Uma degustação exclusiva do seleto uísque escocês Macallan, realizada em Londres em 25 de abril de 2024 e que custou quase US$ 641 mil (pouco mais de R$ 3 milhões no câmbio da época), reuniu o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e autoridades brasileiras.
Entre elas estavam os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o então ministro da Justiça do governo Lula, Ricardo Lewandowski, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) e o ministro do Superior Tribunal de Justiça Benedito Gonçalves.
Os nomes foram divulgados pelo Poder 360 e confirmados pela Gazeta do Povo com fontes ligadas às investigações e com base em documentos encaminhados à CPMI do INSS em apuração que investiga o caso Master. Nenhuma das autoridades citadas é investigada e não há irregularidades nem crimes identificados.
Mas a presença das autoridades na festa de luxo aponta para um problema ético de proximidade de ministros e servidores de alto escalão com um suspeito de crimes e a aceitação de benefícios e luxos que custaram milhões.
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Naquele mesmo período, em abril de 2024, escritórios de advocacia ligados a autoridades presentes na degustação já prestavam serviços ao banco e ao seu controlador.
No caso do ministro Alexandre de Moraes, sua esposa, Viviane Barci de Moraes, confirmou em nota nesta semana que o escritório em que é sócia iniciou a prestação de serviços jurídicos ao banco em fevereiro de 2024, dois meses antes da viagem do ministro a Londres. O contrato teria se estendido até o início do último trimestre de 2025, período em que a instituição financeira entrou em processo de liquidação pelo Banco Central.
Também naquele período, um escritório ligado à família de Ricardo Lewandowski, administrado pelos filhos, tinha contrato de prestação de serviços jurídicos com Vorcaro. A parceria havia sido assinada ainda quando Lewandowski era sócio do escritório, em agosto de 2023, e se estendeu até setembro de 2025.
O então ministro deixou a advocacia no início de 2024 para se dedicar ao cargo público nomeado por Lula e, em nota, confirmou que atuou como advogado após se aposentar no STF, mas que deixou o escritório, suspendendo seu registro na OAB, para assumir como ministro no começo do ano retrasado. À época do evento em Londres, Lewandowski exercia o cargo de ministro da Justiça e os filhos advogavam para Vorcaro.
Quanto à confraternização e degustação de uísque escocês em Londres, o evento foi realizado em um clube de cavalheiros, o George Club, que está em uma das áreas mais caras da capital britânica, Mayfair.
O encontro específico, para degustação do uísque que pode custar até R$ 100 mil a garrafa, reuniu pouco mais de 30 convidados, entre integrantes do Judiciário, nomes ligados à gestão do governo federal, empresários brasileiros e representantes do setor financeiro que estavam na cidade para participar de outro evento, o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado de 24 a 26 de abril de 2024 em Londres. O Fórum teve o Master como um dos principais patrocinadores, incluindo o custeio de uma palestra do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.
De acordo com documentos enviados pela organização do Fórum à Polícia Federal e posteriormente à CPMI do INSS, o valor pago pela experiência no George Club incluiu a degustação do uísque escocês, serviços gastronômicos, entretenimento e estrutura de hospitalidade para os convidados. A reunião social ocorreu em paralelo às atividades oficiais do fórum jurídico que reuniu autoridades brasileiras na capital britânica (veja relação de autoridades no Fórum abaixo).
Em uma das trocas de mensagens entre Vorcaro e à então namorada, o ex-banqueiro chegou a se gabar do encontro com autoridades brasileiras e, em diálogo registrado em 24 de abril de 2024, escreveu: “Amorrrr, acabei de dar o discurso para os ministros”. Em seguida, comentou com entusiasmo sobre o ambiente em que se encontrava: “Todos ministros do Brasil, do STF, STJ etc. E euzinho discursando”. Surpresa, a então namorada respondeu: “Wowwww… O que está acontecendo aí? Que máximo”, acrescentando depois que a situação parecia “surreal” e parabenizando o empresário pelo momento.
As investigações também revelam que os encontros, tanto o reservado no seleto clube londrino quanto a própria realização do Fórum, tiveram câmeras e veículos de comunicação afastados para evitar questionamentos e exposições públicas. Após a confraternização em Londres, os convidados também receberam garrafas de presente.
