No dia a dia da luta pela sobrevivência, o cidadão brasileiro mal tem tempo – e, muitas vezes, nem curiosidade – de saber a quantas anda o nosso país. Informa-se mal, na enxurrada das redes sociais ou pela propaganda oficial de rádio e televisão, e não se dá conta de como o buraco é mais embaixo. A dureza da vida não lhe permite abrir os olhos.
O brasileiro médio sente na pele (e no bolso) como é dura a realidade. Mas precisa saber que a culpa não é sua. O Brasil ocupa hoje a quarta posição entre os países da América do Sul no ranking de IDH da ONU. O índice de desenvolvimento humano é a métrica mundialmente mais usada para medir a qualidade de vida e o desenvolvimento de uma nação, avaliando saúde, educação e renda per capita. E, nessa mensuração, na América do Sul estamos atrás do Chile, da Argentina e do Uruguai. Em termos mundiais, o Brasil está na vergonhosa 84ª colocação, e rolando escada abaixo – em 2002, ocupava a 73ª posição.
Em pouco mais de 20 anos, a situação do brasileiro piorou muito. O Brasil hoje é a 10ª economia mundial. A tão badalada pujança econômica, entretanto, não se reflete na qualidade de vida da população. O país é o 5º mais desigual do mundo, conforme aferido pela ONU por meio do coeficiente de Gini, índice que mede a concentração de renda. O cidadão não sabe, mas estamos à frente apenas de África do Sul, Namíbia, Botsuana e Colômbia. E somos o único país sul-americano incluído entre as 10 nações com maior desigualdade social.
O cidadão comum tem consciência da razão disso? Seguramente, não. O IBGE sabe bem. No período 2025/2026, a fatia de 1% mais rica da população detém nada menos que 37,3% da riqueza nacional. Os 50% dos brasileiros mais pobres ficam com apenas 9,3% da riqueza do país. Traduzindo: 2,1 milhões de pessoas mais ricas têm quatro vezes mais riqueza do que os 107 milhões de brasileiros mais pobres e ignorados pelos governos. Eles também não têm conhecimento de que a má distribuição de renda cresce mesmo após o governo ter feito a reforma tributária, ampliando o escopo e aumentando a alíquota dos atuais impostos, bem como criando novos.
É preciso também que todos saibam: 10 milhões de brasileiros – ou seja, 4,5% da população – continuavam vivendo na extrema pobreza em 2025, com renda de apenas R$ 218,00 por mês, segundo dados do Cadastro Único (CadÚnico). Outros 45 milhões – ou 21% da população – continuam vivendo na pobreza, auferindo renda mensal de apenas R$ 497,00, o que corresponde a um terço do salário-mínimo.
Pouca gente fala, mas 70% dos aposentados e pensionistas do INSS recebem apenas um salário-mínimo (R$ 1.621,00). Eles somam 28 milhões de brasileiros, ou 13% da população. Essa também é a remuneração máxima de 35 milhões de trabalhadores do setor privado com carteira assinada (16% da população).
Uma coisa da qual o povo brasileiro não faz ideia é que o país, este ano, ocupa a 108ª posição no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), elaborado pela Transparência Internacional. Significa dizer que há nada menos do que 107 países com serviço público mais honesto que o nosso
Outra verdade inconveniente: 16,3 milhões de brasileiros viviam, em 2025, em favelas e comunidades, enfrentando condições precaríssimas, tanto em termos de saneamento básico como de segurança, enfrentando riscos de vida diariamente. São 7,3% da população nessa situação.
O governo se orgulha em dizer que o Bolsa Família é o maior programa social do Brasil, contemplando 21 milhões de famílias que recebem benefício médio de R$ 800,00 por mês, sem direito a 13º. No entanto, é preciso revelar que esse enorme contingente, assistido por não possuir nenhuma renda ou trabalho, soma 28% da população e representa 60 milhões de pessoas. E que, em 13 das 27 unidades da Federação, há mais beneficiários do programa do que trabalhadores com carteira assinada. Trata-se de um programa necessário, indispensável, mas que poderia alcançar mais pessoas com valores melhores e com direito à correção plena e obrigatória.
Só quem recebe o Bolsa Família sabe que o último reajuste do programa aconteceu em março de 2023. Desde então, o valor do benefício vem sendo corroído pela inflação elevada e fora do centro da meta, que já soma 16%. O valor médio, hoje de R$ 800,00, deveria ser de R$ 928,00 por mês. A diferença de R$ 128,00 por mês significa menos comida na mesa.
O mesmo governo que prometeu cerveja e picanha e não entregou também prejudicou os trabalhadores ao alterar, por meio da Lei nº 15.077/2024, de 28 de dezembro de 2024, a fórmula de cálculo do reajuste do salário-mínimo. Com a nova lei, o salário-mínimo passou para R$ 1.518,00 em 2025, mas, pela fórmula antiga, teria sido de R$ 1.526,00. Ou seja, o trabalhador deixou de ganhar R$ 8,69 por mês, ou R$ 112,97 no ano, considerando o 13º salário. Em 2026, esse valor será ainda maior: R$ 249,08 que deixarão de entrar no bolso do assalariado. Prometeram cerveja e picanha, não cumpriram e ainda tiraram arroz e feijão da mesa dos trabalhadores.
