O Brasil sempre cultivou uma diplomacia respeitada. Desde o Império, o país construiu uma política externa marcada por prudência, negociação e equilíbrio. Foi assim com José Bonifácio na busca pelo reconhecimento internacional após a independência. Foi assim com o Barão do Rio Branco, que resolveu praticamente todas as disputas territoriais brasileiras sem guerras. E foi assim ao longo de dois séculos de Itamaraty profissional: autonomia, multilateralismo e distância de conflitos ideológicos. Essa tradição está hoje sob risco.
Para entender o tamanho da mudança, é preciso voltar a 1979. Naquele ano ocorreu a Revolução Islâmica no Irã. O regime do xá Reza Pahlavi, aliado dos Estados Unidos, caiu após uma revolta popular que uniu grupos religiosos e setores da esquerda revolucionária. O líder religioso Ruhollah Khomeini assumiu o poder e transformou o país numa teocracia xiita governada por aiatolás. A partir daí, o Irã passou a definir sua política externa com base em um eixo central: hostilidade declarada ao Ocidente, especialmente aos Estados Unidos e a Israel.
Curiosamente, desde o início essa revolução contou com apoio de setores da esquerda mundial. Comunistas do Partido Tudeh e guerrilhas marxistas ajudaram a mobilizar as ruas contra o xá, acreditando que o novo regime seria um aliado na luta contra o “imperialismo americano”. Depois de consolidar o poder, Khomeini eliminou esses mesmos aliados e reprimiu violentamente a esquerda iraniana. Mesmo assim, a retórica antiocidental do regime manteve uma curiosa sinergia com parte da esquerda internacional.
Essa aproximação se consolidou ao longo das décadas seguintes. Para muitos movimentos progressistas no Ocidente, o Irã passou a ser visto como um ator “anti-hegemônico”, capaz de desafiar a influência americana no Oriente Médio. O fato de o regime ser teocrático, reprimir mulheres, perseguir minorias e executar opositores foi frequentemente relativizado em nome de uma narrativa maior: a luta contra o imperialismo ocidental.
O país precisa recuperar a diplomacia profissional que sempre o distinguiu: baseada em interesses nacionais, não em afinidades ideológicas. O Brasil é grande demais para se tornar satélite de qualquer bloco geopolítico
Essa lógica também explica a relação crescente entre governos de esquerda latino-americanos e Teerã. Países como Venezuela, Bolívia e Nicarágua firmaram acordos econômicos e políticos com o regime iraniano. O padrão é semelhante: sanções internacionais isolam o Irã, que busca parceiros dispostos a ignorar essas restrições. Em troca, esses governos recebem comércio, cooperação e apoio diplomático.
No Brasil, essa aproximação tem raízes antigas dentro do próprio Partido dos Trabalhadores. Documentos do período do regime militar indicam que, nos anos 1980, autoridades brasileiras investigaram contatos de dirigentes petistas com representantes do regime iraniano recém-instalado. Relatórios do SNI apontavam a existência de um núcleo dentro do partido interessado em apoio financeiro e estratégias de mobilização inspiradas na revolução islâmica.
Quando Lula chegou ao poder, essa relação ganhou dimensão oficial. Em 2009, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad visitou o Brasil, numa viagem cercada de polêmicas internacionais. No ano seguinte, Lula foi a Teerã para intermediar, ao lado da Turquia, um acordo sobre o programa nuclear iraniano. O chamado “Acordo de Teerã” previa a transferência de urânio iraniano para território turco em troca de combustível nuclear para uso médico. A iniciativa foi rejeitada pelos Estados Unidos e por potências europeias, que consideraram o acordo insuficiente para conter o avanço nuclear do regime.
A aproximação não terminou ali. Em 2023, já no terceiro mandato, o governo federal autorizou a atracação de dois navios de guerra iranianos no Porto do Rio de Janeiro, mesmo após pressão diplomática dos Estados Unidos para cancelar a visita. O gesto foi interpretado por analistas internacionais como sinal de alinhamento político com Teerã em meio a tensões globais.
O passo mais simbólico, porém, ocorreu no âmbito dos Brics. Sob impulso direto do governo Lula, o Irã foi convidado a integrar o bloco durante a cúpula de Joanesburgo em 2023, com entrada efetiva em 2024. A decisão ampliou o grupo para dez membros e aproximou ainda mais o bloco de regimes claramente hostis ao Ocidente, como Rússia e China. Analistas apontam que a inclusão foi motivada mais por afinidade ideológica do que por critérios econômicos ou estratégicos.
A nova orientação ficou ainda mais clara em 2025, quando o Brasil presidiu o encontro do Brics no Rio de Janeiro. Na ocasião, a declaração final do bloco condenou ataques ao Irã sem mencionar explicitamente os responsáveis. O próprio Lula afirmou que “ninguém vai pedir para o Irã mudar de posição sobre Gaza”, relativizando o fato de que o regime iraniano defende abertamente a destruição de Israel.
Isso sem falar na situação mais recente e ostensiva. Após os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro de 2026, o governo federal condenou a operação e falou em violação da soberania iraniana, defendendo solução diplomática para a crise. A posição foi agradecida publicamente pelo embaixador do Irã no Brasil.
Para Estados Unidos e Israel, qualquer alinhamento com Teerã é visto como risco geopolítico direto. O Irã é considerado um dos principais patrocinadores de grupos armados no Oriente Médio, como Hezbollah e Hamas, além de manter um programa nuclear que há anos preocupa as potências ocidentais. Não por acaso, Washington mantém sanções severas contra o regime e pressiona aliados a evitar cooperação estratégica com Teerã.
É nesse contexto que a mudança da diplomacia brasileira se torna preocupante. Ao abandonar a tradição de neutralidade pragmática do Itamaraty e assumir uma postura ideologicamente alinhada ao eixo antiocidental, o Brasil corre o risco de comprometer sua credibilidade internacional. Mais grave ainda: pode acabar associado a regimes autoritários que violam sistematicamente direitos humanos.
Durante dois séculos, a política externa brasileira foi reconhecida pela capacidade de dialogar com todos sem se submeter a nenhum. Esse equilíbrio permitiu ao país mediar conflitos, ampliar comércio e manter prestígio global. Transformar essa tradição em instrumento de militância ideológica não fortalece o Brasil. Apenas o coloca no lado errado da história.
Ainda há tempo para corrigir a rota. O país precisa recuperar a diplomacia profissional que sempre o distinguiu: baseada em interesses nacionais, não em afinidades ideológicas. O Brasil é grande demais para se tornar satélite de qualquer bloco geopolítico. E sua tradição diplomática é valiosa demais para ser desperdiçada em aventuras ideológicas.
Zizi Martins é advogada pública, comentarista política, estudante de jornalismo, com mestrado em Direito, doutorado em Educação e pós-doutorado em Política, Comportamento e Mídia.
Créditos Gazeta do Povo
*conteúdo reproduzido para propagação da informação. Todos os direitos de imagem, conteúdo, texto e pesquisa são pertencentes a Gazeta do Povo. Caso queria que seja encerrado a publicação, envie email para jornalismo@novafm96.com.br para retirar do ar.



















