A festa do grande patriarca São José, segundo o calendário litúrgico da Igreja Católica, nos pede uma pausa. Uma pausa, de certo modo, na própria Quaresma, para aqueles já atentos a esse mesmo calendário, visto que, em dia de festa, não se faz jejum nem penitência, e o roxo dá lugar à luz. Uma pausa também em nossas conversas e assuntos e, do mesmo modo, nos temas previstos para certas colunas de jornal (no caso, esta). Pede-nos uma pausa, enfim, a todos nós, para que lhe demos atenção, para que consideremos a peculiaridade de sua vida e o exemplo que ela nos oferece. E com “todos nós” quero dizer mesmo os que não são católicos: os que não têm fé ou que não tenham nem mesmo qualquer interesse pela religião e por Deus, porque São José foi, antes e sobretudo, um homem, e, como disse o sábio cômico romano Terêncio, nada do que é humano nos é estranho, e nada do que é humano nos deve desinteressar. Mesmo os cristãos de outras denominações não católicas não precisariam sentir nenhuma estranheza no fato de se parar um instante para admirar a fé de José, assim como admiramos a de tantos outros personagens bíblicos. Pois, ademais, vale muito reconhecer, neste patriarca, o cumprimento das promessas bíblicas feitas a outros patriarcas antes dele. Enfim, uma pausa, e atenção, por favor, ao pai nutrício, legal, adotivo, não natural, mas nem por isso menos verdadeiro, pai do Senhor.
Isto aliás porque, nos primeiros séculos da Igreja, a figura de São José não recebeu muito relevo, e a devoção a ele não era tão difundida. Ao contrário de sua esposa, a Virgem Maria – cuja imagem já é encontrada para veneração desde as mais remotas catacumbas do primeiro século, com orações antiquíssimas feitas pelos primeiros cristãos, como a Sub tuum praesidium, do século 3.º –, José passou em silêncio nos inícios do cristianismo, assim como passou em silêncio no texto do Evangelho. Eis um grande sinal, misterioso, de sua humildade e de sua abnegação extrema. É verdade que isso se deve à existência de muitos escritos apócrifos, que, por assim dizer, bagunçaram a compreensão exata de seu perfil. Fato é que, para melhor compreender a vida de Jesus – o único modelo e o exemplo dos exemplos para os católicos e todos os cristãos, e para todos os demais homens de boa-vontade que d’Ele queiram se aproximar – na Terra é preciso voltar os olhos para a família na qual quis nascer, e que o protegeu e criou. É preciso voltar os olhos para José. Meditemos juntos a respeito.
Antes do advento de Jesus, nenhum texto, hebreu ou pagão, menciona a cidade de Nazaré; e, curiosamente, José é o primeiro e o único nazareno a emergir no horizonte da história. Ainda assim, sua figura permanece envolta em silêncio. Os Evangelhos de Marcos e de João não fazem referência ao seu trabalho; Lucas o apresenta sempre em função de Maria e de Jesus; apenas Mateus lhe concede um lugar mais direto, sobretudo para situar o Cristo na linhagem e na história do povo de Deus. Mas há silêncios que dizem mais do que longos discursos…
José está sempre onde deve estar – no momento justo, cumprindo com exatidão a sua tarefa
Como o deserto, que tantas vezes oculta riquezas insuspeitadas, o silêncio de José revela uma densidade rara. A experiência humana reconhece que todo silêncio carrega um sentido: há o silêncio do luto, da vergonha, do medo, da cólera, da dissimulação. Há também aquele silêncio pesado da ignorância, ou do receio de desagradar. O de José, porém, distingue-se de todos esses. É um silêncio habitado por virtudes: humildade e prudência, caridade e serenidade, paz interior e respeito, labor diligente e recolhimento, vida contemplativa e abandono confiante à Providência. Não é uma ausência ou uma omissão, mas uma presença em estado puro.
Como já disse, foi somente a partir do século 4.º que começou a formar-se, pouco a pouco, uma reflexão mais explícita sobre sua pessoa. Grandes vozes da tradição cristã como Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Teresa d’Ávila e Monsenhor Escrivá contribuíram decisivamente para iluminar esse mistério discreto. A elas somos devedores de uma herança espiritual que nos permite hoje aproximar-nos de José com mais inteligência e devoção. Depois de Maria, José foi o maior de todos os santos (“… mas o menor no Reino dos Céus é maior do que ele…” Cf. Mt 11, 11), e, como ela, viveu uma existência inteiramente comum, sem feitos extraordinários, sem milagres visíveis. A santidade que ambos alcançaram não se apoiou no extraordinário, mas na fidelidade absoluta ao ordinário.
