Responsável por impulsionar e profissionalizar mais de 200 talentos periféricos no Rio de Janeiro, o #estudeofunk corre o risco de paralisar suas atividades. Sem verba para abrir uma nova etapa, a iniciativa lançou uma campanha de apadrinhamento voltada a empresas e pessoas físicas para conseguir custear o treinamento gratuito de mais 50 pessoas da cena musical independente.
Campanha tenta viabilizar quinto ciclo de formação
Criado em 2022 por meio de uma parceria entre a Fundição Progresso e a Viva Brasil, o programa atua na aceleração técnica e artística de MCs, DJs, beatmakers e dançarinos. Ao longo de sua trajetória, o projeto lançou cinco álbuns, dois EPs e diversos clipes e faixas que superam 500 mil reproduções no YouTube, abrindo espaço para seus alunos em palcos de festivais e transmissões de televisão.
Apesar desses números e do avanço global do ritmo carioca, a continuidade das turmas depende de novos patrocinadores. A diretora artística da ação, Taísa Machado, analisa a contradição entre a projeção internacional do ritmo e a dificuldade de captar recursos locais:
— “É muito curioso que um projeto como esse precise pedir apoio. O funk tem sido reconhecido e cobiçado mundo afora, os dados das grandes empresas de streaming mostram que é o gênero musical brasileiro que mais cresce no mundo, e o Rio de Janeiro é o berço dessa cultura, nós temos uma das cenas mais efervescentes. Ainda assim, somos um dos únicos, senão o único projeto que busca capacitar novos artistas” — afirma a gestora, que ainda questiona: — “O que os gringos conseguem enxergar no funk que o Rio de Janeiro não consegue?”
Inclusão e primeiras oportunidades no mercado
O perfil dos atendidos pelo programa reflete diretamente a composição das periferias e comunidades: 85% dos artistas são negros e 2% são indígenas, além de integrar pessoas com deficiência e ampla diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero. Mais do que dados, os números representam o acesso inédito a espaços formais da indústria.
— “É desafiador trabalhar na estrada dos sonhos de jovens artistas. Digo na estrada porque o caminho para artistas da periferia é muito longo. E embora a gente tenha uma diversidade muito grande, em sua maioria, os artistas chegam aqui para viver uma infinidade de primeiras vezes. A primeira vez gravando em um estúdio de ponta, a primeira vez no palco, a primeira vez tendo suporte, infraestrutura e acesso a conhecimentos mais íntimos do mercado” — pontua Taísa Machado.
Trajetória transformada pela profissionalização
Entre os participantes que passaram pelo processo de aceleração está o cantor, ator, compositor e dançarino Marcos Carvalho, de 26 anos, que atua na cena artística da Maré como a drag queen Preta Queenb Rull. Com trajetória que inclui oito peças de teatro, apresentações infantis em sua comunidade e viagens internacionais para cobrir eventos musicais, ele encontrou no treinamento um divisor de águas.
— “Fiz diversos shows no Estude o Funk e tive acesso a uma estrutura que, muitas vezes, artistas independentes e, principalmente, de favela não conseguem ter. É um espaço com estrutura profissional para criação, formação e apresentação. Foi incrível essa experiência. Acho que foi uma das melhores da minha vida” — declara o artista.
Dono de faixas autorais como “Acredite no seu axé” e “Bateu”, Marcos também ressalta o ganho técnico e a imersão na memória da música periférica:
— “Tive uma aula de preparação vocal e orientações sobre como ter mais projeção, além de aula sobre história do funk com a Taísa Machado. Esses dois momentos me deixaram emocionado e motivado a continuar minha trajetória, porque pude lidar diretamente com referências bem de perto” — conclui.
Diante do impasse financeiro que ronda a iniciativa, o cantor enfatiza a necessidade de mobilização para garantir que outras gerações tenham o mesmo respaldo estrutural na capital fluminense:
— “Pensar que outros artistas podem não ter a mesma oportunidade que eu tive me preocupa, principalmente jovens artistas que poderiam encontrar no projeto um espaço para descobrir seu potencial, aprender, criar e ocupar lugares que muitas vezes não estão disponíveis para eles. O funk também é cultura e merece ser valorizado, incentivado e preservado e projetos como este precisam ser vistos, mantidos e apoiados” — finaliza Marcos Carvalho.
Fonte e Crédito de Imagens: Portal Extra *repostado afim de propagar a informação, sem fins comerciais




