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A guerra da Rússia pelo controle da informação

Cristiane Arruda Por Cristiane Arruda
2 dias Atrás
Por Gazeta do Povo
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A guerra da Rússia pelo controle da informação

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Desde o início da guerra contra a Ucrânia, a Federação Russa tem conduzido suas ações em um ambiente que ultrapassa o campo estritamente militar. Em paralelo às operações convencionais da Rússia, observam-se também campanhas transnacionais de influência que combinam financiamento, produção de conteúdo e coordenação narrativa em múltiplas plataformas.

Um exemplo recente dessa dinâmica foi a revelação de uma campanha atribuída a um grupo de espionagem da Rússia na Argentina, voltada a desacreditar o governo do país vizinho, com desembolso de pelo menos 283.100 dólares para a produção de mais de 250 conteúdos em mais de 20 plataformas digitais. O caso ilustra como a disputa informacional contemporânea ultrapassa fronteiras nacionais e se vale de recursos financeiros, mediação tecnológica e exploração de tensões políticas internas para produzir efeitos cognitivos e simbólicos.

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À luz da doutrina da Otan, esse tipo de atuação da Rússia se insere no campo das comunicações estratégicas e das operações de informações, entendidas como processos voltados à coordenação de mensagens, ações e efeitos no ambiente informacional. A doutrina da aliança ocidental enfatiza que palavras, imagens e ações devem manter coerência para produzir credibilidade e influência sobre audiências específicas. No mesmo sentido, a literatura norte-americana recente trata a informação como elemento central da competição estratégica, destacando que o controle, a proteção e o emprego do ambiente informacional são componentes decisivos da vantagem operacional.

Nesse contexto, este artigo sustenta que a Rússia mobiliza instrumentos jurídicos, educacionais, econômicos, militares e digitais para consolidar uma narrativa dominante sobre a guerra e sobre a própria identidade nacional. O objetivo não parece ser apenas neutralizar o dissenso, mas também nivelar percepções, preservar a coesão social e legitimar, perante o público doméstico, a continuidade do conflito. Em termos analíticos, a leitura do caso à luz da literatura da Otan e da doutrina norte-americana sobre comunicação estratégica e operações de informações oferece uma base mais comparável e internacionalmente reconhecível para interpretar esse processo.

No caso russo, a disputa informacional não se limita à mídia ou às plataformas digitais; ela é reforçada por um aparato jurídico que delimita o que pode ser dito, publicado e compartilhado

A literatura da Otan trata a informação como parte central do ambiente operacional contemporâneo. A política de Comunicação Estratégica da aliança define essa função como a coordenação de ações, palavras e imagens para apoiar objetivos de alto nível e influenciar opiniões em ambientes de competição contínua. A mesma lógica aparece na doutrina da Otan para Operações de Informação, que as entende como um conjunto de atividades sincronizadas para produzir efeitos no plano cognitivo e apoiar a tomada de decisão em contextos de paz, crise e conflito.

Já a doutrina dos Estados Unidos reforça essa compreensão ao tratar a informação como recurso estratégico a ser protegido, explorado e empregado em apoio às operações e à decisão. A recente institucionalização de um manual do Exército dedicado à informação mostra que o tema passou a ocupar posição mais explícita na doutrina militar norte-americana, justamente porque todas as ações produzem efeitos informacionais em diferentes públicos e domínios. Isso amplia a análise ao demonstrar que a disputa por vantagem estratégica não ocorre apenas no terreno físico, mas também na esfera simbólica e cognitiva, onde se formam crenças, lealdades e disposições políticas.

Autores da tradição militar norte-americana já vinham chamando atenção para essa dimensão. Bartles, há dez anos, destacou que a discussão sobre a forma russa de empregar guerra e informação exige cuidado conceitual, pois a leitura simplificada de “guerra híbrida” tende a obscurecer a integração entre instrumentos militares e informacionais. Sinclair, por sua vez, sustenta que a evolução do modo russo de guerrear não representa ruptura total com padrões anteriores, mas adaptação de práticas consolidadas ao ambiente contemporâneo. Esses referenciais ajudam a interpretar o caso russo como uma combinação coerente de coerção, narrativa e gestão do ambiente informacional, e não como mera soma de eventos isolados.

