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Qual o peso de Donald Trump nas eleições no Brasil?

Cristiane Arruda Por Cristiane Arruda
2 horas Atrás
Por Gazeta do Povo
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Qual o peso de Donald Trump nas eleições no Brasil?

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Tradicionalmente, a política externa brasileira tem pouco peso na corrida presidencial, o que deve ser diferente neste ano. A gestão de Donald Trump nos EUA passou a preocupar o governo Lula (PT), que buscará o quarto mandato nas eleições de outubro. 

Desde o retorno do republicano à Casa Branca, em janeiro de 2025, a relação bicentenária entre Brasil e Estados Unidos sofre um desgaste, agravada no ano passado pelo tarifaço então imposto a produtos nacionais e por sanções impostas a autoridades brasileiras, entre elas o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Depois de acenar para o presidente dos Estados Unidos, a postura de Lula volta a afastar Trump do governo brasileiro e reforça a aproximação do republicano do grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), com quem o chefe da Casa Branca mostra afinidade pela defesa de pautas da direita conservadora.

Segundo pesquisa Quaest da última semana, posicionamentos de Trump tem potencial de refletir nas urnas brasileiras, tanto no voto do eleitor de direita quanto na escolha do militante de esquerda. De acordo com o levantamento, 32% admitem que podem votar em Lula pelo antagonismo a Trump.

Enquanto isso, 28% do eleitorado respondeu que as chances de votar no pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aumentam com o apoio de Trump a ele. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. 

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Além de se opor à classificação das facções criminosas do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, Lula suspendeu o visto do conselheiro sênior do governo Trump, Darren Beattie, que viria ao Brasil para participar de um evento sobre minerais críticos. Alexandre de Moraes já tinha autorizado o conselheiro da Casa Branca a visitar Bolsonaro na prisão, em Brasília, o que acabou sendo revogado após o governo federal alegar risco de interferência norte-americana.

Na última semana, no Rio de Janeiro, Lula afirmou que iria revogar o visto até que o governo Trump voltasse a permitir a entrada do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e dos familiares dele, nos Estados Unidos. Aliado de Lula, Padilha, a mulher e a filha de 10 anos tiveram os vistos revogados pelo governo Trump em agosto do ano passado.

O principal argumento da esquerda contra a suposta interferência dos Estados Unidos no combate às facções criminosas é a ameaça à soberania nacional. No entanto, na avaliação do especialista em segurança pública Roberto Motta, não existe risco de uma intervenção militar das forças norte-americanas pela parceria comercial e diplomática construída pelos dois países por cerca de 200 anos.

Além disso, o contexto político-institucional do Brasil é diferente dos vizinhos da América do Sul. “O principal efeito seria facilitar sanções jurídicas, econômicas e financeiras contra esses grupos. Traficantes poderiam ter bens bloqueados e enfrentar restrições para viajar ou movimentar dinheiro internacionalmente”, reforça Motta.

“O receio é que esse tipo de enquadramento jurídico acabe sendo estendido a grupos políticos ou movimentos sociais que utilizam métodos violentos”, analisa Motta, ao lembrar das invasões de terras promovidas pelo MST.

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A postura de Lula em contraponto a Trump na política externa da América do Sul tem gerado uma série de críticas da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, que é comandada pelo PL desde março do ano passado, quando o deputado federal Filipe Barros (PL-PR) assumiu a cadeira.

À época, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro era o nome mais cotado para a presidência da comissão, antes de ele deixar o país alegando perseguição do Judiciário brasileiro e ter fixado residência nos Estados Unidos. No último ano, o “filho 03” do ex-presidente da República se aproximou do governo Trump, que se manifestou contra a prisão de Bolsonaro e criticou excessos da Suprema Corte brasileira. 

Eduardo permanece nos Estados Unidos e tem trabalhado, internacionalmente, pela pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Com o apoio do irmão, o pré-candidato também passou a representar a direita brasileira em eventos em países estrangeiros. 

Paralelamente, o deputado Filipe Barros passou a trabalhar em sintonia com o aliado no comando da comissão na Câmara dos Deputados até o início deste ano, quando o cargo passou a ser ocupado pelo correligionário Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP). “Alertei reiteradamente que, ao dar as mãos às piores autocracias do planeta, a política externa do governo Lula seguiu rumo oposto ao do governo dos EUA”, disse o deputado paranaense.

Segundo ele, o governo federal deveria se aliar ao “maior regime democrático do mundo”, ao invés de se manifestar contra a intervenção dos Estados Unidos na ditadura da Venezuela e no regime autocrata do Irã. “Por isso, a eleição de outubro tem relevância também em escala global, já que pode mostrar para a comunidade internacional que o Brasil está disposto a parar de adular ditadores”, opina.     

Orleans e Bragança, por sua vez, soma-se às vozes com tom crítico à posição de Lula na tentativa de barrar a classificação das facções criminosas como organizações terroristas. “O narcotráfico já é uma violação de soberania. O governo deveria agir contra isso. Em vez disso, não apresenta nenhum plano concreto para enfrentar o problema.”

Além do risco eleitoral, o novo presidente da comissão parlamentar alerta para a possibilidade de sanções, caso o governo petista não tome providências contra o crime organizado, em alinhamento com os Estados Unidos. “Se houver entendimento de que o governo brasileiro é conivente com o narcotráfico, o país pode sofrer sanções e até ser tratado como um narcoestado”, afirma o deputado federal.

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Para o cientista político Leandro Consentino, especialista em Relações Internacionais, existe a tendência de trazer temas de fora da fronteira brasileira para dentro do debate eleitoral, com foco no impacto dos episódios no dia a dia do eleitorado. 

“A guerra no Oriente Médio pode aparecer no debate eleitoral pelo reflexo na economia. O governo, inclusive, já tenta reduzir impactos, como no preço do diesel. No caso das facções, a discussão não será exatamente se são ou não grupos terroristas, mas como isso influencia na segurança pública”, explica Consentino.

Ele lembra que os temas externos passaram a fazer parte do debate político interno, principalmente a partir do acirramento eleitoral entre direita e esquerda. “Se voltarmos a 2014, por exemplo, já havia discussões como o financiamento do porto de Mariel, em Cuba, durante a campanha pela reeleição da presidente Dilma. Com o aumento da polarização — especialmente após a ascensão de Bolsonaro — o uso de temas internacionais se tornou mais intenso”, comenta.

Já o especialista em segurança Roberto Motta afirma que a economia ainda deve se manter como o principal fator de decisão de votos nas próximas eleições.

Créditos Gazeta do Povo
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