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Home Gazeta do Povo

Empresário liga PT ao caso Master e consignados do INSS

Cristiane Arruda Por Cristiane Arruda
3 meses Atrás
Por Gazeta do Povo
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Empresário liga PT ao caso Master e consignados do INSS

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Entre os nomes que passaram a preocupar o Palácio do Planalto nas investigações sobre as fraudes do Banco Master e dos consignados do INSS, um se destaca por ligar diretamente o escândalo ao PT: o do empresário Augusto “Guga” Lima, ex-sócio do ex-controlador do banco, Daniel Vorcaro.

Ambos — Lima e Vorcaro — foram alvos de mandado de prisão preventiva no âmbito da Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro pela Polícia Federal (PF) para apurar supostas fraudes financeiras relacionadas ao Master. Soltos após revogação da prisão pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), permanecem sob monitoramento eletrônico e deverão prestar depoimentos à PF entre os dias 26 e 28 de janeiro.

Lima, que se tornou sócio do Master em 2020, emerge como personagem-chave na política de crédito consignado criada e mantida por governos do PT na Bahia: o CredCesta, que nos últimos anos tornou-se uma das engrenagens que sustentaram a expansão do Banco Master.

O programa deriva da Cesta do Povo, empresa estatal de abastecimento que, desde os anos 1970, funcionava como política social do governo da Bahia, operando supermercados públicos voltados à venda de alimentos a preços subsidiados.

A partir dos anos 2000, o modelo foi convertido no Cartão Cesta do Povo, e entre 2015 e 2018, durante governos do PT no estado, foi transformado em uma plataforma de crédito consignado com desconto em folha, destinada a servidores ativos, aposentados e pensionistas.

A engenharia operacional e financeira desse modelo foi conduzida por Guga Lima, que atuava como operador privado da estrutura, fora da administração formal do Estado. “Augusto foi quem articulou a entrada no negócio da Cesta do Povo, uma ampla rede de mercadorias populares na Bahia”, diz um executivo do setor financeiro à Gazeta do Povo sob condição de anonimato.

“O modelo era especialmente atrativo porque o público atendido era majoritariamente formado por servidores públicos. Na prática, o servidor adquiria produtos básicos, como açúcar, óleo e itens de consumo cotidiano, e, muitas vezes revendia essas mercadorias. Ao mesmo tempo, passava a integrar a base de clientes da operação, gerando recebíveis considerados de boa qualidade”, explica.

Em 2018, já no governo Rui Costa (PT), o programa foi formalizado sob justificativa de cunho social, em articulação com o então ex-governador e liderança política do PT baiano Jacques Wagner, hoje senador e líder do governo no Senado.

No mesmo ano, Lima firmou acordo de compartilhamento das operações do CredCesta com o Banco Master, antecipando a integração do modelo ao sistema bancário privado. Dois anos depois, em 2020, ele se tornaria sócio de Vorcaro.

VEJA TAMBÉM:

  • BC decreta liquidação do Will Bank, ligado ao Banco Master
  • Dias Toffoli avisa: não vai largar o osso do Master

Consignados integraram carteira de negociação para venda do Master

A partir daí, o desenho concebido no âmbito do governo da Bahia passou a ser replicado em escala pelo Master, com as carteiras de consignados sendo cedidas e utilizadas como ativos financeiros em operações com fundos de investimento e outros bancos. A estratégia fortaleceu a expansão do produto dentro da instituição e em todo o país — em 2024, o CredCesta já estava disponível em 176 municípios de 24 estados.

A geração em escala de consignados, a cessão recorrente dessas carteiras e sua circulação por fundos e instituições financeiras privadas criaram um fluxo contínuo de ativos que contribuiu para a alavancagem do grupo e que, mais tarde, serviriam como parte da base de garantias apresentada na negociação de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB).

Segundo comunicações feitas pelo próprio Master e relatos colhidos pelas autoridades, parcela relevante desses créditos teria sido originada por associações de servidores públicos da Bahia, em especial a Asteba (Associação dos Servidores Técnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia) e a Asseba (Associação dos Servidores da Saúde e Afins da Administração Direta do Estado da Bahia).

O problema, segundo apurações do Banco Central, da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, é que o volume de crédito atribuído a essas entidades não encontra lastro compatível em sua capacidade operacional, financeira ou histórica. Técnicos que analisaram os dados concluíram que as associações não possuíam estrutura, base de associados ou fluxo financeiro que justificassem a geração de bilhões de reais em consignados no período analisado.

Segundo as investigações, o banco firmou 338,6 mil contratos de crédito consignado com beneficiários do INSS entre outubro de 2021 e setembro de 2025. Desse total, cerca de 252 mil contratos — o equivalente a 74,3% — não teriam sido apresentados pela instituição financeira às autoridades.

Ainda assim, esses créditos foram utilizados pelo Master para compor aproximadamente R$ 6,7 bilhões em contratos de crédito consignado que não puderam ser comprovados, segundo relatórios preliminares das investigações.

Outros R$ 5,5 bilhões apareceram classificados como valores acessórios ou prêmios financeiros, sem explicação econômica compatível com operações tradicionais de cessão de crédito. No total, entre janeiro e maio de 2025, o banco apresentou ao BRB carteiras que, no conjunto, somavam cerca de R$ 12,2 bilhões — montante hoje no centro das apurações.

