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A diplomacia brasileira virou aparelho ideológico do lulopetismo

Cristiane Arruda Por Cristiane Arruda
20 minutos Atrás
Por Gazeta do Povo
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A diplomacia brasileira virou aparelho ideológico do lulopetismo

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Há gestos pequenos que dizem mais do que discursos inteiros. Em 26 de maio, o senador Flávio Bolsonaro deixou o Salão Oval da Casa Branca, onde fora recebido por Donald Trump, e procurou, para falar à imprensa, o único lugar que em tese deveria estar naturalmente aberto a um parlamentar brasileiro em solo americano: a embaixada do seu próprio país. A porta não se abriu.

A representação do Brasil em Washington, consultada com antecedência sobre a cessão de uma sala para uma entrevista coletiva, respondeu, inicialmente, que não havia comprovação do caráter oficial da visita e que, por envolver recursos públicos, o apoio não poderia ser prestado. Posteriormente, informou não haver tempo hábil para tratar da solicitação, em virtude de um feriado nacional americano. O pré-candidato à Presidência da República e uma das principais lideranças da oposição teve de improvisar a coletiva num endereço alternativo. A sala vazia que ficou para trás tornou-se o retrato mais eloquente da política externa mesquinha, pusilânime e enviesada do lulopetismo.

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Convém ser justo com o argumento da embaixada, ainda que apenas para desmontá-lo com mais precisão. É verdade que o uso de espaço e de recursos públicos exige formalização, e que uma agenda de natureza eleitoral não obriga missão diplomática alguma a transformar-se em palanque. A objeção, porém, não sobrevive ao teste elementar de qualquer alegação de neutralidade, que é a simetria.

Uma instituição é imparcial não quando recita o regulamento, mas quando o aplica com a mesma frieza a aliados e adversários do governo de plantão. O zelo súbito pela papelada, acionado contra um senador da oposição que acabara de se reunir com o homem mais poderoso do planeta, denuncia menos um apreço pela norma do que um reflexo de pertencimento. Burocracias capturadas têm um traço inconfundível: a régua encolhe ou se alonga conforme a cor de quem a invoca.

Inicialmente, cabe relembrar que não se tratou de uma agenda de cunho eleitoral, como alegado, mas de uma reunião de trabalho solicitada pela própria Casa Branca para discutir temas de interesse dos dois países, não tendo sido intermediada por nenhum empresário obscuro e com interesses inconfessáveis. Ademais, o argumento de falta de comunicação entre a chancelaria e a embaixada, bem como a alegação de escassez de tempo para processar o pedido, traduzem-se simplesmente como incompetência e partidarismo.

O episódio ultrapassou a esfera do sectarismo burocrático e evidenciou a conversão da diplomacia em instrumento de militância. A política externa deixou de ser concebida como mecanismo de projeção de interesses nacionais permanentes para transformar-se em extensão psicológica e ideológica do grupo político que, infelizmente, ainda ocupa o poder. Em vez de formular estratégia, o Itamaraty passou a administrar afinidades. Em vez de ampliar margens de poder do Estado brasileiro, passou a reproduzir alinhamentos emocionais, preferências partidárias e antagonismos eleitorais.

Receber, então, formalmente um pré-candidato é, na gramática do poder, um aceno evidente de legitimação. Fechar-lhe a porta da própria embaixada é, na mesma gramática, um desserviço ao país inteiro, porque empobrece o Brasil

Esse desvio ajuda a explicar por que o Brasil, mesmo sendo uma das maiores economias do planeta e potência natural em energia, alimentos e minerais críticos, atravessa uma das fases de maior irrelevância estratégica de sua história recente. O país fala alto em fóruns ideológicos, mas pesa pouco nas decisões centrais do sistema internacional. Multiplicam-se discursos grandiloquentes sobre “Sul Global”, multipolaridade e governança alternativa, enquanto faltam objetivos concretos, prioridades definidas e qualquer concepção séria de interesse nacional.

Não surpreende, portanto, que o senador tenha reagido com uma pergunta que, de tão direta, beira o constrangimento: desde quando a diplomacia brasileira passou a agir como extensão partidária do PT, um puxadinho do Planalto? A nota divulgada por sua equipe lembrou o óbvio, que uma embaixada representa o Estado brasileiro e não os interesses partidários do PT ou do governo Lula, e que é inadmissível ver um espaço público, pertencente à nação, usado de forma seletiva para atender conveniências ideológicas. O óbvio, no Brasil de hoje, virou tese polêmica.

O episódio não é avulso, e seria um erro tratá-lo como mera grosseria protocolar. Ele se inscreve numa disputa de gravidade maior. Poucas semanas antes, no começo de maio, o próprio Lula estivera com Trump e pedira, em essência, que Washington não interferisse nas eleições brasileiras. Trump respondeu à sua maneira, recebendo no Salão Oval o principal nome da oposição brasileira, sob articulação da cúpula republicana e com o concurso do secretário de Estado Marco Rubio, o qual, assim como o vice-presidente Vance, também o recebeu em reunião privada separada.

