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Home Gazeta do Povo

Super Bowl e a Bad ideia

Aldemir Oliveira Aldeia Por Aldemir Oliveira Aldeia
12.02.2026
Por Gazeta do Povo
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Super Bowl e a Bad ideia

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O espetáculo do intervalo do Super Bowl deste ano foi mais que um concerto. Na verdade, foi a amplificação de um produto de quinta qualidade embalado com manifesto político.

Durante treze minutos, os Estados Unidos contemplaram um subproduto da polarização política convertido em oportunidade de negócio. A iconografia porto-riquenha foi apresentada como resumo da latinidade, e Bad Bunny conduziu os espectadores por um bairro estilizado: canaviais, mesas de dominó, salões de manicure, barracas de comida de rua, cenários que remetem a bairros latinos.

Quase ninguém entende o que ele canta, mesmo entre os latinos. Mas isso pouco importava ali. O que estava no palco era uma mensagem anti-Trump e uma isca para o público latino que supostamente é o mais afetado pelas operações de captura de imigrantes ilegais.

Por essa razão, a identificação latina com Bad Bunny é mais política que cultural. Comecemos pelo princípio: o que se viu em campo foi um desfile de estereótipos. Porto Rico, com seus três milhões de habitantes, não resume a América Latina. Muito menos a versão badbunnyana apresentada resume a ilha.

Os latinos, mais uma vez, foram embalados como se a América Latina fosse uma coisa só, embalada pela batida do reggaeton e pelos passos do perreio, que é a versão mais erotizada possível da dança porto-riquenha.

A sexualidade não é estranha à música latina. Mas a transmissão resolveu dar dimensão superlativa ao corpo feminino. Ou melhor, ao corpo da latina, sempre erotizada em suas formas abundantes e rodeando malandrões sensuais e musculosos numa coreografia que transforma a celebração em exotização.

Não é novidade. Em 2020, J.Lo e Shakira já haviam sido criticadas por transformar a latinidade em espetáculo de corpos. Mas isso só ocorreu porque as pobrezinhas estavam ali para animar o evento, e não fazer política. Se naquela época estivessem na onda Fuera ICE, elas teriam sido celebradas.

O que nos leva à outra “má ideia” escondida à vista de todos: a política de nomenclatura. Em partes da academia e do ativismo latino-americanos, alguns insistem que os Estados Unidos da América são apenas “os Estados Unidos”. “América” somos todos. O resultado disso é que a nacionalidade “americano” tem sido cada vez mais considerada ilegítima, tendo sido substituída pela forma original em espanhol, “estadunidense”, e cada vez mais em português também. Bad Bunny fez questão de reforçar isso no seu espetáculo.

Mas essa mudança, que é vendida como precisão, é, na realidade, retórica que tem ganhado força como resistência ao slogan político do presidente Donald Trump, que se elegeu pela primeira vez em 2016 sob o mote de “Faça a América grande de novo”. O plano de tentar esvaziar as mensagens do presidente Trump em todas as frentes possíveis retomou esse argumento sindical e bem colegial de que a América é o continente e não um país.

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Pois bem, vamos tentar entender por que isso é de uma burrice descomunal. Antes de sua independência, que neste ano completa 250 anos, o que havia onde hoje é conhecido como Estados Unidos da América eram treze colônias que tinham vida própria e se relacionavam muito lateralmente sob o controle britânico.

Identificando-se pelo gentílico de cada uma das colônias, essas pessoas tinham em comum apenas uma coisa: a terra em que viviam, a qual eles sempre chamaram de América, que evidentemente é derivada do nome do continente inteiro, tal como foi batizado séculos antes. Quando se tornaram independentes, finalmente deram origem a um país e deram um nome tão simples quanto referencial: Estados Unidos da América.

O que isso significa? Cada uma das colônias agora independentes passou a se organizar como estado e, como tal, se federalizaram em torno de um país que eles escolheram chamar de América, em referência ao lugar em que vivem. Por fim, Estados Unidos é mais sobre a organização do país do que sobre o nome do lugar que, gostem ou não, tem o mesmo nome do continente todo.

“Ah, você está errado”, quem chegou até aqui pode dizer. Então vejamos alguns exemplos: Os cidadãos dos Estados Unidos Mexicanos são chamados de mexicanos ou estadunidenses? Pouca gente sabe ou finge não saber que o nome oficial do México também é Estados Unidos. A obviedade é reluzente: México é o lugar, e Estados Unidos é a forma como o Estado se compõe como uma federação.

Podemos ir além. O Brasil teve como nome oficial “Estados Unidos do Brasil” até 1968. Em algum momento deixamos de ser chamados brasileiros? Não teria sido o caso de sermos conhecidos como estadunidenses? Claro que não. Assim como na América ou no México, os “Estados Unidos” no nome oficial fazem referência à composição do Estado, e não ao lugar.

A Colômbia se chamou “Estados Unidos da Colômbia” de 1863 a 1886. A Venezuela estabeleceu os “Estados Unidos da Venezuela” em 1864; esse nome durou até 1953. Ninguém inventou gentílico ideológico algum nem para eles nem para nós. Mas por que temos que encher o saco dos americanos e começar a pregar, dentro da própria América, que eles têm que abandonar a sua identidade e “nos devolver um nome que deve ser comum”?

Aqui está a linha fina entre o show do intervalo e o ativismo.

A identidade latina foi reduzida aos piores estereótipos possíveis, mas agradou por apresentar uma suposta autodeterminação amparada em uma falsificação linguística e histórica

Por pirraça política e má-fé, o maior palco da América se transformou em um evento antiamericano. Não se celebrou diversidade alguma nele. O que o Super Bowl proporcionou foi um palanque para ingratidão, traição e violência contra a identidade de uma nação e seu povo, que é mais diverso e aberto que em qualquer outro país do continente americano.

Créditos Gazeta do Povo
*conteúdo reproduzido para propagação da informação. Todos os direitos de imagem, conteúdo, texto e pesquisa são pertencentes a Gazeta do Povo. Caso queria que seja encerrado a publicação, envie email para jornalismo@novafm96.com.br para retirar do ar.



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