Créditos passaram carteiras e fundos de investimento

Esses créditos passaram a integrar carteiras estruturadas e fundos de investimento, alguns deles abastecidos com recursos ligados ao Estado da Bahia, hoje sob investigação por possível ausência de lastro, falhas de governança e problemas de avaliação de risco.

A presença de fundos de investimento e de entidades ligadas ao setor público nessas operações, contudo, não é automaticamente irregular. No Brasil, fundos de pensão, regimes próprios de previdência social (RPPS) e veículos de investimento de estatais operam sob regulação específica e com estruturas formais de governança, o que permite, dentro de certos limites, a alocação de recursos em crédito privado.

“Quando se fala em ‘fundos públicos’, muitas vezes se mistura tudo. Na prática, estamos falando de entidades fechadas de previdência complementar, RPPS e veículos de estatais, todos sujeitos a regras claras, com diretoria, conselho deliberativo e comitês de investimento”, afirma o economista Renoir Vieira, sócio da Duna Consultoria.

Segundo ele, esses fundos podem investir em CDBs, cotas de fundos estruturados e outros instrumentos de crédito, desde que respeitados limites de concentração e de risco definidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

O problema, segundo analistas, surge quando a exposição ocorre por meio de estruturas intermediárias que diluem o risco real do ativo subjacente. “Os fundos públicos raramente entram diretamente em um banco médio”, explica Gabriel Uarian, analista da Cultura Capital.

“O caminho mais comum é via FIDCs [fundos de investimento em direitos creditórios, que compram recebíveis como carteiras de consignados] e fundos de crédito privado, que permitem diversificação, mas também podem ‘maquiar’ risco quando o lastro não é sólido.”

No caso do Banco Master, parte relevante da captação junto a fundos ocorreu justamente por meio da cessão de carteiras de consignados, utilizadas como lastro para produtos estruturados.

Foi justamente essa combinação — crédito consignado originado em associações, circulação por estruturas financeiras complexas e participação de fundos ligados ao setor público — que passou a chamar a atenção dos órgãos de controle nas investigações envolvendo a negociação com o BRB.

Uarian destaca que a expectativa implícita de socorro estatal ou de cobertura pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) tende a reduzir o rigor na avaliação de risco.

“O FGC cobre CDBs até R$ 250 mil, mas não cobre FIDCs ou estruturas mais complexas. No caso do Master, houve investimento em instrumentos sem cobertura plena, o que ampliou as perdas potenciais.”

Vieira ressalta que, após os grandes escândalos dos anos 2000, — como os casos Opportunity/Brasil Telecom e Banco Santos — as decisões nos grandes fundos se tornaram mais colegiadas e formalizadas, o que dificulta desvios individuais, mas não elimina pressões externas.

Parlamentares querem CPI para investigar conexões entre esquemas

Enquanto as investigações prosseguem no âmbito da PF e dos órgãos reguladores, parlamentares da oposição enfrentam resistência à criação de uma CPI específica para investigar o Banco Master no Congresso. A saída tem sido articular frentes paralelas de apuração, especialmente no âmbito da CPMI do INSS e da Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado.

Além da oposição da cúpula do Congresso, eles relatam obstáculos impostos por decisões do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, que vêm restringindo o acesso dos parlamentares a provas já reunidas pela Polícia Federal.

Membros da CPMI do INSS pretendem convocar diretores do Master e ouvir parentes de seu controlador, Vorcaro, como forma de contornar as restrições impostas por Toffoli ao acesso às quebras de sigilo bancário, fiscal e telefônico do banqueiro.

Embora as investigações da CPMI do INSS e as apurações sobre o Banco Master tenham origens distintas, parlamentares e investigadores passaram a observar a recorrência de um mesmo padrão: o uso de estruturas associativas, lastreadas em consignados vinculados a benefícios públicos, como base para operações financeiras de grande escala, com posterior circulação desses créditos por fundos e instituições do sistema financeiro.

As mesmas associações baianas citadas no caso Master — Asteba e Asseba — figuram também entre as entidades analisadas pela CPMI do INSS, que apura descontos associativos irregulares em benefícios previdenciários e investiga se aposentados e pensionistas foram vinculados a associações sem consentimento válido.

No centro dessa frente de apuração aparece o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado por investigadores e parlamentares como operador do esquema de intermediação junto ao instituto.

Segundo depoimentos e requerimentos apresentados à comissão, Antunes teria atuado na captação de dados de beneficiários, na articulação com associações conveniadas e na facilitação de descontos em folha.

“É tudo um esquema interligado”, diz a fonte do setor financeiro à Gazeta do Povo. “O escândalo do Master revela um encadeamento de esquemas, que engloba desde as fraudes do INSS até o crime organizado, já que muitas das operações envolvem lavagem de dinheiro. Se investigar a fundo, poucos vão ficar em pé.”

VEJA TAMBÉM:

  • Como o sistema impulsionou a ascensão de Vorcaro – e agora tenta salvá-lo
  • BRB sinaliza aporte de dinheiro público para cobrir prejuízos no caso Master

Créditos Gazeta do Povo
*conteúdo reproduzido para propagação da informação. Todos os direitos de imagem, conteúdo, texto e pesquisa são pertencentes a Gazeta do Povo. Caso queria que seja encerrado a publicação, envie email para jornalismo@novafm96.com.br para retirar do ar.

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