Depois de anos em que a direita foi acusada por autoridades, pela militância esquerdista e por parte da imprensa de operar “milícias digitais”, “gabinete do ódio” e ações coordenadas nas redes, o PT e aliados do presidente Lula decidiram incorporar à preparação para 2026 uma engrenagem explícita de mobilização digital coordenada.
A estratégia petista combina inteligência artificial, cadastro de apoiadores, comunidades de WhatsApp, “missões” diárias, unificação de narrativas e convocação de eleitores comuns para atuarem como “porta-vozes” de Lula em todo o país, antes mesmo do período de campanha. O plano também prevê orientação centralizada de conteúdos e estímulo ao encaminhamento coordenado de mensagens em escala – justamente o tipo de prática que a esquerda costumava apontar como abusiva nos adversários.
A mobilização foi apresentada pelo PT na terça-feira (9), com o nome de “Porta-Vozes de Lula”. Trata-se de uma plataforma nacional para organizar a militância digital em torno da reeleição de Lula em 2026.
A secretária nacional adjunta de comunicação do PT, Camila Moreno, explicou que a plataforma terá “distribuição diária de conteúdo”, “orientação da nossa pré-campanha”, formação permanente e respostas rápidas sobre conjuntura, programa de governo e ações do presidente. Os inscritos deverão informar dados, redes sociais e WhatsApp. Em seguida, entrarão em uma comunidade para receber “missão” e “conteúdo diário”.
“Quem for porta-voz do presidente Lula, do Brasil, da democracia, através dessa plataforma, ao se tornar porta-voz, vai ter acesso à produção de vídeos que nós vamos fazer, vídeos de até 60 segundos, as respostas a conjunturas, a defesa das políticas públicas e o governo do presidente Lula, cortes das entrevistas e discursos do presidente”, afirmou Camila. Segundo ela, a plataforma também vai oferecer “cards, memes, kit de mobilização e, sobretudo, integração”.
A dirigente petista anunciou ainda o uso de inteligência artificial. “Nós vamos colocar à disposição nossa inteligência artificial a favor da democracia, a favor da verdade, a favor do Brasil”, disse.
O ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, foi ainda mais explícito ao dizer que o objetivo da nova plataforma é coordenar o encaminhamento de mensagens em massa. “Eles se organizam. Eles têm uma meta e unificam a narrativa. Estamos em um tempo que é um tempo de disputa de narrativas. E eles unificam a narrativa deles”, disse Boulos. “A iniciativa dos Porta-Vozes do Lula foi criada para isso”, acrescentou, afirmando que o objetivo será coordenar o discurso nas redes, com o “time da campanha” definindo o tema do dia seguinte para a base de inscritos. “Por exemplo: é [escala] seis por um. Depois de amanhã é soberania. No outro é desmentir uma fake news. E todos nós vamos receber essa orientação, esse material.”
Boulos também defendeu que os apoiadores gravem vídeos em obras feitas pelo governo federal em suas cidades. “Cada um faz o seu vídeo pegando o seu celularzinho e indo na obra da sua cidade, que o Lula fez, e que às vezes não tem nem o nome do governo do Brasil naquela placa, e mostre. E todo mundo fazendo isso, no mesmo dia, ao mesmo tempo, é esse o caldo de rede que nos permite fazer a disputa da narrativa com eles”, afirmou.
A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) também defendeu a plataforma como instrumento para “todo mundo falar a mesma língua ao mesmo tempo” e criar sensação de pertencimento. Segundo ela, os apoiadores de Lula devem atuar de forma “coletiva, organizada, produtiva”.
A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) também ressaltou a necessidade de coordenação e encaminhamento massivo: “É preciso que tenha uma mensagem mais concentrada, uma mensagem única, mesmo que seja uma por dia, para que todo mundo multiplique e repita”.
Já o deputado André Janones (Rede-MG) sugeriu que a esquerda atue sem nenhum tipo de limitação moral nas redes sociais. “Eu, particularmente, estou me lixando de falar que é baixo nível. Eu sei o que está em jogo. Eu sei que o que está em jogo é a democracia desse país e, para salvar a democracia nesse país, antes eu dizia que valia quase tudo. Eu mudei o meu discurso nesses quatro anos. Hoje, para mim, vale tudo para salvar a democracia desse país.”
