Em abril, a prévia da inflação brasileira superou as expectativas de analistas e fechou em 0,89%, puxada pelo preço dos alimentos e dos transportes. O indicador, que acumulou alta de 4,37%% em 12 meses, reflete algumas das consequências práticas da política comercial e externa adotada pelo presidente norte-americano, Donald Trump.
Embora venha afetando fortemente o setor produtivo brasileiro, a estratégia protecionista adotada pelos Estados Unidos não representa uma ofensiva direta ao Brasil, apenas visa os próprios interesses do país, como explica Daniel Vargas, professor de Direito e Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Em paralelo, segundo Vargas, os efeitos da atuação da Casa Branca ajudam a revelar como o contexto macroeconômico, a infraestrutura deficiente e os juros altos tornam o Brasil altamente vulnerável a crises externas.
“Industrialização interna agressiva” de Trump afetou diretamente o Brasil
No ano passado, sob a justificativa de impor reciprocidade comercial, Washington determinou a aplicação de uma tarifa adicional de 10% sobre todos os produtos importados do Brasil a partir de abril, além de estabelecer barreiras de 25% a 50% contra setores estratégicos, como aço, alumínio e autopeças.
Em julho, a aplicação de uma sobretaxa adicional de 40% sobre a maior parte das exportações brasileiras acendeu o alerta máximo da indústria e do agronegócio do país.
O impacto do chamado “tarifaço” atingiu diretamente os principais itens exportados pelo Brasil, uma vez que os Estados Unidos são o principal destino dos bens de maior valor agregado produzidos no país.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calculou que a taxação afetaria diretamente 77,8% do total exportado ao mercado norte-americano. Em novembro, no entanto, as tarifas foram reduzidas para alguns importantes setores, como café e carne bovina.
Para o pesquisador da FGV, o movimento do líder republicano marca uma ruptura definitiva com o livre comércio tradicional. Ele destaca que a atual estratégia da Casa Branca inverte a lógica globalista de buscar o custo de produção mais barato no exterior, em favor de uma industrialização interna agressiva.
“Trump radicalizou a ideia de que a indústria boa é aquela em que os setores estratégicos estejam perto de casa, sob seu domínio. Ele foi além do near shoring – ele propôs o national shoring: não basta a produção estar no meu vizinho, tem que estar dentro do meu país”, explica.
O Brasil, por sua vez, ficou vulnerável a esse novo modelo em razão de problemas internos como a insegurança jurídica e a estagnação do ambiente de negócios. Sem acordos comerciais multilaterais robustos e operando em um modelo que dá preferência à produção de commodities, um dos efeitos é o aprofundamento da desindustrialização.
Com a elevação das tarifas, as empresas brasileiras perdem competitividade e, pressionadas por altos custos e pela carga tributária, acabam reduzindo a produção.
Na visão de Vargas, Trump questiona o livre comércio purista por vê-lo como uma forma de manipulação que prejudica a indústria americana, especialmente em relação à China.
“O livre comércio é bom se for para valer, mas o que temos hoje é uma manipulação do mercado por países que utilizam o argumento desenvolvimentista para beneficiar sua indústria”, aponta.
Conflito com Irã gerou inflação e aumento de juros no Brasil
Enquanto as indústrias perdem terreno no contexto internacional, o consumidor brasileiro sente reflexos da política de Trump na escalada dos preços de combustíveis. As intervenções militares ordenadas pelo governo norte-americano no Oriente Médio e na Venezuela estrangularam o fornecimento e encareceram drasticamente a principal matriz energética global.
Com a restrição no Estreito de Ormuz impulsionada pelo conflito com o Irã, as cotações do petróleo tipo Brent dispararam quase 60% no comparativo anual, contaminando a estrutura de preços do país.
A forte dependência do transporte rodoviário faz com que o encarecimento dos combustíveis se traduza em inflação nos preços ao consumidor. Trata-se de um efeito direto da falta de investimentos em infraestrutura e da baixa participação de modais como o ferroviário e a cabotagem, que protegeriam a cadeia de abastecimento interno contra os abalos externos.
Com a inflação mais alta, o efeito seguinte é o aumento das taxas de juros no país. O relatório Focus, divulgado pelo Banco Central (BC), indica um salto na mediana das projeções do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para 4,89% em 2026, acima da meta, o que reforça a expectativa de Selic acima de 13% ao fim do ano. O resultado é a desaceleração da economia, com maior aversão ao risco e saída de capitais.
A migração de investidores para mercados considerados mais seguros desvaloriza o real e pressiona ainda mais a dinâmica doméstica. Com o crédito escasso e inacessível para o fomento empresarial, a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) permanece travada na margem de 1,85% para o ano, o que demonstra a armadilha do baixo crescimento atrelado à inflação persistente.
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Incertezas que afetam economia não são exclusividade de Trump, diz pesquisador
Embora esse cenário negativo para economia brasileira seja consequência direta da política externa do governo Trump, Daniel Vargas, da FGV, pondera que não se trata de um movimento inédito dos Estados Unidos.
Ele lembra que historicamente governos democratas foram responsáveis por diversas intervenções militares que geraram instabilidade econômica global sob discursos pacifistas.
Para o professor, o presidente norte-americano “desnuda” o Brasil, revelando que o país não tem um projeto de desenvolvimento claro para navegar em períodos de incertezas.
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Agro ganha com guerra comercial de Trump, mas cria dependência de chineses
Enquanto a indústria perde espaço e o crédito fica mais restrito, o agronegócio se beneficia das mudanças no cenário global. Produtores brasileiros acabaram beneficiados com a guerra comercial entre Estados Unidos e China, a partir do momento em que o país asiático direcionou grande parte de sua demanda para o Brasil.
Apenas no primeiro trimestre deste ano, houve um aumento de 21,7% nas exportações brasileiras para o país asiático. O redirecionamento das rotas marítimas abriu um mercado altamente lucrativo para a soja brasileira.
Apesar do ganho comercial de curto prazo, no entanto, o país também se coloca em risco ao concentrar suas exportações para um único destino. “Os chineses compram muito produto brasileiro, e isso é bom, mas eles investem relativamente pouco no Brasil comparado ao acumulado histórico dos EUA e Europa”, ressalta o professor da FGV.
“A subserviência ideológica Sul-Sul acaba criando uma espécie de cegueira ou inabilidade para garantir que essa relação gere sofisticação da nossa própria economia”, acrescenta. “E a gente não quer que nenhum país tenha a chave do cofre da economia nacional.”
A imposição de uma taxa de até 55% sobre a carne brasileira que exceder uma cota anual e as restrições à exportação de fertilizantes por parte da China mostram como a forte dependência de um parceiro fragilizam o Brasil.
Para Vargas, a política agressiva da atual gestão americana não é a única responsável pelas instabilidades econômicas brasileiras, mas atua como um teste de estresse das ineficiências do país.
Ele considera que a atuação de Trump também tem contribuído para desnudar as contradições da esquerda brasileira, “antes soberanista e crítica do livre comércio”. “Hoje, ela se tornou uma grande defensora de organismos multilaterais que não cumprem seu papel”, conclui.
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