Desde 1888, a abolição deu fim a séculos de escravidão no Brasil, mas a exploração do trabalho nunca deixou de existir. Mudou a forma — da senzala para a casa — mas a negação de direitos, renda e liberdade permanece.
“Fui criada num colégio de freira que meus pais morreram. Conversaram com o juiz e apareceu na frente do juiz uma senhora que estava procurando uma menina. Ficou sabendo que eles estavam dando uma menina para eles cuidarem, trabalhar, né? E foram lá no colégio e me pegaram. Aí eu vim para São Paulo com eles. “
Essa que você ouviu é a Araci do Amaral. Órfã, foi levada para uma casa de família, onde viveu, durante décadas, escravizada.
“Nos primeiros dois meses eu recebi, mas depois eu não recebi mais”.
E o que eles falavam para a senhora quando não pagavam?
“Não falavam nada, não pagavam. Simplesmente não pagavam.”
Leonardo Sakamoto, diretor da ONG Repórter Brasil, faz uma leitura dessa triste realidade, tão enraizada na sociedade brasileira.
“A menina que veio do interior, de um conhecido, de uma família de conhecidos, fugindo da fome, fugindo da dificuldade, veio para a região, para uma cidade, e lá foi acolhida por uma família, sob a justificativa de que garantiria-se um futuro para ela, mas o futuro a ela, condenado, era de trabalhar para comer e para ter a hospedagem.”
Shakti Borela é Coordenadora-Geral de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Análogo ao de Escravidão do Ministério do Trabalho e Emprego. Ela traça o perfil dessas mulheres.
“Mais da metade dessas mulheres têm no máximo a quinta série de escolaridade, 24% delas são analfabetas e 72% delas são pretas ou pardas, ou seja, são mulheres negras.”
A realidade vivida por Araci — e por tantas outras — é dura de aceitar pela sua crueldade. Certa vez, ao reclamar de dores nos dentes, a patroa ordenou que ela os arrancasse.
“Ela falou: então, você vai fazer isso. Aí, tive que tirar todos os meus dentes.”
“Tocou a campainha e eu fui atender. Aí, quando eu cheguei lá, estava feio de gente na porta. Falei, meu deus, o que é isso? Aí eles falaram que era da Polícia Federal, que era para mim abrir a porta. Eu falei, mas eu não posso, eles estão dormindo. Mas aí ele falou, mas tem que abrir, a Polícia Federal tem que abrir.”
Araci foi resgatada e os ex-patrões condenados a pagarem um salário mínimo por mês, além de R$ 500 mil de indenizações. No entanto, Araci, mais uma vez, vê negados seus direitos: sem receber nada, espera enquanto a justiça caminha a passos lentos. Roque Patussi, diretor do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante, em São Paulo, acompanha o drama de Araci.
“Ela viveu uma vida de medos e ela continua com medo, só que o medo agora é de não ter onde morar. O medo agora é de não ter o que comer amanhã. “
Para fazer denúncias sobre trabalho escravo disque 100. Os relatos são anônimos. em caso de risco imediato, acione a polícia no 190.
* Com Colaboração de Ana Graziela Aguiar e Ana Passos, Produção de Claiton Miranda e Patrícia Araujo e sonoplastia Egberty Martins.
Créditos Rádio Nacional/ Agência Brasil




