Disparo em massa é vedado pelo TSE, e iniciativa do PT pode ser judicializada
Para a advogada Isis Sangy, professora de Direito Eleitoral, a simples existência de uma plataforma de pré-campanha não configura, por si só, irregularidade eleitoral. O problema, segundo ela, pode estar no conteúdo distribuído e na forma como os apoiadores estão sendo mobilizados para replicá-lo.
Ela lembra que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) considera algumas expressões como equivalentes a pedido de voto – as chamadas “palavras mágicas” –, que podem caracterizar propaganda antecipada. “Existem várias expressões que não podem ser utilizadas em pré-campanha por darem a entender o pedido de voto”, diz.
Ao analisar o portal ligado à mobilização, Isis afirma identificar expressões que podem gerar questionamento na Justiça Eleitoral. Uma delas é “vamos juntos”. Segundo ela, essa expressão poderia levar à aplicação de multa por propaganda antecipada, caso a Justiça seja provocada.
Outro ponto sensível, de acordo com a jurista, é que os inscritos estão sendo convocados a atuar com disseminação coordenada das mensagens. “O disparo em massa não é apenas enviar mensagens para contatos que não têm interesse em receber, mas também o compartilhamento em larga escala”, explica.
Para Isis, tentativas de centralizar a produção da narrativa e orientar sua repetição por apoiadores podem ser levadas à Justiça eleitoral. “A militância pode, sim, ser feita em razão de ideias e de projetos, mas ela precisa ser espontânea. Quando é coordenada, temos indícios de que está ocorrendo uso indevido dos meios de comunicação e abuso de poder político.”
A jurista também diferencia a divulgação legítima de realizações de governo da propaganda antecipada. Pela Lei das Eleições, é permitido expor ideias, projetos realizados ou propostas futuras antes do período oficial de campanha. A linha é ultrapassada quando a comunicação passa a buscar engajamento eleitoral explícito. “A partir do momento em que se utilizam frases como ‘vamos juntos’, ‘conto com seu apoio’ ou ‘precisamos de você’, a Justiça Eleitoral costuma entender como propaganda antecipada”, diz.
Do “gabinete do ódio” ao “Porta-Vozes”: dois pesos e duas medidas para esquerda e direita
A naturalidade com que o PT e seus aliados descrevem uma operação de narrativa única, base de dados, missões diárias, uso de IA, disparos em comunidades de WhatsApp e multiplicação coordenada de mensagens contrasta com o tratamento dado à direita desde 2018.
Nos últimos anos, a atuação digital direitista foi alvo de inquéritos no STF, investigações no Congresso, remoções de perfis, acusações de “gabinete do ódio”, denúncias de “milícias digitais” e decisões da Justiça eleitoral que associaram a sua comunicação digital a um risco contra a democracia.
Já em 2018, denúncias sobre supostos disparos em massa pelo WhatsApp contra o PT levaram o TSE e a Polícia Federal a abrir apurações sobre a campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em 2020, o Facebook removeu 73 contas, páginas e perfis associados a aliados de Bolsonaro e ao gabinete da Presidência sob acusação de “comportamento inautêntico coordenado”.
O caso ajudou a reforçar o uso dos termos “gabinete do ódio” e “milícia digital” para descrever a atuação digital de apoiadores do ex-presidente, expressão que passou a estar presente em investigações, reportagens e discursos de adversários políticos da direita. Nenhum desses termos tem sido usado pelos mesmos atores públicos para definir a tática do PT.
Isis Sangy ressalta que “milícia digital” não é um conceito técnico previsto na legislação eleitoral. O enquadramento jurídico, nesse caso, passaria pelo conceito de “disparo em massa”, já usado pelo TSE.
A Gazeta do Povo questionou o PT sobre a diferença entre sua atual estratégia e aquelas que o partido costumava criticar quando eram usadas por adversários. Em caso de resposta, este texto será atualizado.
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