O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, concedeu ao menos sete entrevistas a diferentes veículos de imprensa em um intervalo de três dias na última semana. A ofensiva midiática ocorreu em meio ao aumento de críticas dirigidas à Corte, após a divulgação de suposto envolvimento de ministros no caso do Banco Master.
A concentração de entrevistas, a repetição de argumentos em defesa do STF e as críticas diretas a outros atores políticos chamaram a atenção de analistas. Diante desse cenário, surge a pergunta: qual foi a motivação por trás da iniciativa de Gilmar Mendes? Para tentar responder a essa questão, a Gazeta do Povo ouviu especialistas das áreas do Direito, da Comunicação Política e da Ciência Política para avaliar possíveis intenções e os efeitos da estratégia adotada pelo decano do Supremo.
Resposta às críticas impulsionou maratona de entrevistas
“O ministro Gilmar Mendes manifesta todos os poderes que o Supremo tem – que são enormes – em uma disposição para uma espécie de batalha com os atores políticos, como ele tem se manifestado”, aponta Ricardo de João Braga, doutor em Ciência Política.
Durante da maratona de entrevistas, o ministro dirigiu fortes críticas a nomes específicos como Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência, e o senador Alessandro Vieira, que propôs indiciar o decano e os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli na CPI do Crime Organizado.
Gilmar Mendes também buscou desvincular a Corte do caso do Banco Master ao afirmar que o episódio “reside na Faria Lima”. E, ao ser questionado sobre a prorrogação do inquérito das fake news, em andamento há sete anos, o magistrado defendeu que a investigação permaneça aberta “pelo menos até as eleições”.
Uso do inquérito das fake news gera temor de intimidação em ano eleitoral
Enquanto João Braga vê uma postura de confronto do Supremo com atores políticos, outros analistas interpretam o movimento como reação natural à pressão social.
Para o cientista político Felipe Rodrigues, mestre em Comunicação Política, a iniciativa de Gilmar Mendes pode ser compreendida como uma tentativa de resposta à sociedade.
“Houve, naturalmente, uma cobrança maior da opinião pública por mais informações. Conceder mais entrevistas à imprensa é uma forma de responder à necessidade de prestar esclarecimentos e consolidar suas opiniões e versões dos fatos, além de reforçar sua posição no debate”, afirma.
Além da dimensão comunicacional, parte dos analistas vê na ofensiva midiática um efeito institucional mais profundo e potencialmente preocupante. Para a jurista Katia Magalhães, especialista em responsabilidade civil, o movimento tem potencial efeito intimidatório sobre a classe política.
“Quando ele diz que o inquérito das fake news vai até o fim das eleições, esse marco temporal não parece ter sido colocado à toa. Ali há uma ameaça muito explícita: ‘comportem-se, porque até o final das eleições vocês estarão sob o crivo de um inquérito onde cabe tudo, cabe qualquer pessoa’”, afirma.
Segundo Magalhães, essa leitura se sustenta pelo próprio desenho do inquérito das fake news, que não possui um escopo claramente delimitado. “Esse inquérito passa um recado muito claro ao Parlamento e aos postulantes a cargos eletivos: fiquem quietos. Se subir o tom, vocês vão para o inquérito”, acrescenta.
Para analista, estratégia de Gilmar não dialoga com cidadão comum
João Braga avalia que a crise de reputação do Supremo não é recente e que o embate público tende a ampliar o desgaste da Corte. “O que me parece é que o ministro Gilmar Mendes é muito hábil para lidar os jogos do poder e tem boa leitura do contexto, atuando com as ferramentas que tem. O problema me parece ser a relação com o eleitorado e com a cidadania de forma mais ampla”, observa.
“Pode ser que o ministro tenha sucesso, no curto prazo, nessa dimensão mais conjectural, mas, a médio e longo prazo, isso tende a gerar um processo de maior deslegitimação do Supremo, o que pode acabar favorecendo quem se posiciona contra a Corte. Nesse sentindo, a ala mais contida do STF mira menos no curto prazo e mais no médio e longo prazo, tentando uma recuperação de uma reputação”, acrescenta.
Magalhães pondera, no entanto, que apenas o comportamento dos atores políticos ao longo do calendário eleitoral permitirá avaliar se houve, de fato, êxito na estratégia adotada. “Eu não sei se, de fato, houve um propósito intimidatório. Isso só vai ficar claro mais adiante, com a aproximação do período eleitoral. Será preciso observar as reações do Parlamento e dos pré-candidatos para saber se essa estratégia funcionou ou não”, conclui a jurista.
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