Há quem diga que a melhor definição de democracia já dada não saiu de nenhum tratado de filosofia política, mas de uma conversa rápida numa rua da Filadélfia, nos EUA, em 1787. Os pais fundadores haviam passado quatro meses trancados numa casa abafada, tentando resolver o dilema de constituir um país que não se tornasse tirânico após uma longa guerra por independência.
Do lado de fora, cidadãos se aglomeravam tentando ouvir o que acontecia por detrás das janelas fechadas. Quando Madison finalmente saiu, uma mulher o interrompeu e perguntou o que, afinal, eles haviam dado aos americanos. Ele respondeu: “Lhes demos uma república; isto é, se vocês forem capazes de sustentá-la”. Verdade ou lenda, a frase atravessou séculos pela sabedoria que carrega. Sustentar uma república exige mais do que garantias institucionais. É preciso que cada geração de cidadãos seja capaz de cultivá-la.
A erosão democrática que observamos não é mera fatalidade. É, em parte, resultado de uma escolha coletiva de não educar para a democracia. Pois, jovens que crescem sem aprender a escutar argumentos contrários e sem acreditar que sua participação tem consequências reais tornam-se, muitas vezes, presa fácil de quem oferece certezas simples em tempos complicados
O Brasil fez sua própria aposta nesse sentido, em 1988. A Constituição Cidadã inscreveu a formação para o exercício da cidadania entre os objetivos fundamentais da educação brasileira, reconhecendo que uma república recém-saída de vinte anos de ditadura precisava formar, ativamente, os cidadãos que iriam assegurá-la. Mais de três décadas depois, essa promessa segue, em grande medida, sem cumprimento. A escola brasileira aprendeu a preparar estudantes para vestibulares e mercados de trabalho, mas raramente os prepara para os desafios da vida em sociedade.
É nesse vácuo que iniciativas verdadeiramente capazes de formar para a cidadania se destacam. É o caso do programa Virtuar que propõe um currículo estruturado de educação para a democracia, trabalhando de forma intencional dimensões como autoconhecimento, virtudes, cidadania, diálogo e participação política.
VEJA TAMBÉM:
Uma avaliação de impacto conduzida sobre a aplicação do programa em 2025 trouxe dados expressivos. O índice de inteligência social dos estudantes e a dimensão de cidadania subiram consideravelmente. Além disso, cresceu o percentual de jovens que rejeita a crença de que votar não muda nada – talvez a forma mais silenciosa e corrosiva de desengajamento democrático.
O que os dados revelam, no fundo, é que a erosão democrática que observamos não é mera fatalidade. É, em parte, resultado de uma escolha coletiva de não educar para a democracia. Pois, jovens que crescem sem aprender a escutar argumentos contrários e sem acreditar que sua participação tem consequências reais tornam-se, muitas vezes, presa fácil de quem oferece certezas simples em tempos complicados.
Madison saiu da Filadélfia preocupado por uma razão: uma república é uma construção permanente, que exige de cada geração o esforço de compreendê-la e renová-la. Esse esforço começa na educação, e iniciativas como o Virtuar trazem esperança de que essa promessa não cumprida possa, finalmente, concretizar-se. Afinal, assim como aquela mulher na rua da Filadélfia, cabe a nós fazer a pergunta certa e, mais do que isso, sermos capazes de sustentar a resposta.
Créditos Gazeta do Povo
*conteúdo reproduzido para propagação da informação. Todos os direitos de imagem, conteúdo, texto e pesquisa são pertencentes a Gazeta do Povo. Caso queria que seja encerrado a publicação, envie email para jornalismo@novafm96.com.br para retirar do ar.



