Ainda assim, sua vida foi tocada pelos maiores mistérios. Ele esteve presente no mistério da Encarnação, ao ser constituído pai de Jesus; foi introduzido no mistério trinitário ao acolher, na fé, a revelação divina; e participou, de modo velado, do mistério da Redenção, quando começou a entrever que os “assuntos do Pai” ultrapassavam as medidas humanas. Sua proximidade com o Verbo Encarnado e com aquela que lhe deu a carne ultrapassa, sob certo aspecto, a de figuras como Moisés ou Elias. Se, no Antigo Testamento, Deus fixara sua presença na Arca da Aliança, figura da Virgem, protegida por querubins, pode-se entrever, à luz da tradição, uma imagem distante da missão de José: velar, com reverência, sobre o mistério vivo de Deus entre os homens. Sua vida, longe de qualquer quietude, foi marcada por tensões e sábias decisões, guiadas por uma escuta atenta, inclusive atenta aos seus sonhos. Os poucos episódios que os Evangelhos conservam mostram-no envolvido nas mesmas contradições que atravessam toda existência humana: o desejo de felicidade, a necessidade de acolher a vontade divina e o combate contra as forças do mal. Nada lhe foi poupado do drama da liberdade. Ao contrário, sua fidelidade foi continuamente provada.
Por isso, sua discrição não deve em nada ser confundida com apagamento. José está sempre onde deve estar – no momento justo, cumprindo com exatidão a sua tarefa. Sua vocação, embora ordinária na aparência, revela-se exemplar na substância. E nós podemos encontrá-lo nesse cotidiano silencioso, onde sua presença, sem recorrer a palavras, ensina o modo mais simples e mais alto de corresponder à vontade de Deus. Seu exemplo traça um caminho privilegiado de santidade: o de acolher, no interior da própria vida, aquilo que recebeu em sua casa – Maria, que em seu seio trazia Jesus. Eis o segredo de toda vida espiritual autêntica, a encarnação viva das bem-aventuranças: abrir espaço, no coração, para a presença de Deus e deixar-se transformar por ela.
Esse traço decisivo de sua alma – quero dizer, a justiça, agir da forma exata no momento exato, estar no lugar exato onde deve estar, sem excessos nem carências – não é de pouca monta, e não deve ser ignorado. Formado no seio do povo de Israel, nutrido pelas Escrituras, José aspirava à justiça – não como ideal abstrato, mas como vida concreta, a sua. A Escritura ensina que “o justo cresce como a palmeira e se eleva como o cedro do Líbano”; e os grandes exemplos da História Sagrada – Abel, Abraão, Jó – haviam mostrado que a fidelidade a Deus passa, inevitavelmente, pelo mistério do sacrifício. Deus pede, por vezes, aquilo que há de mais precioso; e, no entanto, devolve em medida inesperada. Esse paradoxo, desconcertante e luminoso, forma o coração do justo. Foi nele que José aprendeu a viver.
Se a justiça, nas páginas da Escritura, aparece como um ideal luminoso, a vida concreta revela o caminho por vezes desconcertante pelo qual Deus conduz o homem até ela. Pois nem de longe trata-se de um percurso linear, ou de uma simples acumulação de méritos. Há, antes, um movimento paradoxal: o Senhor pede aquilo que Ele mesmo deu, como se exigisse a renúncia para, em seguida, restituir de modo mais pleno. É nesse vaivém, que escapa à lógica imediata, que a alma é educada. A figura de José torna esse mistério particularmente visível. O que lhe fora concedido – Maria – pareceu, de repente, ser-lhe retirado. A descoberta da gravidez inesperada introduz, em sua vida, uma provação de rara intensidade. Não se trata apenas de um enigma intelectual, mas de um abalo afetivo profundo: ele se vê diante de um mistério maior do que pode abarcar sua compreensão. E, no entanto, é esse mesmo amor que o impede de ceder à reação imediata. Sem recorrer a justificativas elaboradas, ele escolhe proteger Maria, mesmo à custa de si. Decide afastar-se em segredo, preservando sua honra. Há, nesse gesto, uma renúncia livre ao que lhe é mais precioso. Talvez tenha sido essa a mais aguda de suas provações: abdicar do próprio amor em nome do bem da pessoa amada.
