“Ao menos de uma coisa se tem certeza na vida”, ou então “na vida, temos certeza apenas de uma coisa”. Essas frases se ouvem bastante, geralmente não para se referir diretamente à realidade a que fazem alusão, mas sim à instabilidade e à mobilidade das outras coisas todas que compõem o existir do ser humano sobre a terra. Como mãe, sempre achei que o adágio, em qualquer uma de suas versões nuançadas, deveria ser classificado na categoria das hipérboles, quero dizer, não é verdade que só temos certeza de uma coisa na vida.
Quero que meus filhos tenham certeza do meu amor. Eu mesma tenho certeza do amor do meu esposo, dos meus próprios filhos, além de outras confianças que conquistamos na vida, e todas elas, ainda que se queira pôr um grano salis de dúvida em todas essas relações, dependem e descendem do único e mais verdadeiro amor, que é o amor de Deus. No fim das contas, na vida, temos certeza apenas de uma coisa, e não é da morte, porque a vida já venceu a morte. É o que se celebra hoje, ao terceiro dia contando a partir da Grande Sexta-Feira, a que é marcada pelo silêncio e pela dor.
Quando era arrastado pelos guardas ferozes, no meio da madrugada, cujo manto negro deveria lhes ocultar as más ações e a injustiça, e também quando sofreu os primeiros golpes dos algozes em seu costado, e ao cair três vezes na subida do monte, e ao ter seus membros perfurados pelo metal agudo dos cravos, e até o último instante, Jesus certamente não se esquecia do verso do salmo: “Não abandonarás minha alma na morada dos mortos, não permitirás que o teu santo experimente a corrupção” (Sl 16, 10). Esta era “a certeza que ele tinha na vida” – a certeza que ele tinha da vida –, e não a morte, ainda que a morte fosse certa.
E, a dois passos de sua Cruz, já o aguardava o mausoléu, o túmulo novo que nunca fora antes utilizado. Os túmulos dos judeus ficavam, habitualmente, dentro de uns quintais cercados. E aquela região dos jardins, às margens da cidade de Jerusalém, continha muitos desses terrenos. Os hebreus daquela época cavavam muito na própria rocha, mais do que construíam alguma coisa, e assim ganhavam espaço e conseguiam produzir edificações mais duráveis – o túmulo deveria guardar a ossada do ser humano até a ressurreição do último dia, segundo a crença de parte do povo de Israel (na Bíblia se leem as discussões com os saduceus, que descriam dessa doutrina) que foi herdada pela Igreja. Assim, é justo dizer que suas necrópoles resistiram mais à ação do tempo do que suas próprias cidades, morada do tempo, habitação da vida que – temos certeza – há de passar.
No fim das contas, na vida, temos certeza apenas de uma coisa, e não é da morte, porque a vida já venceu a morte. É o que se celebra hoje
Sabemos, por informação da literatura histórica e daqueles que conhecem de perto a Terra Santa, que na época de Jesus o zelo pela construção desses túmulos era grande, com atenção aos detalhes decorativos etc. Seu aspecto podia variar entre um simples buraco, quadrado ou retangular, e uma vasta e arejada edícula piramidal, cercada por uma espécie de trincheira, contendo, por vezes, um domo. Entre esses dois modelos está uma gama de variações, de detalhes e ornamentos, que expressam mais propriamente a piedade, o refinamento ou as características sociais daquele que ali passava a descansar.
Os arqueólogos explicam que os monumentos comportavam um vestíbulo aberto, isto é, um espaço protegido por colunas, como um pequeno pátio ao ar livre. Isso solucionava a necessidade, aliás, de edificar o mausoléu em terrenos inclinados (como era o caso do Monte Calvário). Ali as famílias podiam se reunir e fazer orações. Então se descia por uns degraus, até a soleira que dava para uma porta baixa, para uma primeira câmara destinada aos ritos fúnebres de lavagem do corpo, embalsamamento, e as orações típicas. Depois, a parede do fundo continha um buraco ou outra porta baixa, que conduzia à efetiva sala funerária, perfurada por um nicho arqueado, que recebia o morto. Assim era, tudo indica, o túmulo novo de José de Arimateia, de que nos fala o Evangelho, e que teve o privilégio inconteste de tornar-se o Santo Sepulcro do Senhor.