Outra coisa da qual o povo brasileiro não faz ideia é que o país, este ano, ocupa a 108ª posição no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), elaborado pela Transparência Internacional. Significa dizer que há nada menos do que 107 países com serviço público mais honesto que o nosso. Estamos muito atrás de Uruguai (27º lugar), Estados Unidos (36º) e Chile (37º). Esse índice dá a dimensão da degradação ética, moral e da crise de honestidade em nossa nação, pois, em 2002, a posição do Brasil nesse ranking era o 45º lugar. E, quando o atual governo assumiu, em 2023, estávamos na 94ª posição. Você sabia que a posição do Brasil é igual à da Argélia e do Níger?
O cidadão não se dá conta, portanto, é necessário lembrar que, entre 1999 e 2025, o Brasil realizou nove eleições presenciais e, nesse período, foram eleitos ou reeleitos apenas cinco presidentes da República, e nove tomaram posse, dois em razão dos afastamentos de Fernando Collor e de Dilma Rousseff.
A grande massa não percebe que vem perdendo a liberdade à medida que os governos vão lhe tirando a renda e a sua autonomia financeira, de forma a torná-la absolutamente dependente das bondades, ‘muletas’ e esmolas de quem está no poder
Refrescando a memória, desses cinco presidentes eleitos no período, três foram investigados, condenados e presos por atos de improbidade, corrupção e atentado à democracia. Além disso, um sofreu impeachment e foi afastado do cargo. Somente Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco não sofreram processos de impeachment, não foram alvo de mandados de prisão criminal e não tiveram condenações por corrupção em instâncias superiores.
A corrupção também está impregnada no Legislativo. Em um recorte histórico recente, cinco ex-presidentes da Câmara dos Deputados foram presos: João Paulo Cunha, José Genoíno, Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves e Severino Cavalcanti.
Escândalos não faltam: tivemos o rombo dos Correios, o Mensalão, o Petrolão, o roubo da aposentadoria dos aposentados – que chega a R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões – e, agora, o do Banco Master, estimado em R$ 60 bilhões a R$ 80 bilhões, com milhares de brasileiros lesados e muitos políticos de alto escalão suspeitos de envolvimento. Sobram escândalos e impunidade, falta apuração e punição. A CPMI do INSS foi bloqueada e concluída por decisão judicial, sem que a apuração pudesse ser aprofundada. Já a CPMI do Banco Master ainda não passa de mera especulação.
O brasileiro sabe que a corrupção grassa. É uma das preocupações frequentes em qualquer pesquisa de opinião pública. O que não imagina o cidadão comum é o quanto esse mal representa em termos econômicos. Organismos internacionais e a FGV avaliam que a corrupção nacional consome até 4% do PIB, o correspondente a mais de R$ 500 bilhões por ano, recursos suficientes para dobrar o tamanho do SUS e ainda construir e doar 700 mil unidades habitacionais anualmente. Ou que poderiam ser direcionados à educação, saúde, saneamento básico, segurança e combate às drogas, às facções criminosas e às milícias. Uma situação que não será alterada apenas com promessas, mas exige ações firmes, tais como mudanças legislativas para o país ser menos tolerante com os corruptos, sem o que continuará alimentando a sensação de que o crime compensa e a impunidade estará garantida.
A grande massa não percebe, contudo, que vem perdendo a liberdade à medida que os governos vão lhe tirando a renda e a sua autonomia financeira, de forma a torná-la absolutamente dependente das bondades, “muletas” e esmolas de quem está no poder, em especial em anos de eleição. Cumpre-se, assim, o que filósofos e economistas do passado avisavam, no sentido de que o povo não precisa de verdades, mas de ilusões.
O cenário é claro: o país tem cerca de 100 milhões de pessoas vivendo na pobreza. Logo, o barril de pólvora está menos longe do que parece. Basta ver a violência urbana diária e o domínio das facções criminosas, influenciando cerca de 25% a 30% da população, explorando a vulnerabilidade da pobreza.
Políticos não gostam da verdade porque as massas não têm interesse na verdade; preferem as ilusões, confiando em promessas que só os mentirosos ou mágicos seriam capazes de atender
Está cada dia mais difícil pagar as contas. E isso também acontece com o governo, insistente em gastar mais do que arrecada. É preciso dar ciência à população de que a dívida pública, que em 2002 era de cerca de US$ 280 bilhões – o equivalente a 55% do PIB –, hoje já supera US$ 1,80 trilhão, ou cerca de R$ 10,3 trilhões. Corresponde, agora, a 80% do PIB nacional. Essa situação leva o governo a tomar empréstimos bancários, com o pagamento de juros de aproximadamente R$ 1 trilhão por ano, cinco vezes o valor gasto anualmente com o SUS. Esse montante seria suficiente, por exemplo, para a construção de 2,75 milhões de unidades habitacionais todos os anos. Com juros de 14,5% ao ano, o custo dessa dívida é altíssimo, e a conta é paga pela população porque caem os investimentos em obras e serviços, da ordem de ridículos 1,1% do PIB, impedindo qualquer melhoria da qualidade de vida do cidadão brasileiro.
