Hoje, a invasão russa à Ucrânia completa 1.551 dias – exatamente 4 anos, 3 meses e 1 dia. Isso significa que, no próximo dia 11 de junho, daqui a menos de 3 semanas, a guerra em solo ucraniano ultrapassará, em extensão no tempo, a Primeira Guerra Mundial.
O conflito iniciado pelo presidente russo Vladimir Putin, em 24 de fevereiro de 2022, era para ser breve. Aliás, no seu discurso oficial, nem mesmo guerra era para ser, sendo chamada, insistentemente e contra todos os fatos, eufemisticamente, de “Operação Militar Especial”. Seus objetivos, repetidos insistentemente pela propaganda russa, eram três:
(1) “desmilitarização”, ou seja, eliminação ou limitação drástica da capacidade militar ucraniana;
(2) “desnazificação”, que, no discurso russo, seria a eliminação dos assim chamados “elementos neonazistas” do poder e da sociedade ucraniana; e
(3) imposição de um “status de neutralidade” à Ucrânia, impedindo que o país aderisse à OTAN ou à União Europeia, mantendo-o fora de alianças militares ocidentais.
Após todos esses anos e centenas de milhares de mortes, a Rússia falhou em alcançar quaisquer de seus objetivos.
A Ucrânia não está “desmilitarizada”; pelo contrário. O exército ucraniano se adaptou e aprendeu a lutar contra um inimigo que se apresentava como sendo muito mais poderoso, tornando-se um dos exércitos mais experientes e inovadores do mundo
Hoje, a Ucrânia desenvolveu técnicas, táticas e procedimentos de combate – especialmente relacionados ao emprego dos drones – que estão sendo copiados por exércitos do mundo todo.
O discurso da “desnazificação”, em si mesmo ridículo, por ser uma narrativa sem qualquer amparo na realidade, também falhou. Isso porque incluía a retirada do presidente Volodymyr Zelensky do poder, aquele que seria o líder máximo do tal “regime neonazista”. Bem, como todos sabem, Zelensky, um judeu ucraniano eleito democraticamente, continua a governar legitimamente o seu país.
Em terceiro lugar, Putin também falhou miseravelmente na tentativa de afastar a Ucrânia do Ocidente. As negociações formais para a adesão do país à União Europeia foram abertas em junho de 2024 e, segundo avaliações recentes, Kiev avançou de forma significativa na implementação das mudanças e adaptações legislativas e políticas exigidas pela União Europeia. Em relação à OTAN, embora a adesão do país à Aliança ainda não tenha caminhado formalmente, a Ucrânia participa de exercícios conjuntos, interoperabilidade avançada e programas de treinamento com os aliados.
A frustração integral em alcançar esses três objetivos está acompanhada do insucesso em anexar as quatro províncias ucranianas que foram, em caráter unilateral, anexadas pela Rússia: Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia.
Em 30 de setembro de 2022, Putin anunciou a anexação formal dessas quatro “oblasts” ucranianas, alegando que eram “parte da Rússia para sempre”. Atualmente, pode-se dizer que apenas Luhansk está controlada por forças russas. Em Donetsk, a Rússia controla cerca de 75% do território, faltando uma parte significativa que inclui uma porção de terreno elevado muito importante do ponto de vista estratégico: as áreas da “Fortaleza” ucraniana de Kramatorsk, Sloviansk e Pokrovsk.
O mesmo ocorre em Kherson e Zaporizhzhia, onde ainda falta muito território a ser conquistado pelo exército russo. Isso significa que, se a guerra acabasse hoje, as escolas russas teriam que ensinar que o país não possui o efetivo controle sobre parte do seu território, já que o mapa oficial da Rússia incorpora essas quatro províncias. Logicamente, essa é uma situação inadmissível para Putin.
É aqui que as coisas começam a se tornar bastante perigosas. Os últimos meses têm sido especialmente difíceis para a Rússia no campo de batalha. Pela primeira vez, desde a contraofensiva ucraniana de 2023, a Rússia perdeu mais território na Ucrânia do que ganhou, ou seja, os ucranianos estão recuperando terreno. A um ritmo muito lento, é verdade, mas isso indica que, depois de tanto tempo de guerra, a Rússia está ficando mais distante, e não mais próxima, de seus objetivos territoriais.
Além disso, os drones ucranianos têm sido capazes de infligir danos significativos às infraestruturas energéticas russas, alcançando alvos a grandes profundidades no interior da Rússia, inclusive em Moscou. Atribui-se a isso o esvaziamento do desfile comemorativo do Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial, no último dia 9 de maio, na capital russa. Neste ano, a celebração, sempre feita com grandiosidade, foi bastante menor e ocorreu em meio a um cessar-fogo intermediado pelo presidente Trump.
Um presidente Putin frustrado e temeroso de ser lembrado no futuro como o líder que levou a Rússia a ser humilhada no campo de batalha pode ser muito perigoso. Já se observa, nos últimos dias, uma intensificação na violência dos ataques com drones e mísseis às principais cidades ucranianas.
Além disso, é importante lembrar que a Rússia é detentora do maior arsenal nuclear do mundo. Na semana passada, russos e bielorrussos fizeram, em conjunto, um dos maiores exercícios nucleares desde o fim da Guerra Fria, empregando, segundo o Ministério da Defesa da Rússia, 64 mil soldados, mais de 200 lançadores de mísseis, mais de 140 aeronaves, 73 navios de guerra de superfície e 13 submarinos, incluindo oito armados com mísseis balísticos intercontinentais com ogivas nucleares.
Destaque-se que, em 2024, os russos alteraram sua Doutrina Nuclear, que passou a prever que qualquer ataque convencional de uma nação contra a Rússia, apoiado por uma potência nuclear, seria considerado um ataque conjunto contra o seu país e, portanto, sujeito a uma resposta nuclear.
O conflito na Ucrânia vive um momento muito perigoso. Diante de um Putin acuado, o mundo não pode se dar ao luxo de desviar o olhar. O momento exige atenção redobrada da comunidade internacional.
Créditos Gazeta do Povo
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