A Comissão Externa da Câmara dos Deputados de Prevenção e Enfrentamento da Violência Sexual Infantojuvenil realizou uma audiência na quarta-feira (21) para ouvir relatos de mães e representantes legais de crianças desaparecidas em três estados brasileiros: Maranhão, Rio de Janeiro e Pará. (Foto: Bruno Spada / Câmara dos Deputados)
Dificuldades e falhas nas investigações
Durante a sessão, os participantes expuseram diversos obstáculos enfrentados no acompanhamento dos inquéritos policiais, a escassez de dados concretos sobre o paradeiro dos menores e os impactos emocionais e sociais gerados nos núcleos familiares afetados.
Clarice Cardoso, mãe dos irmãos Ágatha Isabelly, de seis anos, e Allan Michael, de quatro, desaparecidos em janeiro deste ano em uma área de quilombo na zona rural de Bacabal (MA), relatou que, nove meses após o sumiço das crianças, o inquérito ainda não foi concluído. A advogada da família, Nathaly Moraes, acredita que as crianças podem ter sido vítimas de uma quadrilha de tráfico humano, apontando omissões nos procedimentos iniciais da polícia civil local.
"Se eles [policiais civis] estão entendendo que a mãe vendeu as crianças, estamos falando de tráfico de pessoas. E, se estamos falando de tráfico de pessoas, por que não houve naquele momento um pedido de cooperação com a Polícia Federal? Se tinha uma linha de investigação, os procedimentos básicos deveriam ser seguidos", afirmou a advogada.
Acusações de negligência e casos específicos
A defesa destacou ainda que a culpabilização das mães é recorrente em ocorrências dessa natureza, o que frequentemente prejudica e retarda a apuração dos fatos, defendendo a federalização dos casos de desaparecimento infantil.
No caso do menino Edson Davi, de seis anos, sumido desde janeiro de 2024 na Praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, a mãe Marize Araújo contesta a tese oficial de afogamento. Ela aponta que diligências foram negligenciadas e que equipamentos de monitoramento da região estavam inoperantes, reforçando a suspeita de sequestro por uma rede criminosa.
"Há quase três anos, eu venho lutando por uma investigação digna, justa, com compaixão, por uma vida de uma criança que tinha apenas seis anos. É tudo o que eu preciso. É uma investigação com dignidade", declarou Marize Araújo.
Propostas de melhoria estrutural
Outro depoimento colhido foi o de Geycyara Souza Gonçalves, mãe de José Arthur Souza Barros, desaparecido em Eldorado do Carajás (PA) em março de 2026, que denunciou a ausência de retornos claros por parte das autoridades responsáveis.
Para o advogado Elisson Araújo, o cenário revela deficiências sistêmicas que facilitam a ação de criminosos contra populações vulneráveis. Entre as medidas sugeridas estão a coleta de biometria facial de recém-nascidos para evitar fraudes documentais e uma maior integração entre as forças de segurança pública para agilizar a troca de dados.
Ao encerrar a reunião, o coordenador da comissão externa, deputado Fernando Rodolfo (PRD-PE), reafirmou o compromisso dos parlamentares em continuar acompanhando os casos e disse que pretende apresentar uma proposta legislativa para permitir que a Polícia Federal atue em casos dessa natureza, sem burocracia.
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