Há, nisso, um recado que o Itamaraty finge não escutar: a eleição de outubro será decidida numa margem estreita. Uma embaixada que se comporta como se a alternância fosse impossível aposta contra a própria razão de existir, que é servir ao Brasil que vier, e não ao Brasil que se prefere.

Soma-se a isso um pano de fundo que torna o gesto ainda mais imprudente. Depois do episódio tarifário do ano passado, em que Washington chegou a usar a sobretaxa de produtos brasileiros como instrumento de pressão política, qualquer sinal de reaproximação entre a oposição e a Casa Branca passou a carregar densidade estratégica evidente.

Receber, então, formalmente um pré-candidato é, na gramática do poder, um aceno evidente de legitimação. Fechar-lhe a porta da própria embaixada é, na mesma gramática, um desserviço ao país inteiro, porque empobrece o Brasil diante do seu maior interlocutor e o rebaixa à estatura de um comitê de campanha governista.

Países estrategicamente maduros diversificam relações sem destruir pontes, ampliam margens de manobra sem transformar diplomacia em palanque e preservam canais institucionais independentemente de preferências partidárias

Essa deterioração é agravada por um traço particularmente nocivo da atual política externa, que é a confusão entre ativismo ideológico e autonomia estratégica. Sob o lulopetismo, consolidou-se a crença de que hostilidade retórica ao Ocidente equivale automaticamente a soberania nacional. Não equivale.

Países estrategicamente maduros diversificam relações sem destruir pontes, ampliam margens de manobra sem transformar diplomacia em palanque e preservam canais institucionais independentemente de preferências partidárias. Lula faz precisamente o contrário, ao tensionar relações com democracias centrais sem obter contrapartidas relevantes, aproximar-se simbolicamente de regimes autoritários sem ganhos proporcionais e converter temas de política externa em instrumentos de consumo ideológico interno.

A consequência inevitável é a perda de credibilidade. Parceiros internacionais toleram divergências, mas o que raramente respeitam é improvisação estratégica travestida de virtude moral. E há algo de profundamente improvisado numa diplomacia que alterna antiamericanismo retórico, submissão econômica à China e pretensões grandiloquentes de liderança global sem conseguir sequer definir quais são, afinal, os interesses permanentes do Brasil no século XXI.

O problema, contudo, é ainda mais fundo do que uma sala negada. Ele é estrutural, e duas décadas de hegemonia lulopetista o sedimentaram com método. A diplomacia brasileira foi lenta e pacientemente reconfigurada para confundir o Estado com o príncipe. Os grandes serviços exteriores profissionais do Ocidente, do Foreign Office britânico ao Quai d’Orsay francês, ergueram sua autoridade justamente sobre a distinção entre a Coroa e o ocupante temporário do poder: o funcionário serve à continuidade, sobrevive aos gabinetes, atravessa as maiorias.

No Brasil, inverteu-se a equação. Na gestão de Mauro Vieira, consolidou-se um alinhamento que já não é apenas ideológico, é quase existencial. É o mesmo Itamaraty que, meses atrás, municiou o Supremo com a tese de que a visita de um assessor norte-americano a Jair Bolsonaro configuraria interferência em assuntos internos, e que agora descobre, diante de um pedido de sala, um repentino e seletivo apego à formalidade.

Pense-se numa edificação à qual se retira, discretamente, a parede mestra, substituindo-a por uma viga pintada da cor da facção. Enquanto o tempo está bom e o poder não muda de mãos, nada parece fora do lugar. A prova de carga vem depois, quando a estrutura precisa suportar uma alternância. É exatamente esse o ponto cego da diplomacia aparelhada, que funciona maravilhosamente para um único peso, o do grupo que a moldou, e ameaça ruir diante de qualquer outro.

Uma diplomacia aparelhada não produz apenas constrangimentos episódicos ou gafes protocolares; ela compromete a própria capacidade do Estado de pensar estrategicamente

Para isso concorre um vício que antecede o petismo, mas que o petismo soube explorar como ninguém: uma carreira organizada em torno da patente na pessoa, e não da função, tende a premiar a lealdade visível mais do que o resultado mensurável. E uma instituição que recompensa o bajulador acaba, inexoravelmente, produzindo bajuladores. Não por acaso, tantos quadros saborearam, sem o menor pudor, a hostilidade ao governo Jair Bolsonaro, como quem antecipa a fatura que o próximo patrão haverá de cobrar.

Talvez resida aí a dimensão mais perigosa do problema. Uma diplomacia aparelhada não produz apenas constrangimentos episódicos ou gafes protocolares; ela compromete a própria capacidade do Estado de pensar estrategicamente.

Burocracias capturadas pela lógica da fidelidade política tendem a expulsar, silenciosamente, os quadros independentes, técnicos e intelectualmente sofisticados, substituindo excelência por conformidade ideológica. O resultado é uma máquina que preserva liturgias, mas perde substância; mantém o ritual diplomático, mas desaprende a formular políticas e a projetar poder.