José aprendera a amar a Lei não como imposição, mas como caminho de liberdade. A fidelidade aos mandamentos não sufoca o amor; ao contrário, oferece-lhe espaço para crescer
É então que a intervenção divina se faz ouvir, não como explicação total, mas como apelo à confiança. A tradição bíblica já lhe oferecia ecos desse modo de agir de Deus: o filho de Abraão poupado no último instante, a história de Tobias conduzida por mãos invisíveis. Não eram situações idênticas, mas apontavam para um mesmo núcleo: a exigência de uma confiança que se entrega antes de compreender. José é chamado a dar esse passo: consentir no plano da Providência sem possuir ainda sua chave. A partir daí, sua experiência adquire uma clareza singular, que pode ser comparada ao trabalho paciente do artesão. Assim como a madeira precisa ser talhada, cortada e ajustada para tomar forma, também a alma humana é trabalhada por Deus. Não se trata de uma justiça meramente exterior, de equilíbrio entre dar e receber, mas de uma adesão interior, total, à vontade divina.
Observem que é uma inversão total em relação à medida humana (e essa inversão ficará ainda mais patente na própria Paixão do Cristo, e no caminho de santidade de muitos filhos da Igreja nos séculos por vir). A justiça de Deus não opera por equivalência: Ele dá sem conta. Aquilo que parece perda revela-se, mais tarde, como superabundância. O sacrifício pedido não visa a empobrecer, mas preparar o coração para um dom maior. José e Maria vivem, assim, num equilíbrio estranho e fecundo, em que a doação mútua não diminui, mas amplia – e onde a alegria, a paz e a amizade surgem como fruto quase inevitável. E esse dinamismo já não era estranho à tradição espiritual de Israel. Formado pela escuta das Escrituras, José aprendera a amar a Lei não como imposição, mas como caminho de liberdade. A fidelidade aos mandamentos não sufoca o amor; ao contrário, oferece-lhe espaço para crescer. Aquele que se deixa moldar por essa pedagogia descobre que a justiça, e a vontade divina, impregnada na Lei, têm como única finalidade educar e alargar o coração.
É nesse horizonte que se deve compreender a transformação interior que sua provação desencadeia. Aquilo que inicialmente se apresentava como perda – a possível ausência de Maria – revela-se, pouco a pouco, como aprofundamento do amor. Como nos grandes relatos bíblicos, o sacrifício pedido não é um fim em si mesmo, mas um meio de purificação e de revelação. O que Deus parecia retirar era, na verdade, conduzido a um nível mais alto de sentido. Mas há ainda um passo além. A justiça que José buscava, nutrido pela Lei, começa a assumir um rosto concreto. Já não se trata apenas de cumprir o que é devido, mas de entrar numa lógica nova, na qual o amor se torna o critério último. Essa “nova lei” não abole a antiga, mas a leva à plenitude. E ela não se apresenta como um conceito, mas como uma presença viva: o Menino que cresce sob seu olhar. Nele, a justiça deixa de ser “medida” e torna-se dom. Não consiste mais em dar a cada um o que lhe é devido, mas em amar sem cálculo. Trata-se de uma transformação silenciosa, porém radical: a passagem de uma ética da obrigação para uma existência configurada pelo amor.
Há momentos em que a existência se concentra num único ponto, e tudo o que antes parecia disperso adquire subitamente uma unidade nova. Para José, aquela crise – tão aguda quanto silenciosa – foi também o instante de sua consolidação interior. A imagem que lhe ocorria, nascida de seu próprio ofício, é particularmente expressiva: como a madeira escolhida pela sua resistência, ele se percebia agora chamado a ser firme, quase como um carvalho, capaz de sustentar um peso que não escolhera, mas que lhe fora confiado. Não se tratava apenas de aceitar uma situação; tratava-se de assumir uma missão. A força que lhe era pedida não era a da imposição, mas a da fidelidade. Com a solidez de quem compreende, ainda que parcialmente, o que lhe é solicitado, ele se entrega sem reservas. Torna-se pai não por geração, mas por dom – porque Deus lhe confia aquilo que tem de mais precioso. E é precisamente nessa entrega que o amor entre ele e Maria se aprofunda, como se a provação tivesse purificado tudo o que nele havia de instável. O sacrifício, longe de extinguir o amor, revela-lhe a fragrância mais pura.
