O movimento em direção à direita, tentando se posicionar mais ao centro depois de uma escorregada para a esquerda, já vinha sendo ensaiado e preparado fazia pelo menos uma semana pela maioria das lideranças do time, conforme o desconforto crescia. Na eterna “metamorfose ambulante” típica do Centrão — geralmente com boa parte de seus integrantes dispostos a apoiar o governo federal seja ele de direita, seja de esquerda — o MDB está dividido a cerca de sete meses das eleições de 2026.
Na terça-feira (3), os caciques de pelo menos 17 diretórios estaduais do partido entregaram ao presidente nacional da sigla, o deputado federal paulista Baleia Rossi, um manifesto por independência no cenário nacional e contra uma possível aliança eleitoral com o PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o pleito de outubro. O manifesto conta com pelo menos 23 assinaturas de lideranças políticas em 17 diretórios estaduais do partido.
O clamor por independência seria uma solução de compromisso, para não desagradar os diferentes grupos regionais que compõem o mosaico político fragmentado do partido mais antigo da Nova República — e ocorre em meio a negociações de bastidores para o partido compor a chapa presidencial de Lula. Cogita-se a possibilidade com um candidato a vice-presidente no lugar de Geraldo Alckmin (PSB-SP), por sua vez pressionado para concorrer ao Senado ou ao governo de São Paulo pelos petistas.
Lideranças regionais do partido preferem manter distância da chapa de Lula para outubro
Mesmo tendo em seus quadros diversas lideranças próximas ao governo federal petista, como o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e a ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB-MT), o MDB reúne grupos com posições divergentes dentro do partido. Lideranças regionais, principalmente de estados governados pelo centro ou pela direita, preferem que a sigla se distancie da chapa presidencial de Lula.
Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo na semana passada, o ministro da Educação, Camilo Santana (PT-CE), defendeu abertamente que o vice na chapa presidencial de Lula seja um nome do MDB, preferencialmente do Nordeste.
Ele citou como possibilidades o ministro dos Transportes, Renan Filho, filho do senador Renan Calheiros, ou Helder Barbalho (MDB-PA), governador do Pará e filho do ex-senador Jader Barbalho. “Não há candidato melhor que o atual vice”, afirma o ministro ao jornal. “Porém, o país está muito polarizado. Quanto mais ampliar o arco de alianças, melhor”, avalia.
Vices que devem assumir o comando de estados assinaram o manifesto
“Este manifesto, com todas essas assinaturas, mostra que é absolutamente zero a chance de o MDB se coligar com o PT em nível nacional”, afirma no documento o vice-governador de Goiás e articulador do manifesto, Daniel Vilela (MDB-GO). Além de Vilela, assinam o documento mais dois vice-governadores que devem assumir seus estados em abril e disputar a eleição para manter o comando representando o campo conservador: Gabriel Souza, do Rio Grande do Sul, e Ricardo Ferraço, do Espírito Santo.
O documento cobra da direção nacional do MDB que os diretórios estaduais tenham autonomia para escolher a melhor aliança e fortalecer o partido localmente, de acordo com a realidade da legenda em cada estado. Assim, as lideranças da sigla ficam livres para costurar alianças nos estados com quem melhor lhes convier, sem as amarras de um projeto eleitoral nacional unificado.
Em geral, integrantes do MDB de estados do Nordeste e Norte tendem a ser mais próximos de uma candidatura de Lula, seguindo a preferência de seus eleitorados. Pelo mesmo motivo, lideranças do Sul, Sudeste e Centro-Oeste em geral preferem distância do atual presidente.
Segundo cálculos de articuladores do manifesto, o grupo reúne cerca de 70% da convenção nacional do partido, que define oficialmente a partir de junho as candidaturas e alianças para as eleições de outubro.
“O movimento de diretórios estaduais do MDB defendendo neutralidade em relação ao presidente Lula em 2026 não é um episódio isolado. Revela um padrão histórico da relação entre os partidos”, afirma à Gazeta do Povo o cientista político Samuel Oliveira.
Ele lembra que o MDB nunca foi um aliado orgânico do lulismo. “É um partido de poder territorial. Sua lógica não é ideológica, mas federativa. Quando diretórios estaduais reagem contra uma aliança nacional, eles estão defendendo a preservação dos seus palanques regionais, muitas vezes estruturados com partidos que incluem adversários diretos do PT”, contextualiza ele.
“MDB prefere manter-se neutro para negociar poder depois da eleição”, diz cientista político
Chama a atenção que esse fenômeno ocorra mesmo enquanto o MDB ocupa posições relevantes dentro do governo federal. O partido controla três ministérios estratégicos no governo Lula: Transportes (Renan Filho), Cidades (Jader Filho) e Planejamento (Simone Tebet).
“O que está acontecendo agora é uma repetição dessa lógica estrutural do sistema político brasileiro. O MDB prefere manter-se neutro para negociar poder depois da eleição, e não antes dela. Neutralidade, nesse caso, é uma posição estratégica: permite ao partido preservar suas alianças regionais, disputar governos estaduais e, sobretudo, manter liberdade para compor com quem vencer a eleição presidencial”, afirma Oliveira.
Na avaliação do cientista político, esse tipo de movimento acontece porque o MDB pensa a política de baixo para cima. “Enquanto o PT pensa a eleição presidencial e depois organiza os palanques estaduais, o MDB faz o caminho inverso: primeiro preserva seus governos, bancadas e alianças locais”, diz Oliveira.
“Em outras palavras, o MDB continua fazendo aquilo que historicamente sabe fazer melhor: permanecer perto do poder, mas nunca completamente dentro de um único projeto político.”
Os signatários do MDB que assinaram o manifesto anti-Lula*:
- Deputado estadual Vilmar Zanchin (RS)
- Deputado federal Carlos Chiodini (SC)
- Deputado federal Sérgio Souza (PR)
- Rodrigo Arenas (SP)
- Washington Reis (RJ)
- Vice-governador Ricardo Ferraço (ES)
- Waldemir Moka (MS)
- Deputada estadual Janaina Riva (MT)
- Vice-governador Daniel Vilela (GO)
- Romero Jucá (RR)
- Wagner Sales (AC)
- Senador Alessandro Vieira (SE)
- Deputado federal Alexandre Guimarães (TO)
- Deputado federal Newton Cardoso (MG)
- Deputado federal Acacio Favacho (AP)
- Senadora Ivete da Silveira (SC)
- Vice-governador Gabriel Souza (RS)
- Ricardo Nunes (SP)
- José Fogaça (ex-presidente nacional do MDB)
- Deputado federal Alceu Moreira (Presidente da Fundação Ulysses Guimarães – MDB)
- Katia Lobo (MDB Mulher)
- Deputado estadual Wellington Luiz (DF)
* Até o final da tarde de terça-feira (3).
Créditos Gazeta do Povo
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