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Encontro foi parar em relatório da PF a Fachin
O encontro no George Club passou a ganhar relevância no caso Master porque ele teria sido mencionado, segundo o Poder 360, durante a sessão reservada do STF realizada em 12 de fevereiro de 2026. Sob pressão, ministros analisavam naquela ocasião o relatório elaborado pela Polícia Federal e enviado ao presidente da Corte, Edson Fachin.
O documento foi utilizado no contexto das discussões que levaram à saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso no STF. O caso acabou sendo redistribuído por sorteio ao ministro André Mendonça, que não participou da confraternização em Londres.
Um dos pontos que consta no relatório dizia respeito à proximidade entre autoridades presentes no evento e o empresário investigado. Durante a conversa entre ministros, que teve trechos vazados, Alexandre de Moraes teria argumentado que a participação de integrantes do Judiciário e de outras autoridades no encontro social em Londres não configuraria impedimento para a atuação de magistrados nos processos ligados ao banco.
Segundo as investigações, a programação social ligada ao Fórum não teria se limitado à degustação no George Club. No dia seguinte à degustação, parte dos convidados foi a outro clube exclusivo da capital britânica, o Annabel’s, onde participaram de um jantar.
Documentos encaminhados à CPMI indicam que toda a programação realizada em Londres, de 24 a 26 de abril de 2024, teve custo total de pouco mais de US$ 6 milhões (R$ 30 milhões considerando a cotação à época). Com base nos documentos enviados à CPMI, todo o orçamento incluiu hospedagem dos convidados em hotel de luxo, transporte, eventos privados em clubes tradicionais, além de apresentações musicais e atrações de entretenimento.
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Investigação quer entender relação de Vorcaro com autoridades
O patrocínio do Banco Master ao Fórum e a presença de autoridades públicas no evento passaram a ser analisados com maior atenção após o avanço das investigações conduzidas pela Polícia Federal e o avanço da frente investigativa da CPMI do INSS.
Apesar de não haver quaisquer evidências de irregularidades na realização do Fórum e dos eventos paralelos, os investigadores querem entender como e com quais recursos foram custeadas as atividades.
No âmbito geral do caso envolvendo o banco, as investigações apontaram suspeitas de irregularidades no sistema financeiro envolvendo o grupo então controlado por Daniel Vorcaro, que posteriormente se tornou alvo de inquéritos e acabou preso, pela segunda vez, no âmbito das investigações da operação Compliance Zero. Vorcaro está custodiado no Presídio Federal de Segurança Máxima em Brasília desde a semana passada.
Segundo investigadores, a confraternização em Londres, inicialmente tratada apenas como um evento social ligado ao fórum jurídico, acabou entrando no radar por envolver figuras centrais do Judiciário, do Executivo e da área de segurança pública em um momento em que o dono do Master já mantinha interlocução frequente com diferentes esferas de poder.
Autoridades que participaram do Fórum de Londres
A programação do Fórum em Londres reuniu diversas autoridades brasileiras dos três Poderes e de órgãos de controle. Destaca-se que não há menções de todas elas nos atos festivos reservados.
Na programação oficial, conforme divulgação oficial, constavam nomes como o embaixador do Brasil no Reino Unido, Antonio Aguiar Patriota, responsável pela abertura do encontro; além de Moraes e Dias Toffoli, o ministro Gilmar Mendes; o então ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski; o advogado-geral da União, Jorge Messias; e os ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Mauro Campbell Marques, Benedito Gonçalves, Raul Araújo, Luis Felipe Salomão e Antonio Saldanha Palheiro.
Também constavam na programação o presidente do Cade, Alexandre Cordeiro, os conselheiros do Cade José Levi Mello do Amaral Jr. e Victor Fernandes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e a conselheira do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) Daiane Nogueira de Lira.
A lista incluía ainda representantes do Poder Legislativo e do Executivo, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), a quem Vorcaro chegou a se referir em mensagens a então namorada como um “amigo de vida”, o senador Davi Alcolumbre (União-AP), então presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, o deputado federal Hugo Motta e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Também teriam participado o ex-presidente da República Michel Temer, o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) André Ramos Tavares, além de representantes do setor privado.
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