No caso da Rússia, a disputa informacional não se limita à mídia ou às plataformas digitais; ela é reforçada por um aparato jurídico que delimita o que pode ser dito, publicado e compartilhado. Sob a ótica da Otan, esse tipo de arranjo é relevante porque as Operações de Informação (OpInfo) não tratam apenas da circulação de mensagens, mas da coordenação entre atividades informacionais, opinião pública e efeitos cognitivos ao longo do ambiente operacional. Quando o ordenamento jurídico passa a definir quais narrativas são aceitáveis, o Estado deixa de apenas regular a comunicação e passa a organizar o próprio campo de interpretação da realidade.

Em 2025, a Rússia aprovou a obrigatoriedade do aplicativo chamado Max para todos os celulares do país, integrando mensagens, serviços públicos e identidade digital em uma mesma plataforma, que permite maior vigilância digital

Esse movimento é coerente com a lógica descrita na doutrina norte-americana mais recente, segundo a qual a informação é central para o comando, para a tomada de decisão e para a obtenção de vantagem informacional. A publicação do Exército dos EUA reconhece que todas as atividades geram efeitos informacionais e que o adversário tenta explorar continuamente esse domínio para obter influência e controle antes mesmo de um confronto armado. Assim, medidas legais que restringem críticas, punem narrativas dissidentes e protegem a imagem institucional das Forças Armadas podem ser interpretadas como parte de uma disputa persistente por vantagem informacional.

A doutrina da Otan sobre comunicação estratégica destaca que mensagens, ações e sinais do Estado precisam ser coerentes para produzir credibilidade e efeito sobre audiências específicas. No caso analisado, o da Rússia, essa coerência é buscada por meio da associação constante entre guerra, patriotismo, defesa nacional e legitimidade política. Em vez de uma comunicação episódica, observa-se a construção de uma narrativa dominante que estrutura a percepção dos fatos de modo contínuo, especialmente em contextos de conflito.

Não menos importante, a dimensão educacional é central em qualquer estratégia voltada ao controle do ambiente informacional, porque ela atua sobre a formação de opiniões antes mesmo de o indivíduo entrar em contato com narrativas concorrentes. A doutrina da Otan sobre OpInfo destaca que a atuação informacional deve ser planejada para produzir efeitos cognitivos sobre públicos específicos ao longo de todo o tempo possível, inclusive em tempos de paz. Nesse sentido, programas escolares, materiais didáticos e iniciativas de formação cívica não funcionam apenas como instrumentos pedagógicos, mas como meios de modelar identidade, lealdade e interpretação histórica.

Na Rússia, a reorganização curricular, a introdução de aulas patrióticas e a reformulação de livros de história parecem buscar a consolidação de uma narrativa estatal única sobre passado, presente e futuro. Em termos estratégicos, isso se aproxima da lógica descrita pela doutrina da Otan informação e comunicação não são esferas acessórias, mas componentes capazes de influenciar atitudes e comportamentos de forma duradoura. A disputa por memória histórica, portanto, assume papel operacional, porque define quais interpretações da guerra e da identidade nacional serão consideradas legítimas pelas novas gerações.

No caso russo, a soberania digital aparece, portanto, não apenas como uma política tecnológica, mas como um instrumento de controle do ecossistema informacional e de reforço da narrativa estatal

A presença de símbolos patrióticos no espaço público da Rússia reforça essa mesma lógica. A comunicação estratégica da Otan parte do princípio de que palavras, imagens e ações devem ser coerentes para sustentar credibilidade e produzir efeito sobre audiências-alvo. Quando símbolos militares, referências à guerra e sinais de unidade nacional são disseminados em escolas, repartições, transportes e campanhas públicas, o Estado amplia a repetição da mensagem e transforma o cotidiano em um ambiente de exposição contínua à narrativa oficial.

Nesse contexto, outro aspecto defendido é que a proteção da imagem das Forças Armadas russas é um elemento central da estratégia informacional voltada à manutenção da coesão interna. A doutrina norte-americana recente afirma que todas as atividades produzem efeitos informacionais e que a competição por influência é contínua, mesmo antes do confronto armado. Nesse contexto, criminalizar críticas ao Exército, limitar a circulação de relatos negativos e ampliar a visibilidade de símbolos militares contribui para preservar a legitimidade institucional e reduzir o desgaste político do conflito.

A Otan, ao tratar de Operações de Informação, ressalta que a coordenação entre mensagens, ações e percepção pública é essencial para produzir efeitos cognitivos coerentes sobre audiências específicas. Quando o Estado associa as Forças Armadas à defesa da pátria, à ordem social e à identidade nacional, ele transforma o aparato militar em eixo moral da narrativa oficial. Isso não apenas reforça a moral interna, mas também limita o espaço de contestação ao enquadrar a crítica como ameaça à unidade do país.