O brasileiro se sente mais pobre, porém não sabe a verdadeira razão. A resposta está na queda da produção total de nossas riquezas. Era de US$ 13.327 por habitante por ano em 2011 e, ao final de 2025, havia caído para cerca de US$ 10.500 por habitante por ano. Isso porque, sem cortar despesas e gastando muito, o governo impõe ao povo uma carga tributária elevadíssima. Tudo indica, por exemplo, que em breve teremos uma alíquota do imposto sobre o consumo da ordem de 28% a 28,5% do valor do produto ou gênero – a maior ou a segunda maior alíquota do mundo. Mais um aperto no país em que o cidadão já paga em impostos o dobro do que um mexicano ou um chinês, recebendo em troca péssimos serviços públicos.
Para efeito de comparação, a arrecadação de impostos no Brasil corresponde a 34,5% do PIB, muito mais que na Argentina (29%), Estados Unidos (24,5%), Chile (20,8%), China (17,2%) e México (17,1%). Isso, porém, ninguém conta.
O brasileiro precisa ter consciência de que os juros reais praticados no país são imorais e comprometem a saúde financeira da indústria, do setor de serviços, dos profissionais liberais e de todas as pessoas, tudo fruto da irresponsabilidade fiscal do governo. O Brasil pratica taxa de juros reais de 9,56% ao ano, a segunda maior taxa do mundo, ante 4,82% da Rússia, 3,80% do México, 3,50% da Índia, 0,43% a 0,50% dos Estados Unidos e 0,46% a 0,50% da Inglaterra.
O Brasil é também quem mais onera os encargos sociais sobre os salários, prejudicando o nível de emprego e mantendo os salários baixos, tudo para engordar o caixa do governo. Essa taxa é de 42,8%, muito acima da média (34,8%) dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e mais do que o dobro dos Estados Unidos (15,8%). Muito maior também que a do Chile (24,1%).
Diante do quadro de juros exorbitantes e impostos altos, em 2024 e 2025, o Brasil bateu recorde histórico de empresas em recuperação judicial. No ano passado, foram 2.466 empresas nessa situação, alta de 13% em relação a 2024, número muito superior ao dos anos da pandemia e à recessão de 2016. Todos os setores foram atingidos: agro (30,1%), serviços (30,0%), comércio (21,7%) e indústria (18,2%). O agronegócio, responsável por 25% do PIB nacional, deu o sinal mais alarmante. Em 2012, o setor representava apenas 1,3% dos pedidos de recuperação judicial e hoje já supera 30%.
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Há uma verdade oculta nessa situação. Nesses anos sem eleições, o governo retirou dinheiro do bolso dos eleitores, mais precisamente de 40% deles, que perderam poder de compra e, com isso, também perderam, sem perceber, a liberdade de escolha.
Agora, em ano eleitoral, os eleitores mais carentes ficam à mercê de novas promessas, novas propagandas e velhos discursos. Quem está no poder culpa os antecessores e abre a caixa de bondades. Primeiro o governo estimulou o consumo, incentivando o crédito, e hoje, diante de quase 80% das famílias endividadas – inclusive pelo vício em apostas bet, que foi regulamentado, em vez de proibido –, o mesmo governo alardeia um novo programa de quitação de dívidas, lançando mão até do sagrado FGTS, a única poupança compulsória do assalariado, para corrigir o próprio erro, evidente, porém jamais reconhecido.
É uma medida necessária? Sim, mas tal situação poderia ter sido evitada. Hoje, de 27,9% a 30% da renda dos cidadãos está comprometida somente com o pagamento da parcela mensal das dívidas. Dez anos atrás, esse percentual era de 16,60%. No período 2012-2014 chegou a 21%–22%, e atingiu 27% em 2023. Não parou de crescer.
O novo mote para agradar o eleitorado é a defesa da jornada 5×2, mais uma dessas iniciativas que somente aparecem em ano de eleição. É uma realidade que confirma o que há tempos dizem filósofos e outros pensadores de renome: políticos bem-sucedidos, vencedores de eleições, mentem descaradamente, prometendo o possível e o impossível. Esses políticos não gostam da verdade porque as massas não têm interesse na verdade; preferem as ilusões, confiando em promessas que só os mentirosos ou mágicos seriam capazes de atender.
É o que escreveu o economista e filósofo norte-americano Thomas Sowell: “O fato de que muitos políticos de sucesso são mentirosos não é exclusivamente reflexo da classe política, é também um reflexo do eleitorado. Quando as pessoas querem o impossível, somente os mentirosos podem satisfazê-las”.
É necessária uma reflexão sobre a situação do Brasil de hoje, mas sobre o Brasil verdadeiro e não aquele da propaganda oficial. As próximas eleições são um convite para que todos saiam da cômoda posição de omissão e do silêncio conveniente.
Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros Brasil, um país à deriva, “Caminhos para um país sem rumo e Amazônia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial“.
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