Não por acaso, o Brasil tornou-se simultaneamente mais barulhento e menos influente. Multiplicam-se notas, viagens, cúpulas e declarações performáticas, enquanto o país perde centralidade em temas decisivos para sua própria projeção internacional. Enquanto o mundo reorganiza cadeias produtivas, disputa semicondutores, minerais críticos, rotas logísticas e supremacia tecnológica, a diplomacia brasileira continua aprisionada ao modelo mental dos anos 90, como se a política internacional ainda orbitasse fóruns militantes e solidariedades partidárias de baixa relevância estratégica.

Daí a urgência da reforma, e não a reforma cosmética de organogramas, mas a refundação da carreira diplomática brasileira, com a substituição da lógica do posto na pessoa pela lógica da pessoa no posto. Em termos técnicos, migrar de uma estrutura de patente, o rank-in-person em que o diplomata carrega seu galão para onde quer que vá, para uma estrutura de função, o rank-in-position, em que a responsabilidade e o título seguem o cargo efetivamente exercido.

A isso somam-se a progressão por pontos, as trilhas de especialização e a proibição explícita das cartas informais de recomendação, esse mecanismo discreto pelo qual o apadrinhamento se disfarça de mérito e a sicofância se converte em moeda de ascensão. Uma carreira que premia quem agrada produz cortesãos; uma que premia quem entrega produz diplomatas. A diferença não é de grau, é de natureza.

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A modernização do Itamaraty, contudo, não deve ser compreendida apenas como mecanismo de despartidarização ou saneamento institucional. Ela precisa ser também um projeto de fortalecimento da própria carreira diplomática, a qual já formou quadros altamente qualificados, reconhecidos internacionalmente por sua capacidade técnica, sofisticação intelectual e habilidade negociadora. O problema está no gradual afastamento entre sua excelência potencial e os incentivos efetivamente produzidos pela estrutura atual.

Uma diplomacia moderna exige mais do que liturgia, antiguidade e reprodução burocrática de rotinas. Exige maior profissionalismo, especialização real, formação continuada, domínio técnico em áreas estratégicas e capacidade de operar num ambiente internacional crescentemente competitivo, tecnológico e orientado por interesses concretos e metas quantificáveis.

O mundo da geopolítica contemporânea já não se resume a comunicados diplomáticos e fóruns multilaterais: envolve cadeias produtivas críticas, inteligência artificial, minerais estratégicos, segurança energética, guerra híbrida, tecnologia dual, infraestrutura digital, base industrial e produtiva e competição econômica em escala global. Nenhum país relevante enfrentará esse cenário com uma chancelaria organizada segundo lógicas administrativas concebidas para o século passado.

Reformar a carreira, portanto, não significa enfraquecê-la, muito menos hostilizá-la. Significa precisamente o contrário, valorizá-la, profissionalizá-la e reposicioná-la como instrumento estratégico do Estado brasileiro. Uma diplomacia forte é aquela tecnicamente preparada para defender os interesses permanentes da nação. O objetivo deve ser devolver ao Itamaraty o papel de centro de formulação estratégica internacional do Brasil, e não de mera caixa de ressonância ideológica do governo atual ou centro de sabotagem de governos com orientação política distinta.

Creio ser essa a tarefa de um eventual governo Flávio Bolsonaro, reconstruir a capacidade estratégica do Estado brasileiro, dotando o país de uma política externa guiada não por afinidades ideológicas ou solidariedades automáticas a regimes congêneres, mas pelo interesse nacional, pelo pragmatismo e pela busca objetiva de poder, prosperidade e prestígio internacional.

Trata-se de resgatar uma diplomacia de proatividade, capaz de antecipar movimentos do sistema internacional em vez de apenas reagir a eles; de pragmatismo, orientada por resultados concretos e não por slogans militantes; de protagonismo, apta a reposicionar o Brasil nas grandes discussões globais; e de prestígio, fundada na credibilidade, na competência técnica e na previsibilidade institucional.

Nenhum projeto nacional sério sobreviverá, porém, com uma chancelaria que confunde diplomacia com militância, política de Estado com ativismo partidário e inserção internacional com performance ideológica para consumo doméstico. A reforma e modernização da carreira diplomática, mais do que agenda administrativa, são condição silenciosa para qualquer projeto consistente de desenvolvimento nacional, fortalecimento institucional e afirmação soberana do Brasil no século XXI.

Resta, ao fim, a sala vazia de Washington, aquela que não se quis ceder. Ela continuará lá, como advertência. Pois uma diplomacia que não encontra lugar para a metade do país que pensa diferente não está protegendo recurso público algum, está apenas confessando a quem serve. E instituições que se esquecem de a quem servem costumam ser lembradas, mais cedo ou mais tarde, por quem as paga.

Marcos Degaut, ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (CAMEX), é doutor em Segurança Internacional.

.

Créditos Gazeta do Povo
*conteúdo reproduzido para propagação da informação. Todos os direitos de imagem, conteúdo, texto e pesquisa são pertencentes a Gazeta do Povo. Caso queria que seja encerrado a publicação, envie email para jornalismo@novafm96.com.br para retirar do ar.



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