu apelo por paz. Isso não é sobre política, mas sobre verdade moral.”
Joseph Strickland, bispo emérito de Tyler, em entrevista à BBC.
E isso nos traz à primeira fala de Vance: a guerra é, sim, uma questão moral. O argumento de Vance deixa implícito que a Igreja só deveria se pronunciar sobre assuntos mais ligados ao comportamento individual como, por exemplo, aborto ou eutanásia, mas não a moralidade de uma determinada ação militar. Obviamente, Vance está enganado, tanto que os trechos do Catecismo sobre a guerra estão no capítulo referente ao quinto mandamento – lei moral, portanto. E pretender que a Igreja fique de fora do debate público nessas questões revela um tipo de laicismo que nem sequer condiz com a tradição norte-americana de defesa das liberdades. Eu imagino um anticlerical francês (ou um petista – voltaremos a isso daqui a pouquinho) dizendo isso, mas não um católico norte-americano.
A não ser que no fundo, beeeem lá no fundo, o que Vance esteja querendo dizer é algo bem mais rasteiro: será que, se o papa ou a conferência episcopal americana estivessem defendendo a moralidade da captura de Nicolás Maduro ou dos ataques ao Irã, Vance teria dito que a Igreja estava se metendo em assunto que não é da sua conta? Será que o verdadeiro problema não é que o tema da guerra seja ou não um assunto moral, mas que as autoridades da Igreja tenham contrariado o governo americano sobre isso? E aí volto ao PT: quando evangélicos ou católicos criticam o governo, os petistas reclamam da “mistura entre política e religião”; mas, quando padres e pastores defendem o governo – seja por convicção profunda, seja porque foram recrutados para isso –, ninguém diz nada. O problema, então, não é que os religiosos estejam falando de política, mas que esses religiosos não estejam na coleirinha do petismo, pois os que estão domesticados têm trânsito livre. Não descarto que a mesma ideia esteja por trás do discurso de Vance.
Já que falei do Catecismo, vocês podem procurar: os trechos sobre a guerra estão nos parágrafos 2.307 a 2.317, incluindo as condições para a guerra justa, no parágrafo 2.309, que encerra com a seguinte observação: “a apreciação destas condições de legitimidade moral pertence ao juízo prudencial daqueles que têm o encargo do bem comum”. Isso inclui governantes, estrategistas militares… mas também os líderes religiosos – que, aliás, estão até mais qualificados que os líderes políticos para fazer avaliações morais. A esse respeito, lembro que os bispos americanos que não consideram justa a atual ofensiva contra o Irã não incluem apenas os “suspeitos de sempre”, os Cupichs e McElroys da vida, mas também bispos considerados “conservadores”, como Timothy Broglio, que foi presidente da conferência episcopal americana e é o arcebispo do Ordinariato Militar dos Estados Unidos. Até Joseph Strickland, pintado nos EUA como “bispo MAGA”, que já palestrou no Cpac e abençoou a residência de Mar-a-Lago, tomou o lado do papa e disse à BBC que a campanha no Irã não cumpre os critérios da guerra justa.
Onde é que pode haver uma assimetria em favor dos governantes? Na questão da informação. Serviços de inteligência podem dar às autoridades dados sensíveis que os líderes religiosos não têm. E, a esse respeito, o Irã de 2026 não é o Iraque de 2003; naquela ocasião, nunca se comprovou a existência das tais “armas de destruição em massa” usadas como pretexto para a invasão. Mas o programa nuclear iraniano é uma realidade. “Nenhum país sem armas nucleares enriquece urânio como o Irã. É brincar com fogo”, afirmou ao La Nación o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), Rafael Grossi, em março deste ano. Mas isso é, de certa forma, público, como também é público o financiamento iraniano ao terrorismo islâmico internacional. Há algo além disso? Não sabemos.
Vance, Leão XIV e os bispos dos Estados Unidos podem discordar sobre se a corrida nuclear iraniana é um motivo justo para os ataques; e, mesmo que concordem sobre a necessidade de impedir que os aiatolás tenham uma bomba atômica (bomba que a teocracia islâmica não veria problemas em usar, e a esse respeito volto a recomendar o excelente texto de Gavin Ashenden), podem discordar sobre os métodos para se atingir esse objetivo – espero ao menos que Vance concorde com a imoralidade de fazer “uma civilização inteira perecer”. Até aí, estamos dentro de um limite que o Catecismo garante. O que não dá para engolir é a húbris teológica de quem acredita entender mais de guerra justa que um papa agostiniano, e o laicismo de quem quer manter a Igreja fora desse debate.
“Mas eu nunca vi o papa dizendo que…”
Um tipo de comentário comum da parte de quem responde o “hei de crucificar o vosso rei?” de Pilatos com “não temos outro rei senão Donald” é dizer que o papa não fala em defesa dos cristãos perseguidos, das vítimas da repressão de regimes comunistas ou islâmicos, e por aí vai. É a transformação da experiência pessoal em verdade absoluta: se eu nunca vi, é porque não existe.
“Não se pode ignorar que a perseguição aos cristãos continua a ser uma das crises de direitos humanos mais difundidas atualmente, afetando mais de 380 milhões de crentes em todo o mundo.”
Papa Leão XIV, em discurso a diplomatas em janeiro deste ano.
Para esse pessoal, deixo a dica de conferir com mais frequência as falas do papa Leão XIV. Tem o Ângelus dominical (substituído pelo Regina Caeli no tempo pascal), tem as audiências gerais das quartas-feiras, tem os eventos vários de que o papa participa, com discursos e alocuções. Volta e meia aparecem exatamente esses temas sobre os quais vocês dizem que o papa silencia. E, se quiserem algo ainda mais específico e enfático, sugiro ler o discurso do papa aos embaixadores credenciados junto à Santa Sé, em janeiro deste ano. Confiram este trecho:
“Corre-se igualmente o risco de restringir a liberdade religiosa, que – como recordava Bento XVI – é o primeiro dos direitos humanos, pois expressa a realidade mais fundamental da pessoa. Os dados mais recentes mostram que as violações da liberdade religiosa estão a aumentar e que 64% da população mundial sofre graves violações deste direito. (…)
(…) não se pode ignorar que a perseguição aos cristãos continua a ser uma das crises de direitos humanos mais difundidas atualmente, afetando mais de 380 milhões de crentes em todo o mundo, os quais sofrem níveis elevados ou extremos de discriminação, violência e opressão devido à sua fé. O fenômeno afeta aproximadamente um em cada sete cristãos a nível global e, em 2025, agravou-se por causa dos conflitos em curso, dos regimes autoritários e do extremismo religioso. (…)
Neste momento, penso de modo especial nas numerosas vítimas daquela violência também marcada por motivos religiosos no Bangladesh, na região do Sahel e na Nigéria, bem como nas vítimas do grave atentado terrorista ocorrido em junho passado na paróquia de Santo Elias, em Damasco, sem esquecer as vítimas da violência jihadista em Cabo Delgado, Moçambique.”
Aliás, neste mesmíssimo discurso o papa ainda lembrou os cristãos perseguidos por suas opiniões: “é doloroso constatar que, especialmente no Ocidente, os espaços para a liberdade de expressão estejam cada vez mais a ser reduzidos, enquanto se desenvolve uma nova linguagem, ao estilo de Orwell, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam”. Forte, não? Pois é. Antes de sair por aí dizendo que Leão XIV se omite sobre este ou aquele assunto, pergunte a si mesmo: eu procurei com boa vontade? Ou preferi nem vasculhar muito para não correr o risco de desmontar aquele discurso prontinho que eu já tenho em defesa do meu político de estimação?
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