Assim, o controle sobre plataformas, aplicativos e fluxos digitais é outro componente importante dessa arquitetura. A Otan observa que o ambiente informacional inclui dimensões físicas, lógicas e cognitivas, de modo que o controle da infraestrutura digital afeta diretamente a circulação de mensagens e a capacidade de influência. Assim, restringir redes estrangeiras, favorecer serviços nacionais e ampliar o monitoramento da comunicação são medidas que têm impacto simultaneamente técnico e estratégico.

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Em 2025, a Rússia aprovou a obrigatoriedade do aplicativo chamado Max para todos os celulares do país, integrando mensagens, serviços públicos e identidade digital em uma mesma plataforma, que permite maior vigilância digital. Ele será pré-instalado em todos os celulares novos e possibilita o acesso a dados como localização, contatos, microfones e câmeras fotográficas, com uma política que permite compartilhar as informações com as autoridades governamentais. Tais recursos possibilitam ainda maior controle da população, que tem vulnerabilizado seu direito ao sigilo e à expressão.

Na perspectiva dos Estados Unidos, a informação deve ser tratada como ativo operacional, e sua proteção é tão importante quanto sua exploração. Em termos práticos, isso significa que o Estado pode buscar reduzir a exposição da população a fontes alternativas, concentrar dados sensíveis e aumentar sua capacidade de vigilância e resposta. No caso russo, a soberania digital aparece, portanto, não apenas como uma política tecnológica, mas como um instrumento de controle do ecossistema informacional e de reforço da narrativa estatal.

Este artigo não pretende esgotar o tema nem oferecer uma descrição completa de todas as medidas de controle informacional existentes na Rússia. O foco foi demonstrar, com base na doutrina da Otan e em documentos norte-americanos, que há coerência e intencionalidade na maneira como o governo russo restringe e modela o acesso à informação, redefine jurídica e simbolicamente territórios ocupados, mobiliza o sistema educacional, cultural e memorial para formar opiniões desejadas, protege juridicamente a reputação das Forças Armadas e constrói uma arquitetura de soberania digital que concentra dados e reduz a autonomia dos cidadãos.

À luz da literatura analisada, buscou-se evidenciar que esses movimentos não são fragmentados, mas compõem o emprego coordenado de múltiplos instrumentos de poder no espaço doméstico russo. A diferença central em relação ao cenário mais frequentemente tratado na doutrina ocidental é que, no caso russo, o alvo prioritário dessa operação não é apenas o inimigo externo, mas a própria população, entendida como centro de gravidade cuja percepção da realidade pode facilitar ou limitar a liberdade de ação do governo em relação à guerra.

Nesse sentido, entender o modo como a doutrina da Otan e as ações russas se desenvolvem no campo informacional e da comunicação social serve como alerta para que as nações desenvolvam sistemas de comunicação menos vulneráveis à manipulação da opinião pública, sendo fator-chave para a soberania dos países na atualidade. Proteger a sociedade de ações premeditadas para manipular opiniões pode ser fundamental para a manutenção da soberania e do Estado Democrático de Direito.

Dotar as instituições brasileiras de mecanismos que protejam a liberdade de expressão, ao mesmo tempo em que filtrem informações patrocinadas por potências estrangeiras com objetivos contrários aos da nossa sociedade, é um desafio permanente e em constante evolução. Acompanhar os meios de comunicação e fortalecê-los de modo a possibilitar que operem sem influência direta de outros atores talvez seja o único caminho a seguir.

Luciano Hickert é coronel da reserva do Exército, com diversos cursos no Brasil e no exterior, entre eles Direitos Humanos, na Colômbia, e Curso de Plana Mayor, na Argentina. Foi comandante de batalhão em Porto Alegre entre 2022 e 2023. Tem formação em Direito pela UFRGS; Rafael de Oliveira Penteado é tenente-coronel do Exército, turma de Infantaria de 2002 da Aman, e cursou a ECEME em 2019/20. Foi adjunto de Defesa, Naval, do Exército e Aeronáutico na Rússia. Atualmente comanda o 8º Batalhão de Polícia do Exército.

Créditos Gazeta do Povo
*conteúdo reproduzido para propagação da informação. Todos os direitos de imagem, conteúdo, texto e pesquisa são pertencentes a Gazeta do Povo. Caso queria que seja encerrado a publicação, envie email para jornalismo@novafm96.com.br para retirar do ar.



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