A Conferência de Ação Política Conservadora (Conservative Political Action Conference), organizada pela American Conservative Union, não é apenas um evento anual. É, há mais de meio século, o principal instrumento de articulação, legitimação e mobilização da direita norte-americana e, mais recentemente, da direita global, que inclui a do Brasil. Desde sua fundação, em 1974, a CPAC funciona como uma espécie de “prévia informal” da política conservadora, onde se testam discursos, se constroem lideranças e se alinham estratégias.
O contexto de nascimento não é trivial. A CPAC surge em meio ao colapso institucional provocado pelo Watergate e à renúncia de Richard Nixon. A direita americana estava desorganizada, fragmentada e desacreditada. Era necessário reconstruir não apenas candidaturas, mas identidade. A conferência nasce exatamente com o propósito de unir correntes dispersas da chamada Old Right ao nascente conservadorismo moderno em torno de princípios comuns, como anticomunismo, governo limitado e valores tradicionais.
O marco fundador vem com Ronald Reagan, que discursou na primeira CPAC com a metáfora da “cidade brilhante sobre a colina”. Mais do que retórica, aquele momento foi um ato de fundação simbólica. Reagan não era ainda presidente, mas a CPAC o projetou como líder inevitável. O evento funcionou como catalisador: alinhou coalizões, consolidou sua imagem e pressionou o Partido Republicano a abandonar candidatos moderados. O resultado veio em 1980.
Desde então, a CPAC se consolidou como um mecanismo estruturado de poder político. Não se trata apenas de discursos. A conferência reúne ativistas, think tanks, mídia, financiadores e políticos em um ambiente de coordenação horizontal.
Esse papel se manteve ao longo das décadas, servindo como trampolim para diversas lideranças republicanas, como George W. Bush, Mitt Romney e Ted Cruz. Em cada ciclo eleitoral, a CPAC funcionou como termômetro da base conservadora – uma espécie de “primária ideológica” antes das primárias oficiais.
Mas é com Donald Trump que a CPAC entra em uma nova fase. Em 2011, Trump sobe ao palco e testa, pela primeira vez, o discurso que o levaria à presidência: nacionalismo, enfrentamento à mídia e retórica anti-establishment. A CPAC, ao legitimar esse discurso diante da base, transformou um outsider em candidato viável. A partir daí, a conferência deixa de ser apenas um fórum conservador e passa a orbitar em torno de uma personalidade específica. E, também, uma orientação de poder que transcende as fronteiras nacionais.
O impacto disso é direto na dinâmica eleitoral. A CPAC não decide eleições, mas molda o campo de possibilidades. Ele influencia doadores, imprensa, lideranças partidárias e militância. Funciona como um mecanismo de validação, pois quem performa bem ali ganha tração e quem não conecta com a base perde espaço.
Ao longo de cinco décadas, a CPAC deixou de ser apenas uma conferência para se tornar uma infraestrutura política permanente. Ele conecta base, elites, discurso e estratégia. Mais do que refletir a direita, ele a organiza. Mais do que acompanhar lideranças, ele ajuda a produzi-las. Hoje, com sua expansão internacional, incluindo edições no Brasil, outros países da América Latina e na Europa, o modelo CPAC exporta não apenas um evento, mas um método que inclui articulação, mobilização e disputa cultural.
Mas, com a mesma força, também traz para a versão americana os grandes nomes que despontam para os postos de liderança conservadora em países com a direita nascente ou renascente, com a proposta de não apenas tornar os problemas estrangeiros conhecidos dos conservadores americanos, mas também sinalizar para os atores estratégicos da direita desse país suas possibilidades de colaboração e influência com mecanismos de soft power.
E aqui entra a participação dos irmãos Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro na CPAC USA 2026. Eduardo, ex-deputado federal exilado, e Flávio, senador em mandato e pré-candidato a presidente do Brasil, representando o vácuo deixado por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso político.
A participação de Eduardo Bolsonaro na CPAC USA 2026, realizado até o último sábado em Dallas, foi breve em duração, mas densa em significado político. Diferentemente de Flávio Bolsonaro, que ocupou o palco principal em um discurso mais longo, Eduardo apareceu em um segmento de cerca de seis minutos, na sexta, dia 27/3, em formato de conversa ao vivo com Matt Schlapp, presidente da União Conservadora Americana e uma espécie de “mestre de cerimônias” sênior da CPAC. Eduardo foi descrito como uma liderança conservadora em exílio e utilizou o espaço para projetar internacionalmente as evidências de perseguição política no Brasil, além de inserir o cenário eleitoral de 2026 no contexto mais amplo da disputa global entre direita e esquerda.
