No último 1º de abril, Lula foi a Fortaleza inaugurar o ITA Ceará e celebrar os dois anos do programa Pé-de-Meia. Diante de estudantes, ministros e autoridades, o petista resumiu o encontro como uma aposta na educação e disse que o governo tenta “recuperar o tempo perdido” no país. Ao fim, afirmou que a área virou “prioridade zero”.
A fala do presidente do Brasil no Ceará foi a centésima desde 7 de novembro de 2025, quando, na COP30, Lula defendeu em pronunciamento a transição energética, disse que o mundo precisa acelerar as “fontes limpas” e apresentou o Brasil como “liderança” nesse campo.
A Gazeta do Povo analisou esses 100 discursos de Lula. Ao todo, foram 243.598 palavras ditas pelo presidente. Em um ritmo normal, esse montante equivale a quase 27 horas de fala contínua. Um tempo suficiente para enxergar o que Lula mais repete, valoriza e, oportunamente, prefere esconder quando está ao microfone.
Lula aparece como um presidente que fala para o cotidiano. Seu vocabulário gira em torno de casa, comida, salário, emprego, educação, pobreza e mulheres. Ao mesmo tempo, ele evita levar ao centro dos discursos temas envolvendo corrupção, incluindo os escândalos do INSS e do Banco Master.
Os assuntos dos quais Lula prefere fugir
No ranking do material, “Master” aparece só três vezes e “Vorcaro”, nenhuma. O termo “STF”, três. “Alexandre de Moraes”, duas. “Bolsonaro”, dez. “8 de janeiro”, doze. Um retrato claro dos temas de que Lula prefere fugir quando está sobre o palanque. Para efeitos de comparação, “Corinthians” teve 25 menções.
Essas ausências não são casuais. O presidente evita transformar em tema aquilo que pode lhe cobrar explicação ou gerar desgaste.
O caso Banco Master, que estourou em novembro, é o exemplo mais claro. Fora dos discursos, o escândalo cresceu, atingiu o sistema financeiro, chegou ao STF e manteve Daniel Vorcaro no centro da crise.
Em março, a Segunda Turma do Supremo analisou a prisão do banqueiro. Em abril, a PF prendeu o ex-presidente do BRB em mais uma fase da investigação ligada ao grupo.
Mesmo assim, no arquivo dos 100 discursos, o Master quase não existe como assunto. Quando aparece, surge como símbolo de uma elite corrupta e não como um caso concreto a ser enfrentado pelo presidente.
“Não é possível que a gente continue vendo o povo ser sacrificado, enquanto tem um cidadão, sabe, do Banco Master, que deu um golpe de mais de 40 bilhões de reais, mais de 40 bilhões de reais e quem vai pagar?”, declarou Lula.
INSS quase não respinga na fala presidencial
A mesma lógica vale para o INSS. A fraude dos descontos irregulares atingiu aposentados e pensionistas, justamente o tipo de público que Lula costuma colocar no centro da própria narrativa. Ainda assim, o tema não estrutura seus pronunciamentos.
A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União apontaram que entidades investigadas descontaram, sem autorização, valor estimado em R$ 6,3 bilhões de benefícios entre 2019 e 2024. Mais de 97% dos beneficiários ouvidos pela CGU disseram não ter autorizado os descontos.
É um escândalo socialmente explosivo. Nos discursos de Lula, porém, ele quase não entra. Nas 100 oportunidades em que se manifestou em eventos, inaugurações, encontros e solenidades, Lula tratou diretamente da fraude somente duas vezes.
“Em Pernambuco, (…) já foram devolvidos 114 milhões de reais para 165 mil pessoas. Porém, eu não me contento porque eu só vou ficar contente no dia que os sacanas que fizeram isso estiverem na cadeia pagando o preço de roubar o dinheiro de aposentado”, comentou Lula, em solenidade no estado em que nasceu.
Bolsonaro só como comparação
Nos 100 discursos analisados, o termo “Bolsonaro” aparece só 10 vezes. Para um adversário como o ex-presidente, uma disputa que dominou o debate político dos últimos anos, é pouco.
Lula evita transformar Jair Bolsonaro no centro permanente da própria fala e prefere ocupar o microfone com temas sociais e morais. Com isso, tenta manter a estatura institucional e escapar da armadilha de falar mais do oponente do que de si mesmo.
A cautela tem lógica eleitoral. O calendário de 2026 já está em curso e Flávio Bolsonaro aparece hoje como o nome mais forte do bolsonarismo nas pesquisas recentes. Lula fala pouco do pai, mas já tem no horizonte o filho como provável adversário nas urnas. O presidente só menciona Jair quando quer contrastar os dois governos.
“Eu quero saber o que eles fizeram. Eu quero pegar Temer [Michel, ex-presidente da República] e Bolsonaro, e comparar com três anos nossos. Quero pegar sete anos deles e comparar com três anos”, exaltou Lula.
