O Ocidente costuma discutir a China como se ela fosse apenas um PIB com bandeira, um exército com aplicativo e um líder com culto à personalidade. Por trás da máquina existe um cérebro teórico que quase nunca vira personagem. Wang Huning observou os Estados Unidos no fim dos anos 1980, formulou um diagnóstico severo sobre fragilidades internas do modelo ocidental e viu essa leitura virar linguagem de governo em Pequim.
Wang Huning ocupa a quarta cadeira do Comitê Permanente do Politburo, o núcleo duro do poder chinês. Recebeu o apelido de professor do imperador, o conselheiro que influencia sem aparecer e organiza o pensamento do regime sem precisar disputar voto.
A China contemporânea ganha outra forma quando se entende a importância desse tipo de formulador. O projeto se sustenta em ideias longas, traduzidas em doutrina, adaptadas por décadas, com consistência suficiente para atravessar líderes.
No fim dos anos 1980, Wang passou meses nos Estados Unidos. Circulou por centros financeiros, universidades, bairros comuns e áreas de miséria. A experiência se condensou no livro América contra América, publicado em 1991.
A China executa um projeto de soberania cultural e tecnológica em que a técnica serve ao Estado e o Partido se define como instrumento de renovação civilizacional. A Rússia tenta algo parecido, com mais fervor simbólico e menos engenharia institucional
O livro se destaca pela precisão. Ele descreve um individualismo que, aos seus olhos, produz atomização social. Família enfraquecida, vínculos comunitários substituídos por consumo, solidão tratada com química e uma sociedade tecnológica em que a técnica se torna ambiente moral. A prosperidade material aparece como vitrine; o custo humano aparece como bastidor.
Esse diagnóstico ganhou valor estratégico dentro do Partido Comunista da China. A leitura ajudou a sustentar a ideia de erosão interna do modelo americano, com consequências políticas previsíveis. O efeito simbólico também conta. Um retrato incisivo das fissuras do Ocidente passou a circular em Pequim com o peso de quem viu de perto e escreveu cedo.
A Rússia oferece um paralelo útil. Aleksandr Dugin ocupa, para o putinismo, o lugar de mentor ideológico e catequista civilizacional. Ele fornece ao Kremlin uma gramática para enquadrar a ruptura com o universalismo liberal, apresentar a política externa como missão histórica e vender coesão interna como destino. Em torno de Putin, Dugin funciona como fornecedor de vocabulário, símbolos e categorias, o conjunto de ideias que dá forma ao imaginário do regime e ao modo como o poder se explica a si mesmo.
Wang e Dugin compartilham uma sensibilidade parecida. Eles enxergam no individualismo sem lastro, no hedonismo dominante e na dissolução de vínculos comunitários sinais de enfraquecimento civilizacional. Defendem respostas centradas em identidade, coesão e soberania cultural. A diferença aparece no método. Dugin trabalha no registro profético, imagético, messiânico. Sua linguagem convoca destino, choque e conversão. Wang trabalha no registro técnico, institucional, cirúrgico. Sua linguagem organiza incentivos, disciplina, estabilidade e controle de riscos culturais.
Essa distinção se reflete na posição de cada um. Dugin opera como referência formadora de imaginário no entorno do poder russo, com presença que varia conforme a necessidade política. Wang se tornou estrutura. Ele fornece coerência ideológica para a máquina do Partido, atravessando lideranças e fases.
Sob Jiang Zemin, Wang formulou as Três Representatividades, abrindo espaço para incorporar empresários e elites econômicas ao Partido. Sob Hu Jintao, ajudou a moldar a Sociedade Harmoniosa e a Perspectiva Científica de Desenvolvimento, deslocando o foco do crescimento bruto para estabilidade. Sob Xi Jinping, contribuiu para consolidar o Sonho Chinês e o Pensamento Xi Jinping, reforçando a legitimidade simbólica do projeto e o culto institucional ao líder.
A guinada de 2021 contra big techs, aulas particulares, cultura pop e videogames se encaixa nesse quadro. Wang interpreta a mercantilização total como risco de captura do Estado por interesses privados. A resposta da China busca subordinar o capital ao Partido e proteger a coesão social. Prosperidade Comum funciona como instrumento de domesticação de oligarquias e de reorientação de prioridades nacionais.
As restrições a videogames para menores, o controle de bolhas informacionais e a disciplina estética e moral imposta pelo regime da China seguem a mesma lógica. A decadência ocidental aparece, nesse pensamento, como risco de contágio cultural. O combate assume a forma de política pública, com metas, fiscalização e punição.
Taiwan entra como o ponto de maior tensão. A estratégia descrita por analistas como anaconda opera por etapas: pressão constante, normalização do cerco, erosão estratégica, ações psicológicas voltadas a minar confiança em apoio externo e produzir cansaço social. A vitória desejada vem pela exaustão organizada, com cronograma e acumulação de fatos.
Por trás disso está a convicção central de Wang, a ideia de ascensão oriental e declínio ocidental. Ele sustenta que democracias liberais tendem a operar em ciclos curtos e sob fraturas culturais que corroem a capacidade de decisão contínua. Essa leitura alimenta a autoconfiança do modelo chinês e justifica a construção de uma fortaleza tecnocrática.
A China executa um projeto de soberania cultural e tecnológica em que a técnica serve ao Estado e o Partido se define como instrumento de renovação civilizacional. A Rússia tenta algo parecido, com mais fervor simbólico e menos engenharia institucional. Pequim trabalha com desenho, rotina e continuidade.
O resultado prático é direto. Um professor virou infraestrutura. Quando a teoria entra no coração do Estado, ela deixa de ser comentário e vira roteiro. Wang Huning segue nesse papel, discreto e indispensável, escrevendo por dentro do poder.
Marcos Paulo Candeloro é graduado em História (USP), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR).
Créditos Gazeta do Povo
*conteúdo reproduzido para propagação da informação. Todos os direitos de imagem, conteúdo, texto e pesquisa são pertencentes a Gazeta do Povo. Caso queria que seja encerrado a publicação, envie email para jornalismo@novafm96.com.br para retirar do ar.



















