O ministro do Supremo Tribunal Federal mais pródigo em declarações fora dos autos, o decano Gilmar Mendes, deu nova entrevista, desta vez ao jornal Folha de S.Paulo, e tentou isolar a corte do escândalo do Banco Master. A crise, segundo ele, “não está na Praça dos Três Poderes, está na Faria Lima”, porque “quem vendeu títulos foram os bancos. Não quero isentar de responsabilidade quem tem, mas me parece que você coloca o tribunal num corredor polonês”. Com duas frases, o ministro conseguiu não só adulterar completamente a natureza do escândalo, mas também se contradizer, ao “isentar de responsabilidade quem tem”.
As fraudes de que Daniel Vorcaro é acusado são, sim, de natureza financeira. O Master vendia CDBs com rentabilidades muito superiores às oferecidas por instituições rivais, e com isso conseguiu captar valores bastante vultosos para um banco daquele porte. Para honrar seus compromissos, precisou assumir riscos ainda maiores e montar uma rede com outros fundos de investimento e empresas de fachada. Enquanto isso, usava o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) como maneira de tranquilizar investidores sobre a possibilidade de algo sair errado. Se isso havia sido desenhado desde o início por Vorcaro, ou se ele só percebeu mais tarde que havia criado algo financeiramente insustentável, é o de menos; o verdadeiro escândalo está na forma como ele tentou se safar da responsabilidade pelo que havia criado.
Não foi na Faria Lima que o dinheiro de Vorcaro circulou à vontade, mas na Praça dos Três Poderes
Vorcaro não economizou na distribuição de dinheiro, favores e regalias à direita, ao centro e à esquerda, no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. A lógica era extremamente simples: comprar apoio, simpatia, acobertamento, silêncio – ou tudo isso ao mesmo tempo. Na pior das hipóteses (para Vorcaro, evidentemente), alguém que houvesse recebido algum mimo, ou participado de alguma festinha, temeria ser arrastado para o precipício junto com Vorcaro caso ele caísse. Na melhor das hipóteses, o banqueiro teria apoio em medidas que lhe beneficiariam, como no caso da emenda frustrada (redigida dentro do Master) que ampliaria o valor coberto pelo FGC em caso de quebra, e permitiria aos CDBs do banco tornarem-se ainda mais atrativos.
E não foi na Faria Lima que esse dinheiro circulou à vontade, mas na Praça dos Três Poderes – inclusive no menor dos prédios da praça, aquele localizado mais ao sul. Negociações estranhas de um resort que pertencia a uma empresa familiar, em cujo quadro de sócios um ministro negou estar até não conseguir mais esconder a verdade; R$ 129 milhões de um contrato muito acima do habitual (mesmo para as melhores bancas do país) com o escritório de advocacia da esposa de outro ministro; mensagens trocadas pouco antes da prisão de Vorcaro; viagens de jatinho; patrocínios a eventos no Brasil e no exterior; extravagantes degustações de uísque – em tudo isso há membros do Supremo envolvidos. E ao menos um deles, Dias Toffoli, tentou impor um sigilo inexplicável às investigações sobre o Master, com direito a uma acareação, suspeita-se, desenhada para desmoralizar o diretor do Banco Central que mais defendeu o veto a uma aquisição que poderia salvar o Master, socializando o prejuízo entre todos os habitantes do Distrito Federal.
Ao jogar tudo no colo da “Faria Lima”, Gilmar Mendes quer reduzir o caso Master a uma enorme fraude financeira, livrando a barra dos colegas de quem Vorcaro esperava que “conseguissem bloquear” alguma coisa. O fato de a situação não estar nada favorável ao banqueiro, pelo menos no momento, não invalida o fato de que seu dinheiro fluiu por toda a elite do poder em Brasília. O procurador-geral Paulo Gonet – que também aproveitou as extravagâncias do dono do Master – pode estar com a visão ainda turvada pelo uísque Macallan, mas a sociedade brasileira não está, e percebe que há ministros do Supremo com muito a explicar – se puderem.
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