Um fenômeno climático de intensidade excepcional — o Super El Niño 2026 — ameaça interromper a trajetória de queda da inflação de alimentos no Brasil. Com projeções de aquecimento recorde no Pacífico, o impacto no agronegócio e nos preços ao consumidor pode ser devastador, assemelhando-se aos recordes históricos de 1997. Analistas já preveem pressão sobre a safra 2026/27 e um repasse direto para o custo de vida das famílias brasileiras.
Impactos regionais no Brasil e o desafio para o agronegócio
O El Niño tende a provocar chuvas intensas na região Sul e estiagem rigorosa no Norte e Nordeste. O cenário no Centro-Oeste e no Sudeste é de irregularidade hídrica. Essa assimetria meteorológica compromete o calendário de plantio, exigindo adaptações rápidas e investimentos em irrigação em áreas onde a disponibilidade de água torna-se crítica.
O principal risco para o agro brasileiro não seria uma quebra de safra nacional, mas perdas pontuais causadas pela irregularidade na distribuição de chuvas. O cenário fica mais sensível olhando para a próxima safra, de 2026/27. “Um El Niño mais organizado tende a elevar a instabilidade climática ao longo do desenvolvimento da próxima safra”, diz Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro.
Riscos específicos por região
Segundo ela, no Sul aumenta o risco de excesso hídrico, doenças, perda de qualidade e dificuldade operacional. “No Centro do país, o problema deixa de ser só volume e passa a ser retomada irregular das chuvas, maior oscilação térmica e dificuldade de manter padrão produtivo uniforme. No Norte e em parte do Nordeste, o risco de estresse hídrico volta a ganhar peso.”
O cenário de transição climática amplia incertezas sobre a finalização da safrinha do milho, aponta relatório da StoneX. A possível intensificação da corrente de jato subtropical pode dificultar o avanço regular de frentes frias pelo interior do continente, reduzindo a umidade no Sudeste e no Centro-Oeste e antecipando o fim das chuvas em estados como São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná.
Produtividade e ciclo agrícola
O movimento pode afetar a formação de biomassa e a produtividade em fases críticas do ciclo agrícola. “O ponto-chave não é apenas quanto vai chover, mas quando e onde. A irregularidade espacial e temporal das precipitações permanece como o principal desafio para o agro no curto prazo”, diz Carolina Giraldo, analista de inteligência de mercado da StoneX.
Nota técnica do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) destaca que, na safra de verão, a redução de chuvas no Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste e Sudeste pode prejudicar o plantio e o desenvolvimento inicial de culturas como soja e milho, além de aumentar o risco de perdas em sistemas de sequeiro.
Na região Sul, embora o aumento de precipitações na primavera e início do verão possa favorecer a disponibilidade hídrica, o excesso de chuva pode causar encharcamento do solo, aumentar a incidência de doenças fúngicas, dificultar o plantio e os tratos culturais, bem como afetar a qualidade e a colheita.
Precedentes históricos: o rastro do El Niño de 1997–1998
O grande temor é da repetição de cenários trágicos que já ocorreram no passado, deixando impactos significativos no agro brasileiro. O El Niño de 1997–1998 continua sendo a principal referência de intensidade extrema. O episódio causou a morte de cerca de 21 mil pessoas globalmente e gerou prejuízos econômicos e de infraestrutura estimados entre US 35 bilhões e US 45 bilhões.
Crises de safra e estoques públicos
O fenômeno causou extremos climáticos que reduziram a produção de alimentos no Brasil. A produção nacional de grãos, que vinha de alta de 6,5% na safra anterior, recuou 2,3%, puxada para baixo por perdas nas lavouras de milho, arroz e feijão, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A frustração na colheita obrigou o governo federal a utilizar parte de seus estoques públicos de grãos, que caíram para o nível mais baixo em dez anos — equivalente a apenas 5% do consumo nacional na época.
Enquanto a região Sul sofreu com excesso de chuvas acima da média histórica, o Nordeste foi castigado por uma das piores secas do século. O déficit hídrico nordestino provocou o colapso da produção rural local e gerou crise humanitária e econômica, marcada pelo avanço da fome e por ondas de saques a depósitos públicos de alimentos, feiras e mercados.
Eventos recentes e logística
Entre o final de 2015 e o início de 2016, o mundo enfrentou um dos fenômenos El Niño mais severos do último meio século. No Brasil, estiagens prolongadas e altas temperaturas castigaram as lavouras, resultando em queda de 9,5% na safra nacional de grãos. O milho foi particularmente afetado, com redução de 19,1% na produção.
Mais recentemente, no ciclo iniciado em 2023, as consequências do El Niño foram sentidas na infraestrutura brasileira. A seca extrema paralisou as rotas de escoamento pelos rios da Bacia Amazônica, enquanto chuvas torrenciais danificaram estradas na região Sul — uma combinação de fatores logísticos que chegou a encarecer o custo do frete agrícola em até 57%.
Dados técnicos e projeções para 2026
O prognóstico mais recente do ECMWF, de 1º de maio, mostra que a temperatura da superfície do mar no Pacífico Centro-Leste, onde se mede a intensidade do fenômeno, pode aumentar cerca de 3,2°C até o fim do ano. A atualização anterior, de 1º de abril, projetava 2,8°C.
Caso as projeções se confirmem, o evento figuraria entre os três mais fortes desde o século 19. Para comparação: o El Niño de 1997–1998, considerado um dos mais intensos em 150 anos de medição, atingiu cerca de 2,8°C no Pacífico Centro-Leste.
Nesta semana, o Centro de Previsão Climática da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) indicou de forma mais clara que um El Niño intenso já estaria em formação. O último boletim, divulgado segunda-feira (4), aponta 61% de probabilidade de o fenômeno surgir entre maio e junho e persistir até o fim de 2026. Para novembro de 2026 a janeiro de 2027, o órgão considera chances semelhantes para um evento moderado, forte ou muito forte.
A pressão inflacionária nos alimentos e o IPCA
A frustração produtiva no campo transfere a pressão de custos diretamente para as gôndolas dos supermercados. As projeções do mercado financeiro para a inflação estão em alta há oito semanas, segundo o mais recente boletim Focus do Banco Central (BC), divulgado no dia 4. Espera-se uma inflação de 4,89% em 2026. Analistas apontam que o El Niño pode adicionar até 0,8 ponto percentual a esse índice.
“O fenômeno pode alterar padrões climáticos globais, elevando o risco de eventos como seca, chuvas excessivas e ondas de calor em importantes regiões produtoras, com impactos diretos sobre produtividade e preços agrícolas”, destaca relatório da Hedgepoint Global Markets sobre commodities no Brasil.
O fator geopolítico e a inércia de preços
“Sem a guerra [no Irã], a estimativa já era de aumento do preço dos alimentos, devido ao efeito do El Niño, que afeta o volume e distribuição das chuvas”, diz André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço dos alimentos e bebidas aumentou 2,16% nos 12 meses encerrados em março, quase a metade da inflação oficial, mas interrompeu sete meses seguidos de queda nesse indicador.
A quebra de produtividade gerada pelo choque climático persistiu, fazendo com que o El Niño adicionasse 2,25 pontos percentuais à inflação dos alimentos consumidos nos lares brasileiros durante 2024.
Créditos Gazeta do Povo
*conteúdo reproduzido para propagação da informação. Todos os direitos de imagem, conteúdo, texto e pesquisa são pertencentes a Gazeta do Povo. Caso queria que seja encerrado a publicação, envie email para jornalismo@novafm96.com.br para retirar do ar.



