Os judeus criam que esse nicho, onde se depositava o morto, deveria ser um pouco inclinado, e, no lugar onde se deitava a cabeça, deveria haver um pequeno “travesseiro” de pedra. O simbolismo desse cuidado tem o sentido de que o corpo deveria ser posto numa posição “confortável”, para que pudesse dormir e descansar. Ele aguardaria ali até o seu despertar, no fim dos tempos.
E como funcionava, em suma, o sistema de abrir e fechar a cova mortuária? Aqui nos aproximamos do que mais nos interessa para meditar.
As mulheres, na manhã da Páscoa, dizem: “Quem removerá a pedra do sepulcro para nós?” (Mc 16, 3). Havia, de fato, uma grande pedra para fechar o túmulo. Era como um imenso rebolo ou disco grosso de pedra maciça, chamado em hebraico de golel. Elas pesavam às vezes até mais que uma tonelada. E acrescenta a página sagrada que a pedra de Jesus era “muito grande” (Mc 16, 4). Bem à frente da porta do sepulcro corria, no chão, uma ranhura, como um trilho pelo qual se moveria a pedra. Quando o sepulcro estava fechado, o grande disco de pedra se encaixava na parede da direita, num entalhe, e, no chão, umas cunhas o seguravam. Quando se queria abrir o sepulcro, a pedra deveria ser rolada, com a força de seu próprio peso, naquela trincheira aberta do lado esquerdo.
Não é nem um pouco estranho que as mulheres não se julgassem capazes de mover sozinhas aquela porta, pois essa operação exigia, no mínimo, dois homens fortes. Era necessário não apenas mover a estrutura, mas erguê-la um pouco para que a pedra ficasse fixada, e se mantivesse aberta em vez de rolar de volta. Apenas tentar abrir o túmulo sozinhas teria sido arriscado para as santas mulheres. Talvez não fosse uma impossibilidade absoluta, mas, falando francamente, na prática… era-lhes impossível.
Pois bem. Esta pedra, que sela e lacra o fim de uma vida, é para nós um símbolo da própria morte. A morte é mesmo um imenso rebolo maciço, o qual somos, como as mulheres do evangelho, incapazes de mover, incapazes de tirar da frente, incapazes de transpor, quase incapazes de sequer tocar, de tanto medo. É uma distância que se põe, intransponível, entre nós e os nossos mortos, entre o nosso amor e os nossos amados. A morte é, sobre a nossa vida, pesada como uma pedra gigante, que parece querer esmagar as nossas próprias memórias e as encerrar numa cova escura e profunda.
É também uma rocha em nossa própria vida, a que porá fim aos nossos dias – os de chuva e os de sol –, às nossas emoções todas, alegrias e tristezas que colhemos do caminhar pela terra. Ela pesada e dura, e encerra: é a “certeza que temos na vida!”
Mas será só isso? Não é assim que terminam os evangelhos, pois não foi assim que terminou a trajetória do Cristo sobre a terra. As mulheres, que naquele primeiro dia da semana, antes ainda que se fizesse dia, foram até o túmulo, levando consigo os bálsamos e aromas que deveria tratar do corpo de Jesus. Ora, os bálsamos aplicados às pressas na sexta-feira eram nada mais que uma piedade provisória, um cuidado, um improviso de preparação. Morrendo, Jesus, o Sol de Justiça, se punha, e com o ele o sol que está no céu também seguia seu ocaso. O outro dia era um sábado, um shabat, o dia prescrito para o repouso – em que, no Gênesis, o Senhor repousara após criar o mundo, e no qual agora repousaria novamente, após recriar a humanidade em seu Filho. Mas as mulheres não sabiam disso. Apenas esperavam findar o repouso sabático para então retornar e proceder com o embalsamamento solene.
