Eu colecionava figurinhas das seleções da Copa do Mundo que vinham no chiclete Ping Pong. A propósito, o chiclete Ping Pong ainda existe? Faz tantos anos que não vejo um que começo a desconfiar que ele pertence à mesma categoria dos dinossauros, dos telefones com discador e dos jogos sem VAR.
Naquele tempo, eu passava tardes inteiras tentando completar o álbum. Faltava um jogador da Escócia, apareciam três da Bélgica. Repetia-se um goleiro do Kuwait, mas nunca surgia aquele meia da França que eu procurava. A vida parecia muito simples: bastava trocar figurinhas com os amigos para corrigir as injustiças do destino.
Pensando bem, continuei colecionando figurinhas mesmo depois que o álbum acabou. Só que as novas são diferentes. De quatro em quatro anos, vou colando imagens num álbum invisível: não são jogadores nem escudos de seleções, mas salas de estar, vozes familiares, cães assustados pelos rojões, amigos chegando à porta, avós, pais, mães, filhos.
Folheando esse álbum, descubro que cada Copa deixou muito mais do que resultados e tabelas. Em cada página amarelada, um pedaço do mundo que existia naquele instante e que, por alguma razão, resolveu permanecer.
Vejo uma televisão em preto e branco tentando acordar para a vida. O ano é 1974. Sou muito pequeno; as imagens são vagas. Sei que estou no apartamento da Barão de Limeira, em São Paulo, ao lado de meu pai e do Vô Briguet. A imagem demora a aparecer. Quando a televisão é desligada, sobra apenas um ponto branco no meio da tela escura, como uma estrela solitária. O Brasil termina a Copa em quarto lugar, atropelado pelo carrossel holandês e pelo corredor polonês. Eu não entendia nada daquilo. Mas meu pai e meu avô estavam ali.
Nenhuma seleção me encantou tanto quanto aquela. Zico, Sócrates, Falcão, Júnior. Quando Paolo Rossi marca o terceiro gol da Itália no Estádio Sarriá, volto a chorar
Viro a página. Agora é 1978. Ganhei um disquinho com o jingle “Go-o-o-o-l Brasil”. A vitrola toca o dia inteiro e meus pais já devem estar ficando loucos. Quando a Argentina faz 6 a 0 no Peru e elimina o Brasil, eu choro pela primeira vez por causa de futebol. Depois, a vitrola fica em silêncio. Talvez tenha sido a primeira vez que descobri que certas músicas também sabem ficar tristes.
Mais uma página. Chego a 1982, ao álbum de figurinhas do chiclete Ping Pong. Nenhuma seleção me encantou tanto quanto aquela. Zico, Sócrates, Falcão, Júnior. Quando Paolo Rossi marca o terceiro gol da Itália no Estádio Sarriá, volto a chorar. Depois do jogo, Vô Briguet senta-se ao meu lado e tenta me consolar. Diz que a vida reserva tristezas muito maiores do que uma derrota na Copa do Mundo. Naquele momento, não acreditei nele. Hoje eu acredito.
México, 1986. No dia do jogo contra a Argélia, fazia frio, coisa rara em Araçatuba. Minha mãe serviu chocolate quente e pipoca para a turma do colégio. Lá fora, o vira-lata Ace se escondia dos rojões debaixo da máquina de lavar. Primeira Copa sem o Vô Briguet.
Itália, 1990. Era a Copa da República do Humaitá. Militante estudantil na UEL, eu explicava a quem quisesse ouvir que futebol era instrumento de alienação das massas e que um título mundial só beneficiaria as classes dominantes. Mesmo assim, fiquei triste quando Caniggia fez aquele gol.
Estados Unidos, 1994. Repórter iniciante, assisti à final contra a Itália numa sala cheia de zeladores da UEL. Na hora dos pênaltis, eles se ajoelharam e deram-se as mãos. Quando Roberto Baggio mandou a bola por cima do travessão, choraram como crianças. (Às vezes eu penso que aquela bola do Baggio está viajando até hoje pelo espaço sideral, como se fosse a sonda Voyager 3.)
França, 1998. Quando vi meu amigo Pafu chegando com um bongô debaixo do braço, tive um mau pressentimento. E não deu outra.
Japão e Coreia, 2002. A cena que não aconteceu vinte anos antes finalmente aconteceu. Meu pai, minha mãe, a Vó Maria e eu pulamos juntos de alegria naquela manhã. Só faltou o Vô Briguet.
Alemanha, 2006. Quando vi Roberto Carlos ajeitando o meião enquanto Henry corria livre para marcar o gol, senti uma melancolia difícil de explicar. Ao final da partida, meu amigo Lilson pegou o violão e tocou uma canção da Mercedes Sosa. Primeira Copa sem a Vó Maria.
África do Sul, 2010. Sinceramente, essa eu nem vi direito. O Pedro tinha acabado de nascer. Primeira Copa sem meu pai.
Brasil, 2014. Achávamos que a tragédia de 1950 e o fiasco de 1998 não poderiam ser superados. Achávamos. Primeira Copa sem minha mãe.
Rússia, 2018. Eu estava em casa com Pedro, a Rô e o Cisco. Enquanto a seleção jogava, o Cisco procurava um esconderijo para escapar dos rojões, repetindo uma tradição canina inaugurada muitos anos antes pelo velho Ace.
Qatar, 2022. A imagem que guardei daquela Copa não foi um gol nem uma defesa. Foi a do técnico Tite deixando os jogadores sozinhos no gramado depois da derrota para a Croácia.
Então chego à página de 2026.
O Estádio Sarriá, palco da tragédia de 1982, foi demolido em 1997. No lugar onde Paolo Rossi marcou seus três gols há hoje um condomínio residencial e um jardim. O tempo faz essas coisas: derruba estádios, apaga endereços, silencia vitrolas, espalha amigos pelo mundo, leva embora pais, mães e avós.
Enquanto isso, na mesma Barcelona, outra construção seguia seu caminho. Quando o Brasil perdeu para a Itália, a Basílica da Sagrada Família, a obra magna de Gaudí, ainda estava longe de ficar pronta. Pedreiros, arquitetos e artesãos continuaram trabalhando nela durante décadas. Muitos morreram sem ver a obra terminada — o próprio Gaudí, que partiu há exatos cem anos, foi um deles. Neste ano de 2026, a basílica finalmente alcançou sua altura máxima e se tornou a igreja mais alta do mundo. Mas ainda não está pronta: lá dentro, o trabalho segue.
Então volto à primeira página — e percebo que nada desapareceu. Meu pai e meu avô continuam sentados diante da televisão que demora a acender. Minha mãe continua servindo chocolate quente para a turma do colégio. O velho Ace continua escondido debaixo da máquina de lavar, agora na companhia do Cisco. A Vó Maria continua pulando de alegria naquela manhã de 2002.
Seria a memória uma espécie de álbum? Seria a família um tipo de catedral? Só sei que o Estádio Sarriá desapareceu — mas a Sagrada Família continua apontando para o Céu.
Créditos Gazeta do Povo
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