A força conjunta dos EUA e Israel mantém pelo quarto dia consecutivo os bombardeios em diferentes partes do Irã, incluindo a capital Teerã, onde os militares miraram novos alvos estratégicos do regime dos aiatolás.
Por sua vez, o Irã tem apostado em uma escalada de ataques contra os países da região, com o uso massivo de drones de baixo custo, e na pressão econômica que o conflito causa, como o bloqueio da principal rota de escoamento de petróleo do mundo, o Estreito de Ormuz.
Apesar da inquestionável superioridade bélica dos EUA, o Irã tem demonstrado uma capacidade de mobilização e controle operacional de seus recursos militares, além de ter começado a expor sua estratégia de ação.
Nas últimas horas, a Guarda Revolucionária do Irã anunciou ter lançado uma nova onda de ataques a uma base militar americana no Bahrein e a embaixada na Arábia Saudita foi atingida por dois drones, apesar de Teerã não ter reivindicado até o momento a autoria desses bombardeios. Um drone iraniano também atingiu o estacionamento do consulado americano em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Analistas avaliam estratégia militar do Irã
Nos últimos quatro dias, as Forças Armadas iranianas têm lançado ataques frequentes a países do Golfo que mantêm bases militares e podem contribuir logisticamente com Israel e EUA, apesar de eles terem condenado o início do conflito regional.
Além de Israel, Bahrein e Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Jordânia e Omã foram alcançados pela artilharia iraniana. Estruturas civis, como aeroportos, hotéis e até uma grande usina de gás natural, entraram na mira dos ataques. Mais de uma dezena de pessoas foram mortas.
Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor de Relações Internacionais do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) de Brasília, avalia que, ao espalhar o risco para outros países, especialmente aqueles que sediam bases americanas ou têm papel logístico relevante, o Irã aumenta o número de atores expostos ao custo do conflito.
“Ao lançar ondas de drones, mísseis e acionar atores aliados na região [como o grupo terrorista Hezbollah], ele força o adversário a manter sistemas defensivos em uso intensivo, consumir interceptadores caros e operar sob pressão constante. A lógica não é vencer militarmente, é elevar o custo do conflito para o outro lado. Trata-se de desgaste estratégico, não de superioridade de fogo”, avaliou. Ele acrescenta que, em termos estratégicos, a escalada controlada desses ataques do Irã pode ser uma forma de compensar inferioridade militar.
Uma das estratégias usadas pelo Irã é a propaganda de seu arsenal de drones e mísseis. Na segunda-feira, a agência de notícias estatal Fars divulgou um vídeo exibindo uma “frota” de veículos aéreos não tripulados produzidos pelo país e mísseis montados em lançadores de foguetes.
Uma análise do centro independente de pesquisa e diálogos estratégicos sobre segurança global The Soufan Center (TSC), sediado em Nova York, cita o baixo custo dos drones produzidos pelo país e das munições como estratégico para esgotar os estoques de interceptores e forçar os EUA e os países aliados a utilizarem munições defensivas caras para responder à ofensiva iraniana.
Segundo a organização, uma guerra de desgaste com a finalidade de acabar com os estoques de defesa antimíssil dos inimigos pode garantir ao Irã a sobrevivência em meio aos bombardeios.
Mas essa estratégia do Irã pode ser um “tiro pela culatra”. Para o professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ José Niemeyer, essa ofensiva contra países vizinhos pode colocar o Irã numa posição delicada no Oriente Médio. Ele cita a Arábia Saudita, que foi atingida por drones nesta segunda, como um ator regional que compete com o país persa pela liderança regional e pode ser favorecido se a estratégia se provar um “erro de cálculo”.
Irã adiciona pressão econômica à guerra
Ao expandir o conflito para outros países da região, o Irã também amplia o impacto econômico global, especialmente via energia e rotas marítimas.
Nesta segunda, o regime do Irã ameaçou atacar e incendiar qualquer embarcação que tente romper o bloqueio e atravessar o Estreito de Ormuz, em meio à escalada militar. A declaração foi feita por Ebrahim Jabari, assessor sênior do comandante da Guarda Revolucionária, e divulgada pela mídia estatal iraniana.
O bloqueio da principal rota de escoamento de petróleo e gás natural do mundo, por onde passa cerca de 20% desses recursos, afeta diretamente o mercado internacional.
“Isso impacta diretamente o preço do petróleo, fazendo com que o Brent – uma das principais referências globais de preço do petróleo – e outros tipos de petróleo se valorizem. Vimos hoje que o preço já está em US$ 83, uma alta de 7%, podendo chegar a até US$ 100, por mais radical que seja, é uma expectativa real”, afirma o economista Igor Lucena, doutor em relações Internacionais
O analista lembrou também que o impacto do bloqueio tende a pressionar a inflação global, já que o aumento nos custos é repassado ao consumidor final nos combustíveis. Entre os mais afetados estão países do Golfo, como Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos. Embora essas nações possam recorrer a oleodutos e gasodutos, a alternativa não se compara, em escala e eficiência, ao transporte realizado por navios petroleiros.
Segundo o The Soufan Center (TSC), Israel já estaria sentindo os custos do conflito com o fechamento de aeroportos, a suspensão de voos comerciais e uma ampla perturbação da vida civil.
Natali Hoff, doutora e mestre em Ciência Política e professora de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), afirma que, ao pressionar a economia global, o Irã também busca enviar um recado direto ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sensível às oscilações do mercado financeiro e aos reflexos delas na política interna dos EUA.
“Conforme o preço do petróleo oscila, por conta do fechamento do Estreito de Ormuz e do aumento dos bombardeios nos países do Golfo, conforme isso gera efeitos econômicos e oscilações financeiras, há mais chances de Trump se sentir pressionado internamente”.
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