Em sua fala, Eduardo estabeleceu paralelos diretos entre os acontecimentos políticos brasileiros e o ambiente político dos Estados Unidos, especialmente após o 6 de janeiro, argumentando que a direita brasileira enfrenta um processo semelhante de repressão institucional. Criticou abertamente o Supremo Tribunal Federal e o ministro Alexandre de Moraes, defendendo mudanças estruturais no equilíbrio entre os Poderes, e vinculou a eleição de 2026 a um projeto de retomada conservadora com impacto internacional.
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Ao apresentar a possível vitória de Flávio Bolsonaro como estratégica para alinhar o Brasil aos Estados Unidos, reforçou a ideia de uma articulação transnacional da direita, buscando apoio simbólico e político do público americano para a agenda conservadora brasileira.
Já o discurso de Flávio Bolsonaro, no sábado, 28/3, no palco principal do CPAC USA 2026, teve outro peso. Foi longo, estruturado e claramente orientado a posicionamento eleitoral e geopolítico. Falando por cerca de 16 minutos em inglês para uma atenta plateia conservadora americana, ele se apresentou como herdeiro direto do capital político de Jair Bolsonaro, combinando narrativa pessoal, crítica ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva e um discurso estratégico voltado aos interesses dos Estados Unidos.
Ao longo da fala, revelou que o Brasil vive uma crise econômica, institucional e de segurança, associando esse cenário ao retorno do PT ao poder e buscando sensibilizar a audiência americana ao destacar o tamanho, os recursos naturais e a relevância geopolítica do país no hemisfério ocidental.
O núcleo da mensagem, porém, foi geopolítico. Flávio apresentou o Brasil como peça-chave na disputa global com a China, especialmente no controle de minerais estratégicos e cadeias produtivas críticas, argumentando que a dependência americana desses insumos representa vulnerabilidade direta para a segurança nacional dos Estados Unidos e, por consequência, para o chamado “mundo livre”. Ao mesmo tempo, vinculou sua eventual eleição em 2026 à construção de uma aliança estratégica bilateral, sustentada por valores judaico-cristãos, cooperação econômica e combate conjunto ao crime transnacional e ao narcotráfico.
Além disso, o discurso teve um claro componente eleitoral e simbólico. Flávio não apenas se lançou como candidato, como também apresentou uma narrativa de continuidade, um “Bolsonaro 2.0”, prometendo aprimorar a experiência do governo anterior e reunir uma coalizão social formada por empresários, jovens e famílias preocupadas com segurança e futuro econômico. Em paralelo, fez um apelo direto ao público e às lideranças americanas por vigilância e pressão diplomática sobre o processo eleitoral brasileiro, argumentando que a garantia de eleições transparentes seria condição para a preservação da democracia no país.
O resultado foi uma fala que extrapola o âmbito interno e reposiciona o Brasil como eixo de uma articulação conservadora transnacional, conectando disputa eleitoral doméstica, estratégia internacional e guerra cultural em um único discurso coerente.
Se, no passado, a CPAC era essencialmente um espaço de construção interna do conservadorismo americano, hoje ele opera como uma plataforma de projeção internacional de agendas, alianças e disputas. O que se viu em Dallas não foi apenas a participação de lideranças estrangeiras, mas um movimento coordenado de comunicação política voltado a sensibilizar o núcleo decisório, formal e informal, da direita nos Estados Unidos. Ao falar naquele palco, os irmãos Bolsonaro não se dirigiam apenas à base militante, mas a um ecossistema de influência composto por financiadores, think tanks, mídia e articuladores estratégicos que, historicamente, moldam os rumos do poder no país.
Nesse sentido, a CPAC deixa de ser apenas um fórum e passa a funcionar como instrumento de diplomacia política paralela. A mensagem brasileira foi clara: há, no país, uma direita disposta a reorientar o Brasil em direção ao chamado “Ocidente livre”, reabrindo canais de alinhamento estratégico, econômico e cultural com os Estados Unidos. Mais do que isso, há um convite implícito, e calculado, para que esse establishment conservador internacional participe, direta ou indiretamente, desse processo de realinhamento.
A questão que se coloca, portanto, não é mais se essa sinalização será ouvida, mas como ela será recebida e construída nos centros de poder. O que se abriu em Dallas foi uma janela concreta de reposicionamento do Brasil no cenário internacional, com a possibilidade de reconstrução de laços estratégicos com o Ocidente livre. Se houver convergência entre liderança política, base social e os atores que influenciam o poder global, esse movimento pode deixar de ser apenas discurso e se tornar um ponto de inflexão real na trajetória do país.
Zizi Martins é presidente do Instituto Solidez, graduada e mestre em direito, doutora em Educação, pós-doutora em Política, Comportamento e Mídia e estudante de jornalismo.
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