Todos nós temos em nossas vidas pedras enormes, que nos separam dos outros – da família, dos amigos
E então, ao chegarem ali tão cedo, duvidando em seu coração “quem moverá para nós a pedra que fecha a boca do sepulcro” – a boca que engoliu Nosso Senhor no reino das profundezas, da sombra e do esquecimento –, ergueram os olhos e… “viram revolvida a pedra” (Mc 16, 4). A pedra já havia sido retirada – e o restante dos relatos cheios de esperança e emoção, da Madalena confusa chamada pelo nome, de Pedro e João correndo, os guardas atrapalhados, os dois caminhantes de Emaús, a barca da última pesca, os anjos da Ascensão… tudo isso eu deixo aqui apenas aludido, para que os ouçam na liturgia, ou os leiam em casa, em vossas bíblias, e para que se alegrem com eles, à luz do círio pascal.
Fato é que a morte de Jesus, que conclui a sua Paixão, é seu último gesto de rebaixamento, de humilde entrega. Nós, quando vamos à sepultura, entregamos, em nosso último suspiro, aquele dom que não podíamos mais reter em nós, e o devolvemos, por assim dizer. O Cristo, por sua vez, entregou por vontade própria aquela vida que era dele mesmo, que era senhora de si mesma, para então a retomar. As nossas tumbas são como “esquecedouros”, onde nossos corpos são depositados para aguardar o fim dos tempos. A alma escapa ao túmulo, isto é certo, mas nossos corpos regressam ao pó, como nos faz lembrar a Quaresma, e nossa memória do mesmo modo se dissolve no térreo da sociedade humana. O túmulo de Cristo, não: ele é como um túnel subterrâneo, pelo qual passa a humanidade inteira, da morte para a vida. A grande pedra, a da porta da morte, é movida, e ela se torna a porta da vida.
“De tarde estaremos em lágrimas, e de manhã, em alegria” (Sl 30, 6). Termina a longa travessia da noite, empapada de amargor, e ao romper do dia já se rompeu a pedra, o sepulcro, a própria morte. Apenas passa o sábado, e aquela pedra de uma tonelada se rompe como a casca de um ovo. Aquela boca de morte abre seus lábios e deixa pronunciar-se, em luz fulgurante, a palavra nova da vida. O Santo Sepulcro se abre como num lindo sorriso de Deus para o homem. Ali a humanidade fora imersa, em Jesus, como uma semente que deve morrer, para novamente germinar. E a Páscoa é o seu florescer.
É o que devemos ter bem diante dos nossos olhos, dos nossos olhos encantados pela ressurreição gloriosa do Senhor que este domingo se celebra, assim como celebrávamos, dois dias atrás, a humilhação constrangedora do Filho de Deus e a sua morte dolorosíssima. Todos nós temos em nossas vidas pedras enormes, que nos separam dos outros – da família, dos amigos. Há na vida da gente rebolos imensos de rocha maciça, que de fato não somos capazes de rolar, e seria mesmo temerário tentarmos mover sozinhos. Mas não é preciso. Existe uma força que não sabemos explicar, há alguém que, antes mesmo de chegarmos, antes mesmo de que se faça a luz, alguém que já pensa em nós, que sabe dos nossos problemas, alguém que é capaz de mover os obstáculos imensos que nos separam da vida, de nós mesmos, do próximo, da reconciliação, da paz.
Queridos leitores, a festa de hoje celebra uma troca de certezas, a maior e mais importante troca desse tipo que já houve na história, sem exagero algum. A “única certeza que devemos ter na vida” não é mais a da morte, porque ela foi revogada em seu efeito perpétuo. Todos haveremos de morrer, isto é justo. Mas, na esperança, ao erguermos os olhos e vermos a pedra retirada, e do fundo da morte sair o Cristo reluzente que ressuscitou por nós, podemos dizer “onde está agora, ó morte, o teu poder, e o teu aguilhão?” (cf. 1Cor 15, 55). A única certeza que precisamos ter para enfrentar os nossos reveses é a de que a vida já venceu a morte, e assim nós fomos salvos.
A pedra já foi tirada, alguém já a revolveu por nós. E os bálsamos que trazemos, os aromas, aquilo que carregamos pensando em tratar da morte, em reduzir os efeitos da sua deterioração?… Lançai tudo ao chão, não são mais necessários. Não havemos de procurar entre os mortos o que está vivo.
Olhai bem, vede, ele está diante de nós, e nos chama pelo nome… Rabbouni!
Feliz Páscoa a todos.
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