As palavras que, segundo o Evangelho, ecoam no momento decisivo – “não temas” – dirigem-se a ambos. Nelas, condensa-se uma verdade essencial: o que está em jogo ultrapassa qualquer projeto humano. A criança que Maria traz não é apenas um acontecimento extraordinário; é o cumprimento de uma promessa que atravessa os séculos. José se vê, então, como testemunha de um ponto culminante da história: a realização da antiga profecia do Emanuel, o “Deus conosco”. Esse reconhecimento transforma também a qualidade de seu amor. Se antes amava Maria por suas virtudes, agora a contempla como portadora de um mistério que a ultrapassa e, ao mesmo tempo, a define. Ela se torna, aos seus olhos, uma espécie de tabernáculo vivo, lugar da presença divina. A antiga imagem da Arca da Aliança, tão cara à tradição de Israel, encontra nela uma realização inesperada. E José, introduzido nesse mistério, é chamado não a possuí-lo, mas a guardá-lo.
A resposta a esse chamado se exprime numa atitude simples e absoluta: escutar e dizer “sim”. A vida espiritual, em sua essência, não exige uma multiplicidade de gestos extraordinários, mas uma disponibilidade constante à Palavra que chama. Há, nessa escuta, uma confiança que transforma. Aquele que se abandona à vontade divina não perde sua liberdade; antes, a encontra em sua forma mais plena. Fé e amor deixam de ser conceitos e tornam-se uma única realidade vivida.
A vida espiritual, em sua essência, não exige uma multiplicidade de gestos extraordinários, mas uma disponibilidade constante à Palavra que chama
A vida da família de Nazaré, exteriormente semelhante a tantas outras, abriga, assim, um princípio novo. No cotidiano mais simples – no trabalho, na oração, na convivência –, manifesta-se uma lei mais alta, que ordena todas as relações. Há nela uma força ao mesmo tempo suave e ardente, capaz de sustentar e transformar. Tudo, naquele lar, parece ecoar o antigo cântico de amor que atravessa as Escrituras, agora elevado a uma intensidade inédita. Dessa experiência brota também um desejo que ultrapassa os limites da própria casa: que essa mesma lei de amor alcance todas as famílias, todos os povos. O que ali se vive em silêncio está destinado a irradiar-se. Ainda que de forma oculta, já se delineia a mensagem que um dia será proclamada abertamente.
A decisão de José – acolher Maria e o filho que ela traz – revela-se, então, como o ato mais justo de sua vida. Não porque resolva todas as questões, mas porque se funda numa confiança radical. Sua fé não é apenas um assentimento intelectual, mas o abandono filial a um desígnio que ultrapassa a compreensão. Trata-se de confiar na bondade de Deus mesmo quando seus caminhos parecem desconcertantes.
Essa docilidade não se exerce no vazio. José aprende, no convívio diário, a reconhecer e a imitar. A justiça que busca torna-se concreta nos gestos, na atenção aos detalhes, na fidelidade às pequenas coisas. Cada ação, por mais simples, é realizada com cuidado, pontualidade e espírito de serviço. Não há separação entre o extraordinário e o ordinário: tudo é ocasião de corresponder ao amor. O trabalho, a oração, a vida familiar e as relações humanas tornam-se o campo onde essa fidelidade se encarna. Mas, novamente, essa unidade não se constrói sem crise. O episódio decisivo que se segue ao retorno de Maria marca um ponto de inflexão. José é colocado diante de uma escolha que redefine sua existência: assumir uma responsabilidade que ultrapassa todas as medidas humanas. A perturbação que experimenta não é sinal de fraqueza, mas de lucidez diante da grandeza do chamado. É precisamente essa prova que o amadurece. Nela, sua personalidade se consolida, adquirindo a força e a largueza de alma necessárias para acolher o que lhe é pedido. Como todo jovem coração diante do inesperado, ele vacila; mas, mesmo trêmulo, esforça-se por estar à altura de sua vocação. A fidelidade, aqui, não é ausência de medo, mas decisão que se mantém apesar dele. E é nesse ponto – no limiar entre a incerteza e a confiança – que sua história se torna exemplar. Não pela ausência de conflito, mas pela maneira como ele o atravessa: deixando-se conduzir, pouco a pouco, por uma luz que não elimina a obscuridade, mas a habita.
Não seria a história de José um exemplo e um modelo para todos nós, sem exceção?
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