Trump virou tema
Entre os nomes estrangeiros, Trump é um dos que mais aparecem na fala de Lula: 79 menções no recorte. Mas o presidente dos EUA não surge como parceiro ou referência. Nos discursos, entra sobretudo como fonte de tensão externa, ligado à guerra com o Irã, ao risco de alta do diesel e às tarifas dos americanos sobre os produtos brasileiros.
Lula revelou preocupação com as ameaças de Trump à América Latina e chamou de “anômala” a taxação anunciada “por Twitter”. Ao mesmo tempo, insistiu em estabelecer um diálogo direto, falou na relação histórica entre Brasil e EUA e disse ter mantido cooperação com Washington contra o crime organizado.
“O dólar fica oscilando porque depende do humor do Trump [Donald, presidente dos Estados Unidos]. Não depende de nós. Não depende da seriedade da nossa economia”, comentou Lula, em uma de suas aparições públicas no período.
Discursos genéricos
Há outro aspecto importante. Lula fala bastante em “verdade” (220 vezes) e “democracia” (113), mas pouco em nomes e episódios espinhosos. Isso vale para adversários, ministros do Supremo e crises recentes.
A escolha é conveniente. Ao falar de democracia, Lula ocupa um terreno institucional nobre. Ao reduzir a presença de Bolsonaro, Moraes e 8 de janeiro no corpo dos discursos, evita alimentar temas que já vivem por conta própria no debate público.
“A minha democracia é assim, disputa quem quer, ganha quem pode e festeja quem ganhar as eleições. É isso. Nada de chororô”, declarou o petista.
Palavras-chave
Se o presidente foge do que o aperta, também deixa claro onde quer ser reconhecido. E o primeiro eixo é “casa”. A palavra lidera o levantamento porque, Lula usa a moradia como símbolo de dignidade, estabilidade familiar e ascensão de vida.
Logo atrás de “casa” aparecem dinheiro, pobre, trabalhador, fome, salário, emprego e renda. É o miolo do lulismo ao microfone. Lula traduz a política em comida, aluguel, conta paga, mercado, combustível e poder de compra. Seu discurso tenta convencer o eleitor de que governar bem é aliviar o peso da vida comum.
Educação é outro tema simbólico para o governo petista. Lula fala de universidade, institutos federais, ProUni, cotas e Pé-de-Meia e trata os programas como uma reparação. Nos discursos, a educação aparece como chave para tirar o país do atraso e abrir espaço aos filhos dos pobres.
“Eu tenho muito orgulho porque eu sou o único presidente da República deste país que não tem um curso universitário. E quando eu digo para as pessoas que eu me interesso pela educação é porque eu tenho uma obsessão de tentar garantir aos outros aquilo que eu não tive”, discursou o presidente, no período.
Mulheres viram ativo moral para Lula
Outro tema recorrente é o das mulheres. No material, Lula fala de feminicídio, violência doméstica, independência financeira e respeito. O enquadramento é quase sempre voltado para mostrar que a mulher com profissão, renda e autonomia tem mais chance de escapar da dependência e da agressão.
A insistência no tema tem explicação. Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio em 2025, alta de 4,7% sobre 2024. Lula se apoia nesse drama para reforçar a imagem de Estado protetor e, ao mesmo tempo, ocupar um terreno moral difícil de ser contestado.
“Então vamos gastar nossas energias para acabar com a fome no mundo. Vamos gastar nossas energias para acabar com a violência contra as mulheres que crescem em todos os países, cada dia mais”, disse Lula, em um dos 100 discursos analisados.
As mulheres também são maioria no país e nas urnas. Segundo o Censo 2022, elas representam 51,5% da população brasileira. No eleitorado de 2024, somavam 52,47% dos votantes e eram maioria em seis de cada dez municípios.
Esse peso também aparece na vida concreta do país. Em 2022, 49,1% dos domicílios brasileiros já tinham uma mulher como responsável.
Veja a frequência de algumas palavras em discursos de Lula
Casa (529)
Companheiro (380)
Dinheiro (321)
Companheira (136)
Pobre (272)
Mulheres (227)
Trabalhador (214)
Fome (181)
Salário (166)
Emprego (120)
Democracia (113)
Renda (111)
Clima (93)
Imposto (93)
Alckmin (88)
Trump (79)
Dilma (53)
Futebol (40)
Pobreza (39)
Janja (38)
Soberania (32)
Corinthians (25)
Desigualdade (24)
Cuba (16)
8 de janeiro (12)
Bolsonaro (10)
Moradia (9)
Ditadura (3)
STF (3)
Alexandre de Moraes (2)
Créditos Gazeta do Povo
*conteúdo reproduzido para propagação da informação. Todos os direitos de imagem, conteúdo, texto e pesquisa são pertencentes a Gazeta do Povo. Caso queria que seja encerrado a publicação, envie email para jornalismo@novafm96.com.br